50 ANOS DE MÚSICA: PASCOAL MEIRELLES

03 dezembro, 2014
São 50 anos de Música, de muita boa Música. Uma história que, indiretamente, também é parte da nossa própria história, afinal, nós, amantes incondicionais desta arte, fazemos dela o motor por onde potencializamos lembranças, momentos e sentimentos.
O baterista Pascoal Meirelles celebra esse marco com o lançamento do disco 50, uma verdadeira trajetória musical, o que o torna um dos ícones não só do instrumento mas da nossa Música em todas as suas formas. Independentemente de ritmo e de estilo - Samba-Jazz, Choro, MPB, Música Instrumental e Jazz - a assinatura de Pascoal Meirelles estará sempre presente, afinal são 50 anos fazendo música da melhor qualidade.


Mineiro, nascido em Belo Horizonte, autodidata, aos 16 anos já estava nos palcos. No calor do samba-jazz dos anos 60, formou o "Tempo Trio" ao lado do pianista Helvius Vilela e o contrabaixista Paulo Horta, e mudou-se para a capital carioca onde deu um novo rumo em sua carreira, passando a integrar o grupo do saudoso clarinetista Paulo Moura. Tocou e gravou com muita gente, e é também um dos protagonistas da nossa MPB, em que esteve presente ao lado de Gonzaguinha, Tom Jobim, Edu Lobo, Chico Buarque, Milton Nascimento, entre tantos outros.

Meu encontro com a música de Pascoal Meirelles deu-se em um momento de transformação no que eu mesmo ouvia, nos anos 80, naquela transição auditiva do Rock para o Jazz. E foi naquele calor intenso do movimento da Música Instrumental Brasileira que acontecia no cenário carioca quando ouvi pela primeira vez o grupo Cama de Gato e o tema Melancia. Uma formação fantástica, em que Pascoal estava ao lado de Artur Maia, Mauro Senise e Rique Pantoja - "o primeiro time" - e assim eu comecei a ver e sentir a música de outra maneira. O grupo, apesar de não ter mais a formação original, está junto até hoje.

Muito atuante no cenário musical, Pascoal Meirelles sempre busca trazer novos elementos para sua música. Construiu uma ampla discografia como líder, nas mais variadas formações, seja um trio em tributo a Jobim em "Tom" (2003), um sexteto hard-bop em "Tributo a Art Blakey" (2007), no samba-jazz em "Ostinato" (2009) e até com a guitarra como protagonista em "Dubai-Lima: Guitar Project" (2013).
"50" registra uma coletânea de toda a trajetória de Pascoal, e deve ter sido um grande desafio selecionar as 12 faixas que compõem o repertório, com temas dos álbuns "Considerações a Respeito" (1981), "Tambá" (1985), "Anna" (1988), "Paula" (1990), "Forró Brabo" (1997), "Tom" (2002), "Ostinato" (2010) e "Dubai-Lima Guitar Project" (2013). É um encontro de grandes músicos da história da nossa Música Instrumental ao longo de todo esse tempo, entre eles Jota Moraes, Jamil Joanes, Ary Piassarolo, Leo Gandelman, Victor Biglione, Artur Maia, Marcio Montarroyos, Nilson Matta, Daniel Garcia, Jesse Sadoc, Idriss Boudrioua,

No encarte do disco, uma dedicatória mais que especial de Mauro Senise, com quem Pascoal fundou o grupo Cama de Gato, que não economizou elogios, ressaltando a dedicação, entusiasmo e talento, servindo de exemplo para uma nova geração de músicos.

Exemplo reconhecido pelo baterista paulista Fernando Baggio, integrante do grupo RdT, que reforça em suas palavras - "Terra de tanto passado, tantos nomes, mas alguns deles não vieram aqui para ficar só no passado. Eles são na verdade atemporais. Não entram em uma linha do tempo por estarem em todos os momentos dela desde a sua existência. Pascoal Meirelles é um desses casos."

Deborah Fraguito, produtora executiva e musical da Rádio Pequistação, também é categórica -
"Pascoal é parte integrante, atuante, criativa, patrimonial e um dos pilares da Música Instrumental Brasileira, o que muito nos orgulha."

