ALMA

22 junho, 2016
O guitarrista Michel Leme apresenta o décimo disco da sua discografia, Alma.
Acompanhado pelo piano elétrico de Felipe Silveira, o contrabaixo de Bruno Migotto e a bateria de Bruno Tesselle, traz um trabalho autoral e gravado ao vivo, em um único take, com 5 temas bastante intensos em mais de 1h de muita inspiração e transpiração, mostrando que essa formação do quarteto se consolidou de forma singular, a mesma presente no álbum anterior “9” (2015).

Eu sou muito suspeito para falar da música de Michel Leme, e, particularmente, o resultado desse trabalho o coloca entre os meus preferidos. Dinâmica, improviso, groove - está tudo aí.
A arte da capa é do próprio Michel Leme, e o título do disco, também atribuído a uma das faixas, não tem necessariamente um significado espiritual, e como Michel afirmou em outras entrevistas simplesmente pretende reforçar a ausência da alma nesses tempos de boçalidade generalizada.

Michel Leme Quarteto

Definitivamente, definir a música, sob qualquer perspectiva, é inútil. A usina criativa de sons que esse quarteto coloca nesse álbum realmente é de impressionar. Fazia tempo que não ouvia um quarteto com guitarra e rhodes tão eletrizante, e aqui os temas longos dão liberdade para os improvisos, que, por mim, deviam ser infinitos.

"Nave" introduz com um fraseado intenso de Michel, que logo abre caminhos para o walking de Migotto dar base ao improviso frenético de Felipe com muito swing. Destaque aqui para as pontuações de Tessele, que não abre mão do silêncio em determinadas passagens.
"Joaquim" mostra uma perfeita unidade, melodia marcante e o tema faz homenagem ao filho recém-nascido de Felipe; e Michel encadeia o solo com uma digitação primorosa, preciso, objetivo, fraseado intenso e livre; o solo de Felipe traz uma dinâmica mais cadenciada, mas não menos intenso, e tem que destacar as belas colocações da guitarra de Michel em contraposição ao solo do rhodes.
"O Biltres" traz uma quebradeira das boas. Um boogaloo, que Michel afirma gostar muito de tocar nessa onda. Ritmo latino por natureza, foi muito explorado no fusão do jazz setentão. Aqui Migotto abre os improvisos, seguido por um inspiradíssimo Felipe incendiando o rhodes com um groove estonteante, e ainda solos de Michel e Tessele, ao final dialogando.
O repertório repousa justamente em "Alma", coincidentemente ou não, e você dá o sentido à palavra. Com uma introdução introspectiva de Michel, o tema se desenvolve sobre uma melodia confortante, seguido dos solos de Felipe, Michel e Migotto. Fechando a caixa, “Celso Childs Blues Jr”, que traz o espírito do blues e cujo tema dá sequência ao tema registrado no DVD "Na Montanha". O título faz referência a um velho amigo de Michel que vive recluso e que curte fazer poemas sobre jazz.
Um disco obrigatório para os amantes da boa música.



Com a palavra, Michel Leme -

Alma traz novamente o quarteto formado em “9”; e percebe-se uma integração ímpar do grupo, tanto que o registro dessa sessão deu-se espontaneamente, certo?
O quarteto com Felipe Silveira (piano), Bruno Migotto (baixo) e Bruno Tessele (bateria) está atuando desde outubro de 2014, e vem sendo uma experiência além do que cada um de nós esperava.
Este grupo nunca ensaiou. Eu envio as partituras por e-mail e a gente estréia os temas tocando. Ensaiar é Ok, respeito a opção de cada um, mas para este grupo não funciona assim. Nós vivemos e observamos o processo ao vivo, o que é arriscado, porém mais natural e estimulante.
“Alma” foi gravado numa tarde, com apenas um take para cada faixa. Gravamos “Nave”, “Joaquim” e “Os biltres”, e aí paramos para tomar um café. Uma horinha depois, nós voltamos e gravamos “Alma” e “Celso Childs Jr”.
Como cito no encarte, a ordem que se ouve no disco é a mesma que aconteceu na gravação, e não há truques quaisquer de pós-produção. Gravamos no Táta Estúdio, na casa do Bruno Tessele, e a captação foi do Flávio “Tsunami” Tsutsumi da Sho’You Áudio & Vídeo.

