FU#KY U ALL

07 julho, 2018
Nossa maior referência do blues, o guitarrista Igor Prado tem um novo projeto com o grupo JustGroove, cuja proposta é fazer um blend de blues, soul e funk americano com beat e swing afro-brasileiro.
Ao seu lado estão grandes músicos da cena black & gospel nacional - o baixista Rael Lúcio, o guitarrista Jesiel Oliveira e o baterista André Azevedo. O projeto se iniciou em fevereiro deste ano com alguns shows que resultaram no EP Fu#ky U All e o grupo já tem uma tour de lançamento no Brasil e uma internacional para o ano de 2019. O repertório faz, num estilo muito próprio, novas leituras de D'Angelo, Justin Timberlake, The Meters, cruza Tim Maia e Jorge Ben, e mergulha em Johnny 'Guitar' Watson e BB King.
O resultado chamou atenção do mercado dos EUA, e já tem convite de um produtor musical de renome da terra do Tio Sam para um novo disco que será gravado no final deste ano, provavelmente uma continuação do laboratório do "Fu#ky U All".

No repertório do EP -
"Tell me whats on your mind" é uma versão em cima da música da banda de New Orleans "The Meters", em um beat diferente em que o backbeat funk se encontra com um quase partido alto envolvido por três guitarras rítmicas hipnotizantes e um slap bass bem ao estilo 70's funk.
"Your gonna have a murder on your hands" é uma composição do bluesman Little Milton em uma versão mais contemporânea misturando influências do west side blues, Buddy Guy, Jimmy Dawkins e até mesmo do Phil Guy, falecido irmão mais novo de Buddy Guy, este que ensinou muita coisa a Igor Prado em tours na sua adolescência. Na parte vocal, a forte influência de Al Green, Little Richard e Michael Jackson.

Em projetos paralelos, Igor Prado irá produzir o novo disco do cantor e compositor californiano Earl Thomas, este que tem colaborações fantásticas com artistas de renome como Etta James, Joe Cocker e Solomon Burke.
Tem mais - o projeto "James Brown Legacy" ganha forma e a guitarra funk e rítmica vem como protagonista em um universo que figuram nomes como Jimmy Nolen, Hearlon Martin, Al McKay e Jerome Smith.

Com a palavra, Igor Prado -

Depois de muitos trabalhos com artistas americanos, "JustGroove" vem com uma nova proposta. Fale sobre este projeto e o novo grupo que te acompanha.
Sim, é uma nova fase que estou curtindo demais. Começou assim - um amigo em comum já tinha me falado do Jesiel Oliveira, que é um monstro do funk-gospel, o cara já é uma referencia; e o Rael Lúcio, também experiente baixista e produtor musical dessa cena black e do gospel e que já tinha feito uns trabalhos pra mim acompanhando o trompetista americano Boney Fields. No final do ano falei com ambos, descobri que os caras praticamente cresceram juntos na mesma igreja e decidimos começar esse novo projeto, que é uma mistura de tudo o que a gente gosta. O Jesiel indicou o jovem André Azevedo, que tem uma pegada violenta de black-groove do gospel e também se conhecem e tocam há muito tempo. Os três tocam com uma galera da pesada, somente para citar alguns artistas como Seu Jorge, Mano Brown, Thalles Roberto e Banda Black Rio.
A conexão que esses caras tem tocando - Jesiel, Rael e André Azevedo - é absurda, eles tocam black music funk, soul e gospel desde criança na igreja e todos vem de um legado de músicos muito da pesada. O tio do Rael é o baixista Ted Furtado, que foi da banda Kadoshi, precursor e lenda viva nessa onda de black funk-slap no Brasil.

Por quê apostar nessa mistura de blues, funk e elementos de música brasileira?
A idéia dessa nova fase é misturar e mesclar tudo o que eu ouvi desde pequeno no rádio e em casa nessa onda blues, funk, rock, swing brasileiro e tudo mais. Ao mesmo tempo que eu ouvia Living Colour, Nirvana e Red Hot Chili Peppers no rádio, eu estava estudando Muddy Waters e Willie Johnson e rolava Jorge Ben, Choro e Partido Alto nas festas da minha família. Acho que essa vibe é a ideia central desse novo trabalho.
Na minha humilde opinião soa mais verdadeiro, soa mais “eu” mesmo. Não existe mais a preocupação de soar blues dos 40 ou 50 e nem de soar “blues” muitas vezes; mas é difícil porque toda minha base musical é calcada no blues, então tá rolando uma coisa muito interessantes nesse trabalho. Estou muito feliz.

Sobre equipamentos, o que mudou no seu setup para essa fase mais funky?
Nudou bastante, começando pelas guitarras - estou usando basicamente a velha Fender Strato (aquela com os 2 captadore Z90 da Harmonic Design) e a nova Telecaster que leva meu nome, uma Custom Shop do luthier Paulo Chiara aqui de Sampa - é uma Tele semi sólida com 3 captadores P90 que tem defasagem para fora de fase nas posições do meio. A sonoridade para esse trabalho mais funk é bem mais aguda e bem menos média do que os trabalhos de blues tradicional. Ambas agora com cordas Dean Markley, Blue Steel 0.10, que sou endorser desde o ano passado.
Sobre os amps adicionei um Peavey Pace dos anos 80 transistorizado, e é isso mesmo - transistor! É engraçado como a resposta do transistor, que é mais rápida do que a dos valvulados, faz mais sentido para coisas altamente rítmicas tipo funk. É por isso que a maioria dos guitarrista de funk, soul, gospel americano usam amps transistors. Pouca gente sabe, mas o BB King estava usando transistor nos últimos 20 anos da carreira, aquele LAB Series que o George Benson tb usa. Mas também continuo usando direto o meu Marshall Bluesbreaker Clone com falantes Weber Ferromax. Outro amp que a galera do blues odeia e o pessoal do funk ama é o Roland Jazz Chorus, que o Jesiel usa e eu adoro também para ao vivo.
Sobre os pedais, estou igual a uma criança pois sempre usei praticamente amp valvulado, cabo e reverb de mola outboard, e agora tenho a liberdade de usar o que eu quiser no som, na minha pedaleira que foi customizada pelo André Chiara da Chiara Guitar Parts. Tem uma fonte Voodoo Labs e um buffer Emerson Concord, sugestão do mestre Marcos Ottaviano que me ajudou muito nesse lance dos pedais também. A ordem é: Afinador Polytune da TC Eletronics + 01 Fuzz-Octave Experience Perscription Eletronics + 01 Octave Boss OC-2 + 01 Mellow Yellow Tremolo da Mad Professor + 01 RT-20 aquela Leslie da Boss + 01 RV-5 Digital Reverb + 01 Equalizer GE-7 da Boss. De vez em quando eu uso um auto-wah que tá com o Jesiel, aquele Ibanez antigo dos 80’s. Estou reaprendendo a usar todo esses efeitos, as dinâmicas, etc.
Mas tem uma curiosidade mesmo com tudo isso - nas gravações do EP foi usado muito a guitarra ligada direto em linha, toda a base rítmica com eu e o Jesiel tocando em Pan aberto. São 2 guitarras em linha! Como o Nile Rodgers já falou faz tempo - "não tem nada mais FUNKY do que uma guitarra elétrica em linha".

