9 VEZES MICHEL LEME

11 dezembro, 2014
É sempre uma enorme satisfação ouvir o guitarrista Michel Leme, músico que transpira emoção, intensidade e prazer no tocar. É a música pela música.
E nos apresenta mais um excelente trabalho, 9, cujo título representa o nono álbum de sua discografia, que também conta com 2 DVDs gravados ao vivo - "Arquivos Vol.1" e "Na Montanha".
Neste trabalho, a base do trio se mantém com Bruno Migotto no baixo e Bruno Tessele na bateria, "os Brunos", e um convidado muito especial vem somar ao grupo - o pianista Felipe Silveira, que, aqui, coloca o Piano Rhodes como protagonista.

Michel Leme 9

O álbum foi gravado ao vivo, sem overdubs e sem efeitos, com um repertório autoral em seis composições, totalizando pouco mais de 50 minutos de muita pressão.
A abertura é uma breve composição de 55 segundos, "Abrindo as Portas", como um portal que nos levará a momentos de espontaneidade, virtuosismo e perfeita interação de grupo.
"Gentleman", originalmente tocada em trio, coloca Migotto em foco na primeira parte do tema, seguido pelos improvisos de Michel e Felipe. A formação de quarteto deu outra dinâmica ao grupo e está contagiante nos temas "Elvin Jones" e "Siga Aquele Diploma!". A primeira traz a forma blues em andamento rápido desenhado pelo walking de Migotto, e não faltou inspiração para Felipe e seu rhodes dando um colorido todo especial não só no seu improviso como também nos desenhos de base sob a improvisação livre de Michel; e pela referência ao título do tema, de baterista para baterista, Tessele também deu seu recado solo.
"Siga Aquele Diploma!" se desenvolve sobre a forte pulsação de Migotto e Tessele, com Michel e Felipe inspiradíssimos e um intenso diálogo entre todos ao final do tema.
"14" é uma belíssima balada, intensamente melódica, um deleite para a pontuação solo de Migotto e o improviso de Felipe, criando o perfeito mood, como uma lavagem na alma, um verdadeiro estado de transpiração.
"70" fecha o álbum em 16 minutos com a atmosfera característica que muitos mergulharam nos anos 70, aquela mistura de elementos livres do jazz e da pulsação do rock e progressivo que sempre se registrou em longos temas, em que, frequentemente, faz surgir grandes insights para a improvisação. O registro cru da guitarra de Michel e o rhodes de Felipe contribuíram muito para essa assinatura sonora. Uma verdadeira viagem, e, aqui, com a nossa identidade.

Sobre essa exposição de temas mais longos dar mais inspiração para o improviso, Michel diz -
"Não há táticas quanto a favorecer a inspiração. Para este grupo, basta cada um estar lá que o ímpeto de criar música juntos estará também."

Que o 9 se multiplique exponencialmente.
Uma aula de jazz, na forma em que se apresenta. Uma aula de Música.
Obrigatório.

Michel Leme nos conta sobre o quarteto e as composições deste trabalho -

GC: O álbum 9 mantém a formação base com "Os Brunos" e agora com o piano de Felipe Silveira. Como surgiu a formação do quarteto?
ML: Depois de gravar o CD "Na Hora", lançado em 2013, e de lançar o DVD "Arquivos - Vol. 1" em maio deste ano, eu senti a vontade de colocar alguém tocando teclado com timbre de Fender Rhodes nesse grupo. Desde o começo eu pensei no Felipe Silveira pra preencher este espaço. Nós tocamos juntos desde 2008 - não tão frequentemente como eu gostaria, porque ele mora em Campinas - e ele sempre se mostrou um músico que realmente gosta de ouvir e tocar em relação ao que está acontecendo na hora, além, é claro, do conhecimento, honestidade e capacidade. Quando comentei com o Tessele e o Migotto sobre convidá-lo para o grupo ambos tiveram reações no mínimo entusiasmadas. Aí foi só ligar pro Felipe e convidá-lo para o trabalho com o qual ele irá ganhar menos dinheiro em toda sua vida - e ele topou rapidamente.