"Os biltres" traz um groove contagiante, que lembra um tanto aquele contexto da fusão do jazz setentão. Foi nesse espírito que se desenvolveu o tema?
“Os biltres” é um tema que exige bastante de mim para improvisar; é composto apenas por acordes dominantes, em vários tons. O boogaloo, que já usei em outros temas, é um ritmo que surgiu na década de 60 e que aceita naturalmente outros ritmos, o que combina bastante com o que fazemos.
O contexto que você comenta também é verdade, e acho que principalmente pelo timbre que o Felipe usou e sobre o qual falaremos a seguir. Também sinto que “Os biltres” instiga nossos “palavrões” e coisas mais “safadas” musicalmente.

"Joaquim" e "Alma" tem fortes traços melódicos. Há uma fronteira estabelecida entre a melodia, harmonia e improviso, e como você combina isso?
Tudo acaba se fundindo conforme vamos tocando e ficando mais à vontade com os temas. A execução do tema de “Joaquim” no disco já difere de como está na partitura, porque já havíamos tocado antes e o momento me levou a tocar coisas diferentes. Isso mostra que a improvisação já está presente desde a própria execução do tema. A melodia do tema, por sua vez, é um alicerce importantíssimo para a improvisação. Se o ouvinte prestar atenção, a melodia principal (Fá Mi Re) está presente em vários momentos do meu solo - com variações, mas está lá. Quanto à harmonia, ela é negociável. O Felipe muda os acordes e o Migotto inverte os baixos em vários momentos. Eu confio na intuição deles e embarco na viagem, ao mesmo tempo em que estou atento ao caminho melódico que estou trilhando. Manter a coerência no discurso e, ao mesmo tempo, usar o que seus companheiros estão tocando é um grande desafio, mas que só aprofunda a experiência.

Bruno Migotto, Felipe Silveira, Michel Leme, Bruno Tessele

O blues se mostra bem presente em "Nave" e "Celso Childs Jr". É fato afirmar que essa forma enraizada excita e ajuda a experimentar novas formas de expressão?
Certa vez eu testemunhei alguns rapazes de linhagem aristocrática que estudaram em uma universidade muito cara no exterior referindo-se ao blues como algo risível. Aí me veio a pergunta: “se o blues é tão banal, porque não fazem música de fato sobre ele?”. Bem, a resposta é óbvia: “não fazem”. E, assim, o mundo perdeu excelentes médicos, advogados, contadores, etc. Menciono esta passagem apenas para mostrar um extremo acerca da questão “o que é fácil e o que é difícil?” ou “o que é básico e o que é avançado?”.
Pessoalmente, não vejo diferença em termos de dificuldade entre um tema como “Giant Steps” e um blues maior. As duas estruturas são desafiadoras, e fazer algo de que você realmente goste sobre elas demora muito tempo. Há muito que explorar nestas formas, e elas nos revelam verdadeiros tesouros. Mas aí se trata de respeitar a grandeza da música para merecer o que ela tem a oferecer, e isso não é todo mundo que enxerga, principalmente neste momento com tanto “gerenciamento de carreira”, “music business”, “jazz acadêmico” e, enfim, tantos escombros sobre a música.
Sinais de uma sociedade doente e das consequentes fraquezas de cada um ao ceder à ideologia dominante, aquela que transformou a sociedade num ringue onde a ganância e a competição nocautearam a solidariedade, e onde a estupidez e a boçalidade desclassificaram a elegância e o bom senso. Por outro lado, no ato de tocar ainda podemos atestar a verdade e a vida contidas em tratar o outro como igual, em ouvir de fato o que o outro diz, na liberdade de poder expressar aquilo que você é etc. Talvez seja por isso que a música real é tida como não-existente e os reais músicos tidos como párias, porque artistas de fato não são substituíveis como as marionetes das gravadoras, mídia e/ou grandes empresas. Enfim, a disseminação de tudo o que é reles vai construindo a imbecilização do ser humano, cada vez mais dominado, passivo e desprovido de senso crítico. Vivemos de exceções.