Falando de outros projetos, você está produzindo o disco do vocalista Earl Thomas e tem o "James Brown Legacy" com o baterista Sorry Drummer. Qual o momento destes projetos e o que podemos esperar?
É verdade! Estou compondo e escrevendo muita coisa, aprendi muito sobre composição com o cantor-compositor Earl Thomas na nossa última tour no Brasil e ele, pra mim, é o maior compositor vivo dentro do circuito, não à toa que Etta James, Joe Cocker, Tom Jones e Solomon Burke gravaram muita coisa dele. Inclusive estou produzindo o próximo disco dele e muito feliz e honrado com o convite. Ele acredita muito nesse blend de blues e funk americano com o swing brasileiro.
O projeto "James Brown Legacy" me trouxe, além da experiência uma amizade muito legal com a galera do hip-hop, e o Sorry Drummer, lendário batera da cena. Os DJ's Luciano Rocha e o Erick Jay me inspiraram muito nesses últimos meses, respeito e gosto muito dessa nova geração do rap e hip-hop brasileiro.
Quero mergulhar ainda mais nesse lance do James Brown pois toda a base do funk está ali naquelas guitarras e quero trazer essa vibe do rap/hip-hop cada vez mais pro meu trabalho solo também.
Enfim, vem mais novidades por ai!

Obrigado Igor Prado, e sucesso.




www.igorpradoband.com

Mais Igor Prado -

Soul Connection Way Down South Lowdown Boogie Igor Prado Band Donny Nichilo

DOWNBEAT CRITICS POLL 2018

28 junho, 2018
O destaque da edição 66 da premiação Downbeat Critics Poll fica para os artistas em ascensão, mostrando a linguagem do jazz sempre se renovando.

Assim destaco a pianista Kris Davis e a saxofonista Ingrid Laubrock, expoentes do movimento da improvisação livre, do "free jazz"; a cellista Tomeka Reid; a cantora Jazzmeia Horn; e os nem tão em ascensão, para mim já bem maduros, os guitarristas Julian Lage e Jakob Bro, e o contrabaixista Thomas Morgan.
Da votação tradicional, a importância da inclusão do saxofonista Benny Golson e da pianista Marian McPartland no Hall of Fame, pela longa carreira e pela imensa contribuição ao universo do jazz, por décadas; ambos estão na histórica foto de Art Kane "A Great Day In Harlem".

Ainda em destaque, um histórico registro em disco de Miles Davis, mais uma edição da série 'Bootleg', a sexta, agora com Coltrane intitulada "The Final Tour", em 4 discos gravados da última turnê de Coltrane como sideman em Paris em 1960.
O pianista Vijay Iyer ganhou novamente o título como músico de jazz, já havia levado o prêmio nos anos de 2016, 2015 e 2014; a voz de Cécile McLorin Salvant, agora com o disco "Dreams And Daggers"; o trompetista Ambrose Akinmusire, merecido pelo seu último disco ao vivo no Village Vanguard "A Rift in Decorum"; e, em memória, o piano de Geri Allen, que faleceu em junho do ano passado.

A lista completa estará publicada na edição de agosto da revista.

Confira os premiados -

Hall of Fame: Benny Golson and Marian McPartland
Jazz Artist: Vijay Iyer
Jazz Group: Vijay Iyer Sextet
Jazz Album: Cécile McLorin Salvant, Dreams And Daggers (Mack Avenue)
Historical Album: Miles Davis & John Coltrane, The Final Tour: The Bootleg Series, Vol. 6 (Columbia/Legacy)
Big Band: Maria Schneider Orchestra
Trumpet: Ambrose Akinmusire
Trombone: Wycliffe Gordon
Soprano Saxophone: Jane Ira Bloom
Alto Saxophone: Rudresh Mahanthappa
Tenor Saxophone: Charles Lloyd
Baritone Saxophone: Gary Smulyan
Clarinet: Anat Cohen
Flute: Nicole Mitchell
Piano: Geri Allen (1957–2017)
Keyboard: Robert Glasper
Organ: Dr. Lonnie Smith
Guitar: Mary Halvorson
Bass: Christian McBride
Electric Bass: Steve Swallow
Violin: Regina Carter
Drums: Jack DeJohnette
Percussion: Hamid Drake
Vibraphone: Stefon Harris
Miscellaneous Instrument: Akua Dixon (cello)
Female Vocalist: Cécile McLorin Salvant
Male Vocalist: Kurt Elling
Composer: Muhal Richard Abrams (1930–2017)
Arranger: Maria Schneider
Record Label: ECM
Producer: Manfred Eicher
Blues Artist or Group: Bettye LaVette
Blues Album: Taj Mahal & Keb’ Mo’, TajMo (Concord)
Beyond Artist or Group: Kendrick Lamar
Beyond Album: Kendrick Lamar, Damn. (Interscope/Top Dawg Entertainment)

Artistas em ascensão -

Jazz Artist: Kris Davis and Julian Lage
Jazz Group: Nicole Mitchell’s Black Earth Ensemble
Big Band: John Beasley’s MONK’estra
Trumpet: Amir ElSaffar
Trombone: Jacob Garchik
Soprano Saxophone: Jimmy Greene
Alto Saxophone: Caroline Davis
Tenor Saxophone: Ingrid Laubrock
Baritone Saxophone: Alex Harding
Clarinet: Matana Roberts
Flute: Rhonda Larson
Piano: Orrin Evans
Keyboard: Elio Villafranca
Organ: Roberta Piket
Guitar: Jakob Bro
Bass: Thomas Morgan
Electric Bass: Mimi Jones
Violin: Scott Tixier
Drums: Johnathan Blake
Percussion: Satoshi Takeishi
Vibraphone: Behn Gillece
Miscellaneous Instrument: Tomeka Reid (cello)
Female Vocalist: Jazzmeia Horn
Male Vocalist: Jamison Ross
Composer: Tyshawn Sorey
Arranger: Amir ElSaffar
Producer: Flying Lotus

www.downbeat.com

COLEÇÃO DE VINIL

26 junho, 2018
Coleção de Vinil é o disco de estreia do guitarrista e violonista Marcelo Pfeil. O título representa o trabalho no sentido da variedade de estilos e diversas influências que o artista carrega em sua música - o jazz, o samba, a bossa nova, o soul, o baião, o shuffle, o erudito e o choro.

Marcelo Pfeil é formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (Uni Rio) e pós-graduado em Orientação Educacional e Pedagógica pela Universidade Cândido Mendes (UCAM) cuja dissertação desenvolveu o tema “Oportunizando, nas aulas de Música, o aprendizado de violão para os alunos das escolas regulares do Ensino Fundamental”. Complementou sua formação com uma temporada de dois semestres no Conservatório de Música de Kreuzberg em Berlim, formou-se em Harmonia e Improvisação pelo Centro Ian Guest de Aperfeiçoamento Musical, onde teve aulas com o próprio Ian Guest, estudou violão com Luiz Otávio Braga, Maria Haro e Maurício Carrilho e cavaquinho com Jayme Vignolli e Luciana Rabello.


O que o motivou a batizar a obra com este título foi promover uma reflexão sobre a relação que ele tinha com a música, sem tantos apelos externos, como afirma no texto do encarte do disco. Diz ele -
Naquelas tardes em meu quarto, não dispunha de toda a informação do mundo. Nada brotava na tela em décimos de segundo. Amigo virtual eu desconhecia, amizade instantânea me fugiria à compreensão. O que seria isso, isolamento, timidez? Talvez. Naquelas lentas tardes, em minha pequenez maravilhava-me um mero encarte. 
Havia cumplicidade e escassez rica em possibilidades. E contemplava intenções com escuta atenta à agulha que tecia o detalhe”.