Considerações a Respeito Anna Forró Brabo Ostinato

Com a palavra, Pascoal Meirelles -

GC: 50 anos de Música, do Samba ao Jazz. Como começou essa trajetória ?
PM: Eu sou filho da Bossa Nova, e acompanhava junto dos meus colegas de Belo Horizonte (Nivaldo Ornelas, Helvius Vilela, Milton Nascimento,Wagner Tiso, Paulo Braga e Toninho Horta) o movimento musical do eixo Rio-São Paulo. Assisti a quase todos os shows com participação dos músicos da Bossa Nova que chegavam a BH. Me lembro de assistir em uma só noite Sergio Mendes e seu Sexteto com Raul de Souza, Hector Costita, Pedro Paulo, Tião Neto e Edson Machado e Radamés Gnatalli e seu Sexteto. Para não deixar de participar desse movimento, fazíamos um Festival de Jazz e Bossa e fundamos uma casa nos moldes do Beco das Garrafas chamada Berimbau. Tínhamos dois grupos fixos atuando - "Tempo Trio", com Helvius Vilela (piano), Paulo Horta (irmão mais velho do Toninho) e eu; "Berimbau Trio" com Wagner Tiso (piano), Milton Nascimento (baixo acústico) e Paulo Braga (bateria). Numa das noites do Berimbau estava presente o Milton Miranda, diretor artístico da EMI-Odeon na época, e contratou o "Tempo Trio" para gravar um LP. Fomos para o RJ 3 meses depois e gravamos em uma semana o disco. Durante nossa estada, a ODEON colocou o Trio para tocar na TV Tupi no Programa do Aerton Perlingeiro, usando para divulgar sua nova contratação. Voltamos e continuamos a tocar em BH e ganhamos o Prêmio de Melhor Grupo de Minas Gerais. Depois deste início auspicioso, a Bossa Nova começou a declinar vertiginosamente pois suas maiores atrações se mudaram para os Estados Unidos.

GC: Você foi muito atuante no final dos anos 60 e início dos anos 70, época de um regime de muita repressão.
PM: Isso aconteceu justamente quando resolvi me mudar para o RJ pois os trabalhos com Bossa Nova e Samba-Jazz simplesmente acabaram em BH. Cheguei ao Rio pronto para trabalhar no que me aparecesse. Tive muita sorte em conhecer dois músicos que foram muito importantes para eu ser aceito no mercado de trabalho do Rio - Maestro Paulo Moura e Osmar Milito. Com o Paulo fizemos a volta da Maysa Matarazzo ao Brasil, na inauguração do Canecão, com grande orquestra, gravação de LP ao vivo; e gravamos o Paulo Moura Hepteto (Darcy da Cruz, Oberdan Magalhães, Constâncio, Wagner Tiso, Luis Alves e eu) e Paulo Moura Quarteto (com a mesma seção rítmica). Com o Osmar Milito inauguramos uma casa noturna chamada "Number One", que logo se tornou o lugar mais importante da musica brasileira no Brasil. No nosso grupo tocavam Marcio Montarroyos, Oberdan Magalhães, Tião Baixo,Osmar Milito e eu. Essa casa era o "point" do Festival Internacional de Musica do Rio de Janeiro, e as atrações iam sistematicamente frequentar o espaço depois das apresentações e aí aconteciam as famosas canjas como o nosso grupo - tocamos com Nancy Wilson, Ella Fitzgerald, Piazolla, Spanky Wilson, Shelly Manne e quase todas as atrações internacionais da época.

GC: Você vivenciou alguma forma de restrição aos músicos e à forma de expressão artística ?
PM: Basicamente essa repressão atingiu os letristas da época. Se por acaso eu estivesse tocando com algum destes compositores, dava para sentir que os repressores foram cruéis. Toquei com Chico Buarque, Edu Lobo e Gonzaguinha, e todos os três tiveram muitas ameaças e musicas interditadas pela repressão.

GC:  Formar-se na Berklee College of Music é uma grande ambição na formação de muitos músicos, e isso aconteceu em uma época  que você já tinha uma carreira consolidada. Foi um momento de amadurecimento ?
PM: Não só foi um momento de amadurecimento, entendi que educação musical é fundamental para qualquer músico deslanchar na sua vontade de crescer. Tenho que agradecer essa grande sorte que tive na vida, e a pessoa que me proporcionou conhecer a forma de aprender música do Berklee College foi o diretor geral da Rede Globo na época - José Bonifácio de Oliveira- o Boni. Na época eu gravava quase que diariamente as trilhas das novelas da Globo, e Boni resolveu ajudar nossa carreira musical - Marcio Montarroyos, Guto Graça Mello e eu fomos agraciados com uma bolsa de estudos de 1 ano. Os dois retornaram e eu resolvi pedir mais 3 anos para terminar minha graduação. Consegui graças a bondade de Robert Share, diretor educacional, que teve sensibilidade para entender meus objetivos.

