BRAZILJAZZFEST EM DUAS NOITES

30 março, 2015
O BrazilJazzFest celebrou os 30 anos de uma proposta que começou com o Free Jazz Festival, idealizado pelas irmãs Gardenberg, uma oportunidade em que grandes nomes do estilo subiram em nossos palcos. Por razões que envolveram a composição dos patrocinadores, o evento passou a se chamar TIM Festival e mais tarde BMW Festival, este que ainda teve sua última edição no ano passado.
Com a curadoria de Zuza Homem de Melo, Zé Nogueira e Pedro Albuquerque, a comemoração foi em grande estilo e o palco, no Rio de de Janeiro, foi o belo teatro da tão polêmica Cidade das Artes na Barra da Tijuca.

Para abrir a noite carioca, o trompetista Wynton Marsalis veio liderando a JLCO - Jazz at the Lincoln Center Orchestra, uma reunião de grandes músicos residentes na capital do Jazz, New York.
Wynton é incansável na divulgação do Jazz, não perde a oportunidade de realizar encontros do estilo com outras tendências, além de promover a educação e manter o legado dessa intensa e contagiante arte musical.

Wynton Marsalis Jazz at Lincoln Center Orchestra
foto : Ricardo Nunes
Ao lado de Marsalis, os trompetistas Ryan Kisor, Marcus Printup e Kenny Rampton; a linha de trombones formada por Elliot Mason, Chris Crenshaw e Vincent Gardner; as palhetas de Walter Blanding, Victor Goines, Sherman Irby, Ted Nash e Paul Nedzela; e a base rítmica formada pelo contrabaixista Carlos Henriquez, o pianista Dan Nimmer e o gigante baterista Ali Jackson.
No repertório, todas as composições arranjadas por um dos membros do grupo, as quais Marsalis sempre citava, e um passeio pela história e compositores do Jazz desde os anos 20, do tradicional spiritual “God’s trombones”, composto em 1927, com arranjo de Chris Crenshaw; “Señor blues”, composição de Horace Silver, aqui arranjada por Henriques; uma homenagem a James Moody com “Moody’s Mood for Love”, com espaço para os trombonistas Vincent Gardner e Chris Crenshaw largarem a voz; a latinidade de “Fiesta Mojo”, que tanto influenciou Dizzy Gillespie; e o bebop com "Things to Come, em um uptempo frenético marcado pelas baquetas de Ali Jackson e um Marsalis inspiradíssimo em seu improviso.
Aliás, sobraram intensos improvisos para todos; e convidados muito especiais subiram ao palco representando a nossa Música Instrumental - o trombonista Vitor Santos, interpretando Coisa No. 2" de Moacir Santos, arranjado por Sherman Irby; o bandolinista Hamilton de Holanda e o trompetista Jesse Sadoc em "Bebê" de Hermeto Pascoal, arranjado por Creenshaw, com um espetacular improviso de Hamilton aos olhos de um entusiasmado Marsalis; e ainda as participações do trompetista Aquiles Moraes e do arranjador e violonista Mario Adnet.
Moacir Santos ganhou novamente destaque em "Coisa No. 8", em arranjo de Ted Nash.
Quase 2 horas de apresentação e, ao final, quando os metais da JLCO se retiravam do palco, o trio com Ali Jackson, Enriques e Nimmer permaneceram no palco mantendo o mainstrean, preparando a volta de Marsalis para uma breve interpretação em quarteto, encerrando, assim, uma contagiante noite de Jazz.

Andre Mehmari Trio
foto : Ricardo Nunes
A noite de sábado era dos trios de piano. E ninguém melhor para representar a música brasileira e instrumental que Andre Mehmari, acompanhado pelo contrabaixista Neymar Dias e pelo baterista Sergio Reze, este há 20 anos ao lado de Mehmari. Na carona do lançamento do álbum Ouro Sobre Azul, gravado em homenagem aos 150 anos de Ernesto Nazareth, Mehmari abriu a noite em piano solo com o tema "Fon-Fon", convidando em seguida os integrantes do trio. Tão intenso quanto melódico, Mehmari apresentou "Um Anjo Nasce", originalmente gravada com o clarinetista Gabriele Mirabassi; "Ouro sobre Azul"; passou por "Brejeiro"; mostrou a última das quatro partes da "Suite da Cantareira"; e contou histórias como a do tema "De Tarde", cuja composição a segunda parte foi deixada incompleta por Nazareth. Fechou com a belíssima "Lachrimae", do álbum homônimo; e para os amantes methenymaníacos uma interpretação muito emocionante de "Au Lait", composição de Metheny e Mays (Off Ramp, 1982), mesclada com "Último Desejo" de Noel Rosa.
Uma apresentação intensa, criativa e simplesmente impecável.

Na sequência, a atmosfera inebriante do pianista norueguês Tord Gustavsen, acompanhado pelo contrabaixista Sigurd Hole e pelo baterista Jarle Vespestad.
Tord é artista da gravadora ECM, e seu som não foge à regra, adicionando aqueles elementos característicos da música que se faz em seu país de origem - sombrio, melancólico, minimalista e com aquela capacidade de nos transportar em intensas dimensões sonoras. Fez uso de uma discreta base eletrônica, mas encaixada perfeitamente na proposta da sua música. Muito espaço para as pontuações solo de Sigurd e Vespestad, um trio bastante afinado. No repertório, "Tears Transforming" e "Being There" (The Ground, 2005); Right There" (Extended Circle, 2014), seu último álbum que teve a participação do saxofonista Tore Brunborg e do contrabaixista Mats Eilertsen; "Where We Went" e "Wild Open" (Being There, 2007); e uma canção tradicional norueguesa intitulada "Eg Veit I Himmerik Ei Borg", traduzida “I Know A Castle In Heaven” (Extended Circle, 2014).
Belíssima apresentação.

Perdi a última noite em que apresentaram-se The Cookers e o saxofonista Miguel Zenon, a noite em que o Jazz, com absoluta certeza, rolou solto.
Espero que ano que vem tenha mais.