Marcelo Pfeil tem ao seu lado Alex Rocha no baixo; Lúcio Vieira na bateria; Marcelo Martins e Zé Canuto nos sopros; Vander Nascimento no flugelhorn; Vanessa Rodrigues nos teclados; Naife Simoes na percussão; e Mac Willian Caetano no djembê e efeitos.
O repertório é autoral e traz 9 composições explorando uma diversidade musical bem brasileira. O disco abre com "Trapézio" em uma atmosfera muito particular e um belo desenho melódico com Zé Canuto ao soprano; "Olha o Rapa!" chega cheia de balanço e conta com o sax de Marcelo Martins, que também  aparece no groove de "Zona Leste"; "Andar da Carruagem" dá um ar sessentão ao som do orgão nos teclados de Vanessa Rodrigues.
Tem um choro para Pixinguinha em "23 de abril"; uma mistura de raizes em "No calor da hora; traz um jazz tradicional na formação de trio em "Montmartre"; faz uma balada-bossa em "Ateliê", aqui com o flugelhorn de Vander Nascimento; e um espaço para o belíssimo tema em violão solo em "Onde mil lagos havia".



"Coleção de Vinil" foi gravado no Studio Master 112 em um processo bem acústico explorando os microfones, e na mixagem poucos plug-ins aproveitando a acústica do estúdio. Dos instrumentos, Marcelo Pfeil usou uma Ibanez Artcore com captadores Gibson Classic 57 em linha ligada no amp Fender; um violão Ovation Celebrity e um cavaquinho do luthier Carlinhos, ambos microfonados; além de, eventualmente, usar instrumentos do estúdio - uma Strato Fender e uma 335 Gibson.
A direção artística do disco é de Marcelo Pfeil, mixagem e gravação de Marcelo Frisieiro e masterização de Toney Fontes. Desenhos de capa de Hildete Vodopives e projeto gráfico de Marcia Lisboa.

Você encontra o disco nas plataformas digitais iTunes, Spotify, Deezer e pode adquirir o CD físico nos shows e na página pessoal do artista no Facebook.

SIMPLICIDADE

11 junho, 2018
O duo de guitarras formado por Rodrigo Chenta e Ivan Barasnevicius apresenta o quarto trabalho - Simplicidade, em que traz um repertório autoral com 6 composições, destacando três suítes - "Suíte das Orquídeas" com 4 movimentos, "Suíte 4" e "Suite da Bailarina" com três movimentos cada. Com muitas experimentações, o duo faz uso de afinações alternativas, o que torna o trabalho do guitarrista bastante desafiador pois desconstrói as formas de acordes e digitação dos improvisos como se está acostumado usando a afinação padrão.
O título do disco foi uma forma de representar o conceito deste trabalho. Apesar da complexidade harmônica que se apresenta em alguns temas, o duo quis trazer simplicidade na execução comparado aos últimos trabalhos, além do processo de gravação no estúdio. Isso também se reflete na arte da capa do disco, um fundo branco com algumas linhas vermelhas.

É como se diz por aí - a simplicidade é a máxima sofisticação, e aqui não foi diferente.

O disco abre com "India", resultado de uma imersão que Ivan fez sobre a música deste país e a sua diferente riqueza de timbres e instrumentos, um mergulho em um universo cheio de modalismos. Interessante perceber a instrumentação do tema com afinação DADG#AD, cuja sonoridade fica bem explicita na introdução dando uma atmosfera bem folk, depois ganhando dinâmicas variadas com riffs, harmônicos e aqui Chenta conduzindo o improviso. "Latin do Cachorro" faz um trocadilho com o latin jazz explorando a rítmica percussiva nas guitarras, cadenciam um forrózinho e desenvolvem nossa linguagem instrumental com aquela alternância de baixos fazendo base para os improvisos, aqui destaca-se o solo de Ivan.
"Suite das Orquídeas" descreve o gosto de Ivan pelas flores, pelas plantas, e foi uma forma de transpor esse sentimento em uma pluralidade de formas musicais. Novamente a afinação fora do padrão, DGDGBD, e a melodia tem um tratamento diferenciado em cada movimento. O primeiro e terceiro movimentos se desenvolvem com um intenso riff , com Chenta e Ivan dialogando vozes em acorde e melodia; o segundo e quarto movimentos repousam em uma atmosfera mais densa, um ar um tanto progressivo, desenvolvidos com serenidade e delicadeza pela guitarra de Ivan. "Alegria" é o sentimento de Chenta em um momento de aquisição de um novo violão quando fez o registro da melodia que lhe veio à mente; traz uma roupagem mais funkeada, aqui Ivan faz o primeiro improviso e Chenta o segundo. "Suite 4" também é uma composição de Chenta, cujo título refere-se a sua quarta suite criada. Aqui percebe-se forte influência mineira com uma roupagem bem contemporânea, muito evidente no primeiro e segundo movimentos, destacando os improvisos de Ivan e Chenta respectivamente. "Suite da Bailarina" fecha o disco em três movimentos - Dança do Amanhecer, Dança das Águas e Dança do Entardecer, inspiração de Ivan para sua filha Pietra composta na Serra do Cafezal, lugar que, inclusive, inspirou tema homônimo gravado no disco "Novos Caminhos". Novamente o uso de afinação alternativa, DGDGBD, dando uma atmosfera bastante peculiar em todos os movimentos. Chenta improvisa nos primeiro e terceiro movimento, Ivan no segundo.

"Simplicidade" foi gravado ao vivo no Estúdio Baeta por Thiago Lima Diatroptoff em janeiro de 2018, com mixagem e masterização de Pedro Pimentel. Rodrigo Chenta está no canal esquerdo e Ivan Barasnevicius no canal direito.

www.rodrigochenta.com/duo

Você pode ouvir o disco nas plataformas digitais Spotify e Deezer.



Mais Ivan Barasnevicius e Rodrigo Chenta -

Standards II Antítese Novos Caminhos 3136

DUO INSTRUMENTAL

22 maio, 2018
Formado por Giliade Lima na guitarra e Gilson Oliveira no violão de 7 cordas, o DUO Instrumental apresenta seu CD de estreia - Bons Momentos, com produção e arranjos próprios.
Com forte presença no sul fluminense, o DUO vem ganhando espaço e reconhecimento no eixo Rio-São Paulo, gravaram na série Instrumental Sesc Brasil e tem sempre ao lado convidados muito especiais em uma lista imensa de nomes de grande importância no cenário musical brasileiro que inclui Arismar do Espirito Santo, Wagner Tiso, Leny Andrade, Jacques Morelembaum, Robertinho Silva, Nivaldo Ornelas, Mauro Senise, Carlos Malta, Nelson Faria, Michel Leme, entre tantos outros.


O repertório do disco traz 10 composições, cinco delas autorais e cinco de compositores e amigos que tanto influenciaram a carreira musical do DUO como Toninho Horta em "Beijo Partido", Arismar do Espírito Santo em "Vestido Longo", Nelson Faria em "Saudade do Rio", Michel Leme em "Chá Chá Michel" e Adriano Giffoni em e "Natureza". Gilson Oliveira assina 3 composições - "Pra Dominguinhos", "Sentimento verdadeiro" e "Déia"; Giliade Lima assina "Sara"; e ambos assinam o tema título.

"Bons Momentos" tem a produção de Giliade Lime e Gilson Oliveira e foi gravado em fevereiro de 2017 no estúdio Casa Laranja Produções, em Penedo, sul do RJ, com mixagem e masterização por Gustavo Holanda.
Foto da capa é de Marco Aurélio Olimpio.

