A LIVRE FORMA DAS GUITARRAS

12 dezembro, 2015
A guitarra no jazz é algo fascinante, está sempre se renovando e, principalmente, inovando. Vários nomes surgem no cenário a todo momento, cada um com estilo e técnica muito particulares, e o melhor é que não se deixam levar em copiar aqueles que tanto os influenciaram.
Julian Lage e Mary Halvorson são dois desses nomes que me chamam atenção há um bom tempo. Ambos já tem identidade própria e, alcançados um nível elevado de maturidade musical, registraram álbuns de guitarra solo muito interessantes.

World's Fair Meltframe

Julian Lage foi um dos integrantes da nova geração promovida pelo vibrafonista Gary Burton, este que sempre abriu espaço para guitarristas no início de suas carreiras como Larry Coryell e Pat Metheny. O álbum “Generations” (2004) foi uma grande vitrine para Lage, que mais tarde ainda viria a participar nos álbuns “Next Generation” (2005), “Common Groud” (2011) e “Guided Tour” (2013).
Lage, além da sua formação clássica, é formado pela Berkelee, o que lhe dá uma grandeza de vocabulário jazzístico, rico em harmonias e dinâmicas. Além de seus trabalhos como líder – "Sounding Point" (2009) e "Gladwell" (2011), registrou duos com os pianistas Taylor Eigsti e Fred Hersch, e com o guitarrista Nels Cline em uma abordagem totalmente livre.
World´s Fair (2015) revela Lage como mais que um músico puramente jazzista, explorando o instrumento acústico em improvisações livres com uma abordagem impecável, abrindo mão dos tradicionais standards e revelando um trabalho bastante original. Para ele, o resultado foi inspiração do violonista espanhol Andres Segovia.
Nessa sessão, Lage usou um Martin 000-18, sem overdubs; e no repertório 12 composições em que viaja por lugares como  “Peru”, “Japan” e “Missouri”, e nos transporta pelo tempo e espaço em “Century”, “Day and Age” e “Where or When”. Um belo registro intimista em que a sonoridade acústica é protagonista.
www.julianlage.com/



Mary Halvorson é uma das fieis representantes da improvisação livre na guitarra contemporânea, o que torna sua música muito interessante pois, muito além da abordagem criativa, traz uma riqueza de intervenções melódica e harmonicamente complexas.
Sua relação com o instrumento começou na adolescência quando ouviu Hendrix, o que talvez explique a origem de sua forte pegada no instrumento. Sua aproximação com o jazz deu-se quando começou a ter aulas com um professor que tocava o estilo, e assim conheceu a música de Anthony Braxton, a quem ela tem como seu mentor e quem a ensinou a focar na criatividade e a encontrar sua própria voz.
Além de seus trabalhos como líder - "Reverse Blue" (2014), "Ghost Loop" (2013), "Illusionary Sea" (2013), "Bending Bridges" (2012), "Saturn Sings" (2010) e "Dragon’s Head" (2008), sua guitarra tem registro em uma extensa discografia, em diversas formações. Sempre questionada sobre a criação de um trabalho solo, Halvorson queria mais do que simplesmente realizar um álbum totalmente improvisado.
Meltframe (2015) é  resultado de um estudo introspectivo e da prática de arranjar temas que ela gosta para a guitarra solo, cujo repertório acabou se expandindo além dos tradicionais standards, sem composições autorais, desconstruindo e reconstruindo, do seu jeito, versões de Ellington, Ornette Coleman, Oliver Nelson, Annette Peacock, e Roscoe Mitchell. Sempre abraçada com sua archopt Guild Artist, Halvorson explora ao máximo a sonoridade acústica do instrumento, em que, além de microfonar seu amp Princeton Reverb, aplica os microfones sobre as cordas e no ambiente.
www.maryhalvorson.com/