O piano rhodes tem um registro próximo da guitarra, às vezes soa bem sujo, rústico. Como você enxerga essa sonoridade ao lado da guitarra?
O Felipe usou um cabo que fez o teclado dele ficar distorcido em vários momentos, fato observado pelo Tsunami (Flávio Tsutsumi) durante a mix. Eu achei lindo, porque simplesmente foi o que aconteceu e algumas sujeiras são bem-vindas. Deixo a assepsia para quem acredita nela em se tratando de música.
Sobre a questão do timbre, já ouvi alguns discos onde o piano acústico engoliu a guitarra na mix. Claro que isso é possível de ser evitado; basta colocar volume na guitarra, coisa de que muitos técnicos têm medo - ou simplesmente não sabem ou não tem referência. Mas, assim como prefiro baixo elétrico - porque não traz todos as questões para captar o acústico, como o baixista ter que ficar numa sala separada do grupo etc.-, também prefiro o timbre de Fender Rhodes no teclado ao invés do piano acústico, pelo menos para este grupo.
E mesmo com o timbre de Rhodes sendo próximo da guitarra, como você bem ressaltou, um não “briga” com o outro. Eu e o Felipe, assim como todo o grupo, ouvimos tudo o que o outro toca, o que também faz a coisa dar certo, já que tentamos tocar de forma complementar.

Entendo a criação de uma composição como um projeto, literalmente, um projeto de inovação, com início, meio e fim; e adicionado por elementos lúdicos, a veia artística e o instrumento como ferramenta. 
É exagero pensar dessa forma?
Não vejo como exagero algum. Quando componho, o objetivo é criar um cenário para improvisar. Algumas composições vêm de uma provocação do tipo “e se...”, outras vêm de reaproveitar ou subverter alguma estrutura tradicional, enfim, as fontes variam. A questão é organizar estas idéias de forma que se tornem músicas tocáveis por um grupo, e que façam sentido.
É preciso ser honesto consigo mesmo para atestar se o que você escreveu é uma música para ser apresentada para o grupo ou apenas mais um estudo pelo qual você fica agradecido, claro, mas que apenas pertence à gaveta. Eu fico tocando sozinho cada tema até ter certeza de cada detalhe. E só envio para os caras depois de atestar que se trata de uma música de fato e que vamos, no mínimo, nos divertir tocando. E é importante dizer que, a partir daí, a partitura não é sacra, ou a “Tábua da Lei”. Há que se assimilar, memorizar e compreender o conteúdo, mas, daí em diante, tudo está subordinado ao momento.

Fico feliz ao ver que é possível ter um repertório de temas próprios que gere o mesmo prazer que temos ao tocar um standard. Comecei a entender isso assistindo a algumas apresentações por aí: quando o repertório era autoral estavam todos lendo e tocando tensos; quando era um standard, todos relaxavam e a música acontecia. Tento me lembrar disso para equilibrar as coisas ao compor.

10 discos na discografia, incluindo 2 DVDs. Para a música instrumental brasileira atual é mais que um número, e uma infinita satisfação para nós poder desfrutar de toda essa música. Para Michel Leme, é desafiador manter-se tão ativo, e mais, criativo?
O desafio é constante, e sempre acompanhado de prazer e aprendizado. Sinto-me humildemente honrado e agradecido por tudo o que vem acontecendo na minha trajetória. E sigo tentando não atrapalhar a música. Um grande abraço a todos!

Obrigado Michel Leme, e sucesso.

www.michelleme.com

Você encontra "Alma" nas plataformas iTunesDeezer e Spotify, e pelo e-mail michel@michelleme.com.
"Alma" teve o apoio das marcas D’Addario, EM&T, Espaço Sagrada Beleza, Luthieria, Rotstage, Sho’You Audio&Video e Poptical Banana Gourmet.

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