Aqui, um papo com o DUO -

Fale sobre a formação do DUO Instrumental.
Esse encontro musical surgiu da necessidade que tínhamos, e ainda temos, de estudar alguns temas. O Gilson integrava um quarteto com foco em música brasileira, o Quarteto Bem Brasil, que se apresentava no circuito musical do sul fluminense; e eu, Giliade, integrava um trio que tinha uma onda mais jazz, o PriimaTrio, interpretando standards. Com o trabalho de produção dos shows aqui pela região, muita gente vinha tocar por aqui e conhecemos bastante gente também; nessas produções o PriimaTrio fazia a abertura. Coincidentemente, o guitarrista Vitor Karyello tocava frequentemente num shopping local e certa vez indicou a mim, Giliade, para fazer a gig, que era uma programação intensa desde às 11 da manhã até o meio da tarde. Foi nessa de tocar em duo começamos a tocar juntos e esse formato durou quase 2 anos. Acabamos frequentando um curso de Harmonia no interior de São Paulo com o professor Luciano Bittencount, íamos juntos e criamos essa relação musical.
O resultado disso tudo criou o DUO Instrumental.

Um encontro de timbres com o violão de 7 cordas e guitarra. 
Como vocês trabalham os arranjos?
Os arranjos acontecem de forma bem natural, um de nós escolhe uma determinada música que iremos inserir no repertório e a partir daí o estudo começa. No inicio apenas a guitarra executava o tema, hoje em dia sentimos necessidade de mesclarmos. Gilson sempre foi "o cara da harmonia", eu, Giliade, carregava desde a minha formação de trio a frente de fazer os temas. Hoje nós dois improvisamos, não seguimos muito uma regra, a musica é livre e tentamos executar da melhor forma possível colocando nossa particularidade.
improviso é uma grande expressão do nosso trabalho e da nossa música.

O DUO sempre traz convidados especiais para dividir o palco, o que promove uma grande diversidade no repertório. Conta um pouco sobre esse projeto.
Tem sido um enorme prazer receber todos os músicos que aceitaram nosso convite e é um aprendizado incrível pela tamanha generosidade de cada convidado. O repertório é selecionado através de músicas que conhecemos em comum, em sua maioria música brasileira. Amamos nossa musica, que, sem dúvida, é a melhor do mundo.   
Essa história começou com um projeto que fizemos em 2012 no SESC Teresópolis e tivemos como convidado o Robertinho Silva para uma série de shows em homenagem Clube da Esquina, um projeto que se entendeu para várias unidades do SESC São Paulo que, inclusive, gravamos um programa.
Em 2014 iniciou o Projeto Instrumental Convida e o primeiro convidado foi o Arismar do Espírito Santo, daí surgiu esse movimento de trazer outros músicos e temos um orgulho imenso de compartilhar o palco com todos eles. O mais legal é que é sempre na base do improviso, fazemos a música na hora, o que torna tudo muito autentico.

Giliade Lima e Gilson Oliveira
Como deu-se o processo de gravação do disco?
A gravação acorreu em três dias, no estúdio da Casa Laranja Produções, em Penedo, do nosso grande amigo Gustavo Holanda. Gravamos tudo ao vivo dividindo a mesma sala, tentando reproduzir o mesmo clima de um show ao vivo. É claro que em uma gravação, pelo menos no nosso caso, é normal ficarmos um pouco tenso, afinal é o primeiro trabalho, tem essas coisas, mas com o passar das horas automaticamente fomos ficando mais tranquilos e a música fluiu da melhor forma possível.
É claro que, como músicos e críticos que somos, sempre esperamos algo mais de nós mesmos. O Gustavo Holanda foi super profissional, fez a mixagem, a master e até a arte da capa que, por sinal, ficou linda.

É desafiador fazer música instrumental?
O maior desafio é o próprio músico acreditar que é possível, que é capaz, sempre vai existir musica boa e musica ruim, instrumental ou não. O que devemos é acreditar no fazemos e expressarmos nossa verdade na nossa música. Nós buscamos meios que fomentar a boa música e encaramos isso de uma forma muito particular, nós vamos que bater na porta e pedir pra tocar e assim temos encontrado bastante espaço, não só instrumental mas de musica brasileira também, e isso nos dá a oportunidade de estar ao lado de cantoras maravilhosas como a Sanny Alves, pouco divulgada na mídia tradicional, mas de um talento gigante.

Obrigado DUO Instrumental, e sucesso.

Você pode ouvir o disco "Bons Momentos" na plataforma digital Spotify; e adquirir o CD pelo site www.duoinstrumental.com.br e pelo email contato@duoinstrumental.com.br

BLUES MUSIC AWARDS 2018

12 maio, 2018

Blues Music Awards chega em sua edição 39 celebrando o blues e homenageando os artistas que promoveram o estilo ao longo do último ano.

Esta edição traz em destaque Taj Mahal nas categorias de blues acústico e dois discos premiados - solo e o trabalho ao lado de Keb' Mo', que também aparece na frente do blues contemporâneo; Doug MacLeod pelo segundo ano consecutivo com disco acústico, o incendiário gaitista Rick Estrin, a voz de Beth Hart que vem ganhando cada vez mais espaço, e o mago das stratos Ronnie Earl novamente em evidência.
Ainda, o retorno do guitarrista Walter Trout, o gigante Curtis Salgado, Trombone Shorty aparecendo na cena blues, a menina Samantha Fish e a lembrança do Luther Alisson com uma coletânea histórica.


Confira os premiados -

Acoustic Album: Break The Chain, Doug MacLeod
Acoustic Artist: Taj Mahal
Album of the Year: TajMo, Taj Mahal & Keb' Mo'
B.B. King Entertainer of the Year: Taj Mahal
Band of the Year: Rick Estrin & The Nightcats
Best Emerging Artist Album: Southern Avenue, Southern Avenue
Contemporary Blues Album: TajMo, Taj Mahal & Keb' Mo'
Contemporary Blues Female Artist: Samantha Fish
Contemporary Blues Male Artist: Keb' Mo'
Historical Album: Luther Allison: A Legend Never Dies, Essential Recordings 1976-1997 (Ruf Records)
Instrumentalist Vocals: Beth Hart
Instrumentalist Bass: Michael “Mudcat” Ward
Koko Taylor Award (Traditional Blues Female Artist): Ruthie Foster
Instrumentalist Drums: Tony Braunagel
Instrumentalist Guitar: Ronnie Earl
Instrumentalist Harmonica: Jason Ricci
Instrumentalist Horn: Trombone Shorty
Pinetop Perkins Piano Player (Instrumentalist – Piano): Victor Wainwright
Rock Blues Album: We’re All In This Together, Walter Trout
Traditional Blues Male Artist: Rick Estrin
Rock Blues Artist: Mike Zito
Song of the Year: “The Blues Ain’t Going Nowhere”, written by Rick Estrin
Soul Blues Album: Robert Cray & Hi Rhythm, Robert Cray & Hi Rhythm
Soul Blues Female Artist: Mavis Staples
Soul Blues Male Artist: Curtis Salgado
Traditional Blues Album: Right Place, Right Time, Monster Mike Welch and Mike Ledbetter

Keep the Blues alive!
www.blues.org

VENTO SUL

31 março, 2018
O violonista carioca Luís Leite apresenta seu terceiro disco, Vento Sul, um trabalho autoral inspirado na riqueza poética da música latina, evocando o colorido plural de nossos países vizinhos, pincelando os regionalismos, não de forma folclórica, mas sincrética, um amálgama das vivências do artista ao longo dos anos e que, aqui, ganha emoção particular através, também, da empatia artística entre os músicos convidados.

"Vento Sul" é o mais introspectivo trabalho de sua carreira. Reuniu formações diferentes para cada faixa do disco, com as mais variadas instrumentações, em que cada música possui uma identidade própria e representa um universo particular em si mesma. É um convite a uma degustação delicada, sem pressa, um incentivo à exploração do nosso espaço interno de escuta.
Participam deste trabalho Tatiana Parra e Lívia Nestrovski nas vozes, Erika Ribeiro no piano, Peter Herbert no contrabaixo, Diego Zangado e Felipe Continentino na bateria; além dos sopros de Giuliano Rosas no clarinete e Wolfgang Puschnig na flauta, a percussão de Sergio Krakowski e Luis Ribeiro, a viola de Elisa Monteiro, o violino de Márcio Sanchez, o acordeão de Marcelo Caldi, o piano rhodes de Ivo Senra e o violão de Fred Ferreira.


