O ADEUS AO REI DO BLUES B.B. KING

15 maio, 2015

Comecei a ouvir Blues de verdade nos anos 80, e a primeira vez que a gente ouve aquela única nota rasgada de B.B. King nunca mais esquece. Esse momento foi o registro de um disco duplo em vinil, gravado ao vivo, que, definitivamente, colocou o Rei do Blues na minha prateleira - Live Now Appearing at Ole Miss (1980), um registro espetacular e que deixou até hoje na memória aquela versão incendiária de "Caldonia", e ainda trazia neste mesmo registro seu tema que se tornou quase um hino - "The Thrill Is Gone". Não demorou para eu ser apresentado a outro registro histórico e clássico - Live in Cook County Jail (1971), também gravado ao vivo e este dentro de um presídio, Cook County Jail, em Chicago, disco que figura na lista dos 500 de todos os tempos pela Rolling Stone. Ao vivo a história é sempre diferente, Live at Regal (1965), também gravado em Chicago, está listado no livro "1000 discos para ouvir antes de morrer" (Robert Dimery, Ed. Sextante).

Live at Regal Live in Cook County Jail Live

A guitarra de B.B. King tem assinatura própria, tem aquele nota, basta 1 única nota, que é influência e referência para todos que se envolvem no mundo do blues - gerações que passaram, que estão aí e que ainda estão por vir. B.B. King vai além da guitarra, tem em sua voz a força, a intensidade e a paixão do blues.
Um ícone para muitos, um bluesman.
Sua música deixa um legado, uma escola. Ao longo da carreira teve ao lado grandes nomes como Bobby Bland, com quem gravou dois excelentes álbuns Together for the First Time (1974) e Together Again (1976); fez um interessante e inesperado trabalho com a cantora Dianne Schur em Heart to Heart (1994); e um belo álbum com Eric Clapton em Riding with the King (2000), este que deu a ele o Grammy como melhor álbum de blues; alias, foram vários prêmios Grammy.
Há uma grande e obrigatória discografia, e de fato ele deu um rumo ao blues moderno.

B.B. King imortalizou sua guitarra modelo 335, batizando-a de "Lucille", cuja história do nome deu-se no ano de 1949 quando ele tocava em um palco na cidade de Arkansas e, em consequência de uma briga, o local pegou fogo. Todos correram para o lado de fora, e então B.B. percebeu que tinha deixado sua guitarra lá dentro e voltou para recuperá-la, um modelo Gibson que tinha custado meros 30 dólares. Na manhã seguinte, descobriu que os dois homens tinham brigado por causa de uma mulher de nome Lucille, batizando, assim, seu modelo de guitarra que foi endossado pelo fabricante. B.B. veio a escrever uma canção de mesmo nome, em que relata este fato.

Riley B King nasceu na cidade de Itta Bena, Mississipi, em 1925. Como dizia seu pai, em algum lugar entre Itta Bena e Indianola. Uma história não diferente dos negros daquela época, com trabalho escravo nas plantações de algodão. Sua história musical começou quando seu tio casou-se com a irmã de um pregador local, que, aos domingos após a missa da tarde, ia até sua casa e deixava sua guitarra sobre a cama; e B.B. a pegava, iniciando sua relação com o instrumento. Foi o Reverendo Archie que B.B. ouviu tocar guitarra pela primeira vez; cantou canções Gospel, muitas vezes líder de grupo, entre eles o "The Famous St John Gospel Singers".
B.B.King partiu para Memphis, onde sua carreira musical começou a ganhar direção. Memphis era o lugar certo e era onde os músicos estavam dispostos a ajudar àqueles que queriam aprender, se encontrando nas ruas e trocando idéias. Lá, B.B. encontrou seu primo Bukka White, que costumava dizer a ele que para ser um bluesman devia se vestir como se fosse ao banco pedir dinheiro emprestado.
Bukka White tocava usando um slide, coisa que B.B. nunca conseguiu usar; porém, para conseguir aquele som, B.B. passou a usar o dedo como um vibrato, o que acabou tornando-se uma das suas características principais, uma escola. Começou a cantar, por indicação de Sonny Boy Willianson, e a trabalhar como DJ em uma rádio local, WDIA, e foi o primeiro negro a operar uma estação de rádio.
Era o Blues Boy, que todos passaram a chamar de "Bee Bee". 

Martin Scorsese dedicou a B.B.King um documentário na série "Presents the Blues: The Road to Memphis"; e teve sua biografia em filme dirigida por Jon Brewer intitulada "The Life of Riley", que traz uma série de depoimentos.

Incansável ! Um verdadeiro bluesman.
B.B.King : 1925-2015