Cama de Gato Tom Tributo Art Blakey Dubai-Lima: Guitar Project

GC: O "Cama de Gato" aconteceu em um momento muito vivo da nossa Música Instrumental, nos anos 80, e que deu evidência a outros fantásticos músicos. Fale sobre o grupo, que se mantém ativo até hoje.
PM: O CAMA de GATO realmente é um grande trabalho de dedicação, determinação e paciência. Conseguimos inicialmente uma espetacular projeção dentro do mercado mundial, e fizemos shows no Brasil inteiro, torus na Espanha (5 cidades), França (Festival de Jazz de Paris), Bélgica (Festival de Jazz de Bruxelas) e terminamos essa tour no Town Hall em Nova York lançando o selo SOM da GENTE - Rique Pantoja, Arthur Maia, Mauro Senise e eu. Depois da nossa apresentação no Free Jazz Festival em São Paulo, Rique Pantoja teve propostas para se mudar para Los Angeles e resolveu aceitar. Cinco anos depois, Arthur Maia, pressionado pelo volume de trabalho que o Gilberto Gil lhe oferecia, teve que optar para sair pois na sua agenda não tinha mais espaço.Ai entraram Jota Moraes, André Neiva e Mingo Araújo. Nessa segunda formação resolvemos mudar a direção musical para musicas com as raízes brasileiras mais estabelecidas.

GC: Como você desenvolve o processo de composição ?
PM: Como qualquer estudo de um instrumento, o meu processo de composição é trabalhar arduamente numa estrutura harmônica e tentar desenvolvê-la com uma melodia em sintonia com os caminhos harmônicos. Entre 10 musicas que faço com essa estrutura, consigo salvar 1 !!
Esse processo de seleção inclui testar nos nossos ensaios para sentir as reações dos colegas dentro dessa nova ideia musical. Tenho que ter bastante disciplina para entender o que o outro tem a dizer sobre meu trabalho.

GC: Você realizou um disco em tributo a Art Blakey. É uma das suas grandes influências ? 
Fale um pouco sobre os bateristas que o emocionam.
PM: Quando comecei a ouvir Jazz me encantava muito a forma como era apresentado o Jazz Messengers do Art Blakey. Não foi pela forma explosiva que o Blakey tocava. Os arranjos das musicas marcavam muito as nuances tocadas pelos sopros e sonhava com o dia que eu poderia reescrever aqueles arranjos da minha maneira. Isso só foi possível quando estudei arranjo e composição formalmente. E ouvindo as interpretações do Blakey me indicaram o caminho a seguir.
Eu também segui os passos musicais dos bateristas brasileiros daquela época - Edson Machado, Dom um Romão, Hélcio Milito foram importantes pra mim. No jazz, além de Blakey, Tony Williams e Jack DeJohnette. Dentro do Rock Progressivo me interessei muito pelo Bill Bruford, muitas vezes por ele compor músicas inusitadas onde ele mesmo completava a composição com o seu toque baterístico. Passei a compor nesse estilo também, usando esse influência.

GC: Na comemoração dos 50 anos de carreira, também está sendo lançado um documentário sobre essa trajetória intitulado "Ostinato". Fale um pouco sobre.
PM: O Instituto Kreatori, na pessoa de Fabiano Cafure, me convidou para fazermos um documentário no modelo de um curta metragem, com duração máxima de 30 minutos. O principal ponto é vincular esse curta na TV em veículos como Canal Brasil, Curta e Bis. Havendo interesse e procura pensaremos em lançar em formato DVD.
A ideia do formato deste curta foi tentar, em 30 minutos, contar uma carreira de 50 anos. Missão quase impossível, mas conseguimos chegar perto. O Instituto Kreatori fêz um convite para 15 convidados de minha escolha para este almoço e a partir desse encontro, informalmente, ele gravaria depoimentos de todos. Alguns convidados que não puderam comparecer foram localizados após esse almoço e devidamente entrevistados. A segunda parte contém videos de vários shows que fiz durante fases distintas da minha carreira, imagens com o Cama de Gato; com meu quarteto (Daniel Garcia, Sergio Barrozo e João Castilho), com Eumir Deodato e a Sinfônica de Repertório de São Paulo (Victor Biglione, Alex Malheiros e eu na base da Sinfônica), e meu show no Teatro Sucre de Quito no Equador com Alex Carvalho e André Neiva.



GC: Como voce vê a nova geração de bateristas ?
PM: Como sempre, a evolução também influiu na nova geração de bateristas brasileiros e internacionais - Brian Blade, que também compõe muito bem e toca uma bateria muito sensível ao que a musica pede; Vinnie Colaiuta, por seu virtuosismo; e dos novos brasileiros me emocionam o Rafael Barata e o Kiko Freitas.

GC: Novos projetos a caminho ?
PM: Vou procurar sempre desenvolver minha composição pois ela vai ditar como posso interpretar bateristicamente o que transformo em música. E também continuar a ouvir muito Música Clássica e Contemporânea para sempre aprender com os mestres.
Estou preparando material inédito para o meu próximo CD autoral, que quero lançar no segundo semestre de 2015.

O disco "50" você encontra na Livraria Arlequim
Pedidos pela internet no e-mail pascoalmeirelles@yahoo.com.br e em sua página no Facebook

Obrigado Pascoal Meirelles, e vida longa à sua Música.



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