Com berço musical, Luis Leite aprendeu os primeiros acordes no violão com seu avô, que o fez descobrir seu interesse pela música, do jazz à música clássica, e aos 14 anos já integrava Grupo Camerístico de Violões. Formado em violão pela UniRio, se especializou na Accademia Musicale Chigiana em Siena, Itália, e mudou-se para Viena onde viveu por uma década, recebendo os diplomas de bacharel e mestre pela Universitat fur Musik Wien, sob orientação do renomado violonista Alvaro Pierri.
Premiado em diversos concursos internacionais de violão, retornou ao Brasil assumindo a cátedra de Violão da Universidade Federal de Juiz de Fora, onde coordena o programa de Bacharelado em Violão. Concluiu seu Doutorado (PhD) em Música pela UniRio desenvolvendo pesquisa sobre novas linguagens de improvisação musical. Foi também vencedor do XI Prêmio BDMG Instrumental em Belo Horizonte e tem em sua discografia mais discos autorais - 'Mundo Urbano'  e 'Ostinato'.

"Vento Sul" abre com o tema "Santiago", cuja melodia foi escrita em um hotel na própria cidade homenageada, Santiago de Compostela, com alternância de compassos ímpares, como um preâmbulo ibérico e uma primeira parada em direção à América do Sul, aqui em duo com o piano de Erika Ribeiro.
"Veredas" traz voz e violão em busca de novos caminhos e percursos harmônicos, foi composta para a cantora Tatiana Parra que protagoniza o tema explorando uma estética de contornos melódicos sinuosos, e com a curiosa utilização do Adufo, um pandeiro sem platinelas protagonizado pelo percussionista Sergio Krakowski. "Flor da noite" faz duo com o clarinete de Giuliano Rosas, foi escrita em homenagem a Guinga, sua grande influência musical, e traz uma sonoridade mais escura, de harmonia aveludada. "Noturna" soa como uma improvisação livre, em fluxo contínuo, sem repetição na sua forma, trazendo uma reflexão nostálgica, sem pressa, presente o violão de Fred Ferreira e a voz de Lívia Nestrovski.

foto: Aline Müller
"Beniño" foi composta em homenagem ao nascimento do primeiro filho de Yamandu Costa, carrega uma melodia doce como uma cantiga de ninar, e traz ao longo do tema uma "chacarera", dança folclórica argentina, aqui com o violino de Marcio Sanchez, o acordeon de Marcelo Caldi e a bateria de Diego Zangado. "Céu de Minas" é de uma beleza ímpar, remonta às melodias naturais e narrativas musicais envolventes da música mineira, composta em uma noite de céu aberto e inspirada pela atmosfera cativante de um momento de tranquilidade e contemplação, novamente presente a voz de Tatiana Parra, o piano envolvente de Erika Ribeiro e a bateria Felipe Continentino.
"Minguante" é inspirada na personalidade introspectiva e feminina da lua minguante, que nos leva a um lugar de calma e serenidade, visitando nossas próprias inquietações internas em uma atmosfera expansiva colorida pelo improsivo do violão de Luis Leite, o violino de Márcio Sanchez e a viola de Elisa Monteiro. "Pedra do Sal" traz uma atmosfera mais jazzy e ganhou o título por conta do característico encontro musical que acontece no lugar homônimo no Rio de Janeiro. O tema foi gravado em um só take, espontâneo, e resgata o imprevisto, abrindo espaço para a experimentação e interação ao lado de Ivo Senra no piano rhodes e Felipe Continentino na bateria. "Caravan" se apresenta como um amálgama de confluências culturais, muito contemporânea, com poliritmias e sincretismos estilísticos, aqui com a flauta de Wolfgang Puschnig, o contrabaixo acústico de Peter Herbert e da percussão de Luis Ribeiro. O disco fecha com “Despedida”, sereno, nostálgico, única faixa do disco em que Luis Leite usa violão de aço, e traz uma inusual combinação instrumental com adufo, viola de arco e violões. O improviso com violão de nylon contrasta com o timbre do irmão de aço e o contraponto da viola, e é um epílogo com um sentimento de saudade, mas também de contato com um espaço íntimo interior, de tranquilidade.

Um trabalho tão delicado quanto intenso, em melodias e instrumentação; e que, com absoluta convicção, já se estabelece como um dos mais belos discos da nossa música nos últimos tempos.

"Vento Sul" pode ser adquirido pelo site www.luisleite.art.br



"Vento Sul" tem a produção de Luis Leite, direção artística de Luis Leite e Erika Ribeiro, engenharia de som de Carlos Fuchs e traz a arte gráfica de Maria Birba. A Assessoria de Imprensa é da Cezanne Comunicação.

JAM

18 março, 2018
Comemorando 25 anos de carreira, o baterista Alfredo Dias Gomes apresenta o disco JAM, seguindo a linha jazz-rock registrada em seus últimos trabalhos. Na formação de trio, tem ao seu lado o baixista Marco Bombom e o guitarrista Julio Maya, dois super músicos em perfeita sintonia com a proposta do disco.
Para o baixista Marco Bombom, que também participou dos discos "Pulse" e "Looking Back", é uma honra ter participado desses trabalhos ao lado do Alfredo, além de uma oportunidade ímpar estar ao lado dos músicos espetaculares que ele sempre convoca para as gravações, assim disse ele. Maya participou dos primeiros discos solo de Alfredo Dias Gomes - "Serviço Secreto" (1985), "Alfredo Dias Gomes" (1991) e "Atmosfera" (1996); e foi do reencontro com Alfredo que surgiu a oportunidade de registro deste novo trabalho.

Alfredo Dias Gomes

No repertório, 8 composições autorais -
“The Night”, tema que surgiu a partir de criações do baterista no teclado e composta exclusivamente para a formação bateria, baixo, guitarra e teclado; “Dream Aria” exalta o acaso e a espontaneidade e criada a partir de um groove no teclado a espera da banda chegar, tendo a bateria definitiva gravada antes mesmo de nascer a melodia e se gravar os outros instrumentos; “High Speed” mostra as influências setentistas de Alfredo em reverência ao baterista Billy Cobham e aos grupos Mahavishnu Orchestra e The Eleventh House, em destaque a linha do baixo de Bombom e um intenso solo de Maya. "Spanish" destaca mais uma vez o solo do baixista Bombom; “Jazzy” é uma regravação, a única música inicialmente pronta deste trabalho, ganhando nova leitura para a formação de trio.
A faixa-título “JAM” foi a primeira a ser gravada, e concebida exatamente conforme o nome traduz - uma jam session nascida com arranjos na hora dos takes com Maya e Bombom; a faixa solo “Experience” também foi criada a partir de frases no teclado, e encerra com um improviso livre de Alfredo utilizando uma afinação diferente, mais aguda do que costuma usar. Para fechar o trabalho, “The End”, com o trio tocando ao vivo, encerrando mais uma jornada concebida no improviso e no virtuosismo.

JAM foi gravado e mixado no ADG Estúdio por Thiago Kropf, e masterizado por Alex Gordon no Abbey Road Studios.

Com a palavra, Alfredo Dias Gomes -

A veia jazz-rock dos últimos trabalhos "Looking Back", "Pulse" e "Tribute to Don Alias" mantém-se presente em "JAM". Como deu-se a concepção deste registro?
A ideia de gravar esse disco nasceu do reencontro com o guitarrista Julio Maya, que gravou nos meus primeiros discos, “Serviço Secreto”, “Alfredo Dias Gomes” e “Atmosfera”. Nós já tínhamos nos encontrado algumas vezes e sempre a gente combinava de “levar um som”, mas nunca se concretizava. Desta vez eu levei a sério a ideia, convidei o Julinho pra vir no meu estúdio e falei pra ele que gostaria de gravar a “jam” mas com o intuito de virar um disco.
Nisso precisávamos de um baixista, e logo veio o nome do Marco Bombom, que já gravou em dois dos meus discos, “Looking Back” e “Pulse”, e também gravou no disco do Julinho, “Portal”.
Entre o convite e a data da gravação nasceram vários temas, muitas ideias, e quando eles chegaram para gravar eu já tinha quatro músicas prontas, todas com ênfase no improviso, sem perder o espírito de uma “jam session”. O restante das composições foram concebidas durante o processo de gravação.

Percebe-se calorosos diálogos com baixo e guitarra. A formação de power trio torna a dinâmica da interpretação mais intensa?
Sem dúvida. São somente três músicos para interpretar a composição, isso distribui ao trio a responsabilidade de “fazer acontecer”. A bateria e o baixo passam a ter a função de intérprete e solista junto com a guitarra e, durante os improvisos, a interação dos instrumentos é necessária.
Pelo fato de serem três músicos que se conhecem há muito tempo, o diálogo flui naturalmente.

"Jam" traz um trabalho autoral e você faz uso dos teclados em algumas faixas. É uma das formas como você trabalha a criação das composições?
Na maior parte das vezes as minhas composições partem do teclado. Primeiro eu gravo uma base com a forma da música, depois eu gravo a bateria. Numa segunda etapa eu crio a melodia, mas também muitas músicas partem de uma ideia rítmica na bateria e depois transformo em música no teclado.

Alfredo Dias Gomes

Os trabalhos citados foram gravados em seu estúdio, o ADG Studio. É o seu espaço de criação? Você o usa regularmente para realizar experiências até chegar a um ponto de decisão sobre gravar uma sessão?
Claro, tudo é feito no meu estúdio. Algumas músicas são muito elaboradas, feitas e refeitas até chegar na decisão de gravá-las, outras fluem muito fáceis. Às vezes eu gravo uma base de teclado e depois gravo a bateria, e já fica valendo pela espontaneidade do momento.
O meu estúdio é a minha “casa de criação”. Eu cresci vendo meus pais, os escritores Dias Gomes e Janete Clair, criando. Na nossa casa, todos os dias os dois iam para seus respectivos escritórios e criavam um capítulo de novela por dia. Eu comparo a criar uma música por dia!
Eu tenho esse hábito, (quase) todos os dias eu vou para o meu estúdio criar, mesmo que seja somente uma ideia que eu possa usar no futuro.

Em relação ao mercado da música por aqui, hoje, como você percebe o interesse dos jovens para apreciar e tocar um instrumento?
Eu acho que um instrumento musical sempre atrai jovens e crianças, tudo depende se esse jovem tem acesso a ele. A vida toda eu ouvi falar das escolas americanas que têm no currículo aulas de música e os alunos aprendem a tocar um instrumento, daí tantos músicos excepcionais que conhecemos. Infelizmente moramos em um país que não valoriza a arte nas escolas.
Quando eu era criança, meus pais colocaram todos os filhos para estudar piano. Meus irmãos tocavam em bandas, rolavam ensaios, jam session, era normal os amigos guardarem instrumentos na nossa casa assim como ter uma bateria montada na sala. Foi natural escolher estudar bateria.
Hoje eu posso dar o exemplo do meu neto, que tem oito anos; quando ele tinha dois anos de idade eu dei uma mini bateria pra ele, hoje ele tem uma bateria um pouco maior pra criança e quando ele vem na minha casa a primeira coisa que ele me pede é para ir pro estúdio tocar na minha bateria. Ele sabe mexer na mesa de som, ligar o fone da bateria etc... Não tenho dúvida que um dia ele tocará um instrumento.

Obrigado Alfredo Dias Gomes, e sucesso.

JAM pode ser adquirido em formato digital nas lojas CD Baby e iTunes está disponível para streaming nas plataformas digitais Spotify e Napster.



Confira também -

Tribute to Don Alias Pulse Looking Back

RUPESTRE DO FUTURO

26 janeiro, 2018


O violonista gaúcho Rodrigo Nassif apresenta seu novo disco, Rupestre do Futuro, um trabalho autoral trazendo uma fusão de ritmos e tendências urbanas mesclados com a influência do regional gaúcho, o flamenco e o improviso do jazz contemporâneo.

Tocando violão, guitarra, piano e percussão, Rodrigo forma ao seu lado um quarteto com Carlos Ezael nos violões; Samuel Basso no contrabaixo e harmônica; e Leandro Schirmer na bateria, percussão e piano.
No repertório, 12 composições inspiradas nas paisagens urbanas da cidade de São Paulo e seus grafites, cujas pinturas rupestres registram nossa vida hoje.

O disco foi gravado no Estúdio Panamá, Porto Alegre.
A arte da capa é de Adão Iturrusgaray.


Com a palavra, Rodrigo Nassif -

Conte-nos sobre sua formação musical.
Credito ao hábito de ouvir música em casa - jazz, choro e rock - o meu interesse e posterior envolvimento com o universo musical. Ter vários músicos amadores entre meus tios e primos foi outro fator que semeou um interesse e curiosidade permanente em relação à prática.
Somente em meados da adolescência comecei a me sentir desenvolto o suficiente para poder desenvolver uma prática, estimulada por colegas do colégio que tinham bandas de rock. Aí fui fazer aulas de violão com um amigo que, posteriormente, veio a gravar meu primeiro disco de violão solo em seu selo, "Café com leite". Tanto ele, o Evandro Lazzarotto, quanto outros músicos da cidade que eu morava, Passo Fundo, interior do RS, como o Rafael Campanile, que hoje dá aulas em Portugal, foram muito importantes na minha formação porque são improvisadores natos. Após uma vitória em um festival regional de bandas, resolvi entrar no bacharelado de violão clássico que tinha aberto na minha cidade, e aí foi mais um salto. Para manter uma bolsa de estudos tinha que tocar para o grupo de teatro da faculdade e para o grupo de bossa e jazz da mesma instituição.
Esse caminho acabou por me levar até o Posgrado (mestrado) de performance em violão, também como bolsista, dessa vez do prestigiado Conservatório Luis Gianneo em Buenos Aires. Após 1 ano e meio na Argentina comecei a fermentar a ideia de gravar as composições que eu tinha em mente, que  acabaram por se realizar no estúdio do Evandro em Passo Fundo. Esse disco ganhou um prêmio considerado importante no RS, o Açorianos, e isso abriu caminho para mais composições e shows. Aí fui testando as formações até chegarmos ao quarteto, que é a principal atividade que tenho hoje.

O violão sempre foi o protagonista? 
Há, em especial, alguma inspiração e/ou influência nessa sua trajetória?
Resolvi adotar em definitivo o violão nos shows por uma questão de afinidade com o instrumento, e é claro que adoro ouvir violonistas célebres como Bream, Reindhardt, Segovia e Bonfá, que dos brasileiros é meu favorito. Também me identifico muito com o estilo de guitarristas como o Wes Montgomery e com o bandoneon de Piazzolla. Todos os músicos com quem toquei e assisti pessoalmente também há uma influência, mesmo que em nível inconsciente. Tive a sorte de tocar com alguns músicos dos EUA no começo do meu bacharelado, e a convivência com eles e a quantidade de estudo por parte deles que eu presenciava foram coisas que me marcaram de modo indelével, em especial do guitarrista Craig Ovens, que já era bastante experiente.

foto: Luiza Castro
"Rupestre do Futuro" é um trabalho autoral. Como se dá o seu processo de criação?
"Rupestre do Futuro" é o sétimo lançamento com meu nome, são 3 discos de violão solo além do "Rodrigo Nassif", "Fronteira" e "O pulo do gato"; e com o Rodrigo Nassif Quarteto foram lançados dois singles - "Espelho Hexagonal" e "Mar de dentro", mais dois discos completos - "Todos os dias serão outono" e "Rupestre do futuro". Os arranjos se definem nos ensaios quando há a participação de todos, mas o cerne das composições já levo pronto e aparecem de todo modo. Há músicas que simplesmente brotam com toda a estrutura como "Citadina" e "Um abraço em Luis Alberto", e outras que precisamos ter muita paciência, como o caso da "Rupestre"; até que, nos ensaios, aparece a experimentação que vai fazer a música ter o embalo para a frente que me agrada. Cada uma tem sua história, independente das outras.

Fale sobre os músicos que te acompanham neste trabalho.
Excelentes músicos, todos os três. O Carlos Ezael conheci porque ele foi meu aluno de violão durante um período, e é quem passou por mais formações. Já nos apresentamos com duo e mais um bandolim, depois com duo e percussão, e etc. O Samuel Basso, tem baixo no nome, é um cara super intuitivo e versátil, e esses dois são a ala mais jovem do quarteto, que tem o Leandro Schirmer que assume as baquetas e as teclas e é um multi instrumentista experiente e criativo como poucos músicos que já acompanhei.

Que instrumentos usou nesta sessão e como você configura seu set acústico?
Usei uma Grestch, um pedal de drive e um Fender De Luxe para gravar as guitarras, que funcionam como um naipe de cordas nesse disco. Fora um ou outro overdub, gravamos o disco inteiro em um único dia no estúdio Panamá em Porto Alegre. O violão é um Francisco Estrada Gomez, microfonado. Somente agora estou testando um sistema em que posso ligar ele na mesa.

Obrigado Rodrigo Nassif, e sucesso.

"Rupestre do Futuro" está disponível nas plataformas digitais - Spotify, Deezer e iTunes

MAR DE TRANQUILIDADE

04 janeiro, 2018
Marcos Amorim está entre os mais brilhantes violonistas e guitarristas da nossa cena musical. Dotado de técnica muito particular, tem uma história que vem de berço - é filho do pianista Nelson Amorim, que foi um dos fundadores da Rio Jazz Orchestra, e construiu sua carreira no cenário da música instrumental brasileira ao lado de uma geração muito criativa de músicos que deram uma nova vida ao movimento a partir do final dos anos 80.

Em destaque, o disco Sea of Tranquility, seu sétimo registro como líder e o quinto pela gravadora Adventure Music. Como ele mesmo afirma, é um trabalho de imensa satisfação pessoal, e essa vibração positiva a gente já percebe na primeira audição do disco, mostrando um músico muito maduro e com pleno domínio do instrumento e do repertório, que, inclusive, é autoral.
Ao seu lado nesta sessão estão Itamar Assiere no piano e rhodes, Augusto Mattoso no contrabaixo e Rafael Barata na bateria, além da participação mais que luxuosa do piano e voz de Delia Fischer.
Aqui a guitarra é protagonista e o repertório traz 9 composições, 8 autorais e uma leitura de um clássico de Beto Guedes - "Pedras Rolando", que registra sua paixão pelo Clube da Esquina com espaço para o belo piano de Delia Fischer, que também se destaca nas vozes na balada "The Further Away the Closer I Get", em "Sea Time" e "January Ashes" - perceba neste tema a intensidade do improviso da guitarra. O tema título é outra belíssima balada, e reverencia o mar de tranquilidade retratado por Neil Armstrong em sua caminhada na lua - serena, poética e quase psicodélica; ainda, as contagiantes "My African Goddess" e "Dance of the Five Princessess", daquelas melodias que a gente sai assobiando por aí; tem o toque latino em "Bolero"; e o tempero do veneno blues em "Wooden Face Blues", traduzido, pelo líder, como um blues cara de pau.


"Sea of Tranquility" foi gravado no Tenda da Raposa Studio, Santa Tereza (RJ), mixado por Carlos Fuchs e masterizado por Ken Lee. Arte de capa por Tomas Amorim, Nando Chagas e Tassio Ramos, e design gráfico de Maria Camillo.

Quem conta a história é Marcos Amorim -

"Sea of Tranquility" é o quinto disco pela Adventure Music. Como surgiu essa relação com a gravadora?
Quinto disco pela Adventure e o sétimo da carreira. Antes eu lancei dois CDs aqui no Brasil pelo selo Perfil Musical - ”O Boto “ e “Luz da Lua”.
Eu já sabia da existência do Richard Zirinsck, dono da Adventure Music, ele escrevia para um site, se não me engano na Suécia. Eu soube que ele incluiu um desses meus dois primeiros trabalhos em uma lista em primeiro lugar ao lado de guitarristas como Pat Metheny, Pat Martino e outros do mesmo porte. Eu sabia quem ele era e me lembro de até mandar um e-mail para ele agradecendo, mas meu contato com ele não tinha passado disso. Na semana que eu tinha acabado de masterizar o CD que seria mas tarde batizado de “Cris on the Farm”, um aluno, baixista, me ligou desesperado pedindo minha ajuda. Ele tinha fechado um trabalho (tocar num almoço de família) com um guitarrista e um baterista, porém os dois desapareceram e faltava algumas horas para começar o almoço e ele não tinha ninguém que pudesse fazer o trabalho. Ele me ligou me pedindo uma indicação e eu disse pra ele - “Cara, eu vou lá pra você, vou chamar um baterista amigo meu e você não precisa se preocupar”. O baterista era o Rafael Barata, que na época deveria ter uns 19 ou 20 anos de idade. Fomos lá, tocamos e durante o intervalo apareceu o Mauricio Gouvea, hoje um grande amigo, que eu conhecia só por e-mail e telefone. Eu tinha tocado umas músicas minhas e ele reconheceu, veio falar comigo e me disse que o Zirinsck estava começando um selo e queria saber se eu estava interessado em negociar um possível contrato com ele. O selo já tinha fechado com o Toninho Horta e Ricardo Silveira, e me perguntou se eu tinha algum trabalho novo por fazer ou em andamento. Peguei o e-mail do Zirinsck e escrevi pra ele assim que eu cheguei em casa, ainda sob efeito das caipirinhas que tomei no almoço (risos). Ele me respondeu em menos de 20 minutos interessado no CD que eu tinha acabado de masterizar, me pediu para mandar uma cópia e, assim que ele ouviu, me mandou um contrato para lançar o primeiro CD, que se chamou “Cris on The Farm”, com a obrigação de gravar mais um que depois veio a se chamar de “Sete Capelas”, meu segundo título com eles. Daí começamos essa parceria que já dura mais de 10 anos. 

Neste trabalho tem a formação de quarteto, e agora com Augusto Matoso e Itamar Assiere. Do trio para quarteto, como se formou esse grupo?
Eu e Augusto Mattoso somos amigos há muitos anos, começamos juntos no grupo Jazz Latino Tropical, do trompetista Barrosinho, nosso grande mestre. Ele, para mim, é um dos maiores baixistas do Brasil e do mundo. O Itamar eu já tinha tocado com ele algumas vezes, é um monstro, músico fantástico e não deve nada a nenhum pianista do mundo. Eu já tinha visto eles tocando juntos com o Rafael Barata e resolvi chamá-los para gravar o CD. Eu queria muito mesclar o piano acústico com o piano Fender Rodhes, queria uma sonoridade brazilian jazz e pop juntas. A formação de quarteto me permite ficar mais solto, pois não tenho que fazer o centro toda hora, então fico mais livre para tocar as melodias como uma voz. Na formação de trio, eu tenho que juntar melodia e acompanhamento em chord melody, o que limita um pouco a interpretação dos temas. Gravei vários CDs de trio, em que gravávamos ao vivo os solos e os temas de guitarra, e depois eu inseria o violão como base depois do trio gravado. Fica muito bom, mas na hora de ir pro palco temos que adaptar e me sacrifica muito. Por isso resolvi mudar um pouco nesse projeto para quarteto. Mas gosto muito de tocar de trio e ainda toco bastante por aí com essa formação. É um enorme desafio.

Uma boa surpresa aqui é a presença da Delia Fischer, ela que esteve ao seu lado no registro histórico do quarteto do trompetista Barrosinho em Montreux. Como foi o convite para ela participar deste trabalho?
Nós começamos na mesma época, sempre fomos parceiros em muitas aventuras musicais. Como eu, ela sempre gostou de canções além de seu trabalho de instrumentista. Nos anos 80, estudávamos muito Charlie Parker na casa dela em Laranjeiras. Ela atuou no meu primeiro CD em 1983, “O Boto”. Então, por todas essas afinidades, sem falar na admiração que tenho pela sua arte, seria muito natural chamá-la para esse CD, mas o maior motivo mesmo foi por ela ter escrito três letras para três canções - “Sea Time”, “January Ashes” e “The Furter Away the Closer I Get”, e resolvi chamá-la não só pra tocar piano e Rodhes, mas também pra cantar. E deu muito certo, sempre quis incluir músicas cantadas no meu repertório e essa era a oportunidade pra fazer isso. Além dessas três canções ela ainda quebrou tudo na faixa “Pedras Rolando” do Beto Guedes e Ronaldo Bastos. Essa faixa tem uma importância bastante grande pra nós que crescemos curtindo o Clube da esquina e a mineirada que nos influenciou muito nos anos 70. Você lembra do LP “Sol de Primavera? Ouvimos muito esse disco. Nessa faixa, mais que todas, pela nossa história de amizade e parceria, teria que ser a Delia pra fazer o piano e o solo arrasador que ela fez.


"Sea of Tranquility" é, em sua quase totalidade, um trabalho autoral, com exceção de uma releitura de um tema do Beto Guedes. Isso é sempre muito importante pois põe em primeiro plano o lado criativo do músico. Como você trabalha o processo de composição?
Quando comecei a tocar violão meus primeiros passos foi criar acordes a partir dos únicos três que que eu conhecia, que eram C , G e D (risos). Eu ia trocando um dedo da posição original e ia vendo o som que dava, daí foram surgindo as primeiras composições. Foi assim, dessa forma bastante intuitiva, que comecei a compor. Depois, claro, fui estudar harmonia com a Celia Vaz e ela, vendo essa minha tendência, me incentivou muito a desenvolver esse lado. Hoje em dia eu componho de forma mais organizada, mas ainda vou muito pela intuição primeiro. A diferença é que agora eu posso analisar o que fiz e escrever pros músicos que vão tocar de uma forma que fique rápido o entendimento na hora de gravar. Eu vou buscando um som que já está na minha cabeça bem antes, eu só preciso achar onde está. É uma espécie de caminho, a melodia e a harmonia vão me guiando, mas o som eu já tenho na cabeça em algum lugar. Não sei explicar melhor que isso (risos)

Um belo timbre de guitarra nesta sessão. Que equipamentos usou?
Usei nas 8 primeiras faixas somente a minha PRS e um amplificador Fender Deville. Só isso, guitarra ligada direto no amplificador com um microfone na boca do falante.
Na ultima faixa, "Wooden Face Blues", usei minha estrato Advanced ligada no Fender Deville numa saída e o capitador mid (GK3) ligado a um GR 20 da Roland. Fiz uma brincadeira com o timbre de orgão Hammond B3 pro tema e primeiro solo, depois fiz uma base ainda com esse timbre pra base do solo de guitarra que fiz com a PRS ligada no Fender Deville.

Falando um pouquinho de técnica, você toca de dedos, fingestyle, o que dá uma dinâmica muito particular no toque e fraseado. Como você desenvolveu esse estilo?
Começou primeiro de forma muito intuitiva por eu não conseguir me adaptar a palheta. Me enrolava muito, deixava cair das mãos e não conseguia articular as escalas com ela. Então quando ia tocar acabava jogando a palheta fora e ia pros dedos e tudo fluía. Com o tempo abandonei de vez por me sentir mais à vontade assim, e foi muito natural, não planejei isso. Depois quando fui estudar com o Hélio Delmiro é que ele me deu vários exercícios e aí pude aprimorar melhor essa técnica. Mais tarde adaptei ainda dois estilos diferentes desse que desenvolvi com o Hélio - um muito parecido com o do Jeff Beck (intercalando o indicador e o polegar da mão direita) e outro inspirado na própria palheta, usando a unha do dedo indicador como uma palheta, que dá um som poderoso pra algumas melodias que precisam de mais peso. Assim, basicamente quando toco uso essas três técnicas que desenvolvi com o tempo. Mesmo estudado muito, tudo vem da intuição de sentir as cordas batendo no dedo sem um corpo estranho no caminho. Vem tudo lá de trás quando comecei.

Além de muito inserido na cena jazz, você também tem uma contribuição importante na música popular brasileira ao lado de grandes nomes, inclusive no musical Elis, e nem sempre isso ganha destaque. Como é trabalhar com música num mercado tão imediatista e com tanta valorização da exposição em mídia?
Um dos maiores pintores impressionistas, Renoir, quando jovem, pintou afrescos nos botequins de Paris, trabalhou numa fábrica de porcelanas pintando em xícara por xicara o retrato da Maria Antonieta. Ele usou dessas experiências para moldar seu estilo por toda vida. Ele é um dos maiores gênios da pintura moderna, nunca ligou pra fama e nunca quis ser uma celebridade. Eu penso que a arte tem esses dois lados - o criativo e inventivo da composição, em que sou reconhecido como um artista, compositor, arranjador e instrumentista, e o outro lado operário do sideman, onde você tem que obedecer a um padrão, tem que ser um servidor da música. Acredito que esses dois lados não são separados, eles seguem em paralelo. De vez em quando um invade o outro, um se serve do outro pra se alimentar. Não me incomoda ter tocado no musical Elis e não ser visto pela plateia, como quando toco nos meus projetos, porque a música que foi feita ali foi de alta qualidade. Na verdade, me orgulho muito do trabalho que realizei ali. Penso sempre em servir à música, tocar pra ela e, se eu pensar assim eu posso não aparecer muito mas minha arte está ali pra quem quiser ver. Não viveria sem esses dois lados paralelos. Como disse, um alimenta o outro.

Obrigado Marcos Amorim, e sucesso.

"Sea of Tranquility" pode ser adquirido diretamente com Marcos Amorim pelo e-mail luzdaluamusic@gmail.com, pelas lojas AmazoniTunes, e está nas plataformas digitais Spotify e Deezer.

Ainda em sua discografia - "Portraits" (2010), "Revolving Landscapes" (2008), "Sete Capelas" (2007) e "Cris on the Farm" (2005), lançados pela Adventure Music; e "Luz da Lua" (1998) e "O Boto" (1996), ambos pela gravadora Perfil Musical.