GC: A soma de um instrumento harmônico dá à guitarra mais possibilidades, libertando-a um pouco da harmonia e melodia. Pode-se afirmar isso?  
ML:  Ao tocar em trio, o guitarrista tem a responsa de deixar as exposições dos temas bem claras e também preencher harmonicamente as melodias (seja do tema ou dos solos) quando sentir a necessidade. Eu, particularmente, adoro este papel e trio é a formação que mais tem registros meus tocando por aí.
Neste trabalho com o Migotto e o Tessele, que é mais um som do qual tenho a boa sorte de fazer parte, mas com a diferença do repertório ser formado apenas por minhas composições, eu senti que o Felipe traria mais riqueza harmônica e poderíamos, por exemplo, tocar acordes juntos sem prévios combinados que soassem cada vez mais intrigantes, assim como eu poderia expor as melodias como faria um instrumento de sopro. No primeiro acorde que ele tocou com a gente a coisa já soou como eu imaginava – tem um take de “Gentleman” no Sagrada Música (ver vídeo abaixo) que foi a primeira apresentação com a nova formação; depois de cinco dias nós gravamos o disco.
Ainda quanto ao piano, nos meus solos eu não deixo de tocar em bloco nos momentos em que sinto que devo tocar, assim como eu não deixo de acompanhar os solos do Felipe. Eu acho uma perda de tempo o combinado entre guitarristas e pianistas que tocam juntos que consiste em "no seu solo eu não toco". Oras, se é pra ouvir o outro, porque não somar com o outro? Claro, o problema, tanto de guitarristas quanto de pianistas, é ser chato ao acompanhar e raras são as exceções, mas, neste caso, quanto mais tocamos juntos, mais legal fica.


Sobre as composições do álbum -

GC: "Abrindo as portas". Qual a inspiração, ou mesmo aspiração, implícita no título da composição?
ML: Eu estava tocando com o Nino Nascimento e o Ivan de Castro na Luthieria quando, no final de um rhythm-changes, eu fiz o tema principal do que viria a ser "Abrindo as portas". O video está disponível no youtube, dá pra sacar claramente o momento do seu nascimento. Quando comecei a pensar no "9", eu sabia que iria usar essa melodia, porque ela tem um clima diferente, e acabou servindo como introdução.
O título pode ser uma alusão a "abrir as portas da percepção", que é, talvez, uma das possíveis salvações para a nossa sanidade mental neste mundo governado pela mais abjeta e galopante estupidez. Também é uma alusão a um termo que a prima de John Coltrane cita no final do livro "A Love Supreme" de Ashley Khan, quando Coltrane se levanta pra se unir à igreja, uma simbologia e tal. E, como nós gravamos o “9” no salão da igreja Betesda de Diadema – muitíssimo bem-recebidos pelo querido Miguel Garcia e sua esposa, importante dizer - acho que tem muito a ver.

GC: "Gentleman". Uma homenagem a alguém especial?
ML: De minha parte, é uma homenagem ao Edgard Teixeira, músico, baterista, marido da Sara Chrétien, pai do Cuca e do Wilson Teixeira. Ele foi um verdadeiro gentleman, não no sentido de afetação quanto a normas sociais, mas quanto a ter o espírito de um real cavalheiro. Só tenho as melhores lembranças dele, e quando estava tocando o tema antes de concluí-lo e apresentar para os caras, o Edgard era sempre o inevitável homenageado.
"Gentleman" também representa um valor a não ser esquecido, afinal, cavalheirismo nunca é demais.

GC: "Elvin Jones". Um ícone da bateria no Jazz, o motor do lendário quarteto de Coltrane. É uma referência?
ML: Total. Elvin Jones é um dos mestres que nos ensinam o real espírito da coisa, o espírito que ainda habita apenas em alguns. E estes poucos tem e terão o desafio de viver com as migalhas da sociedade caso escolham ser íntegros. É o que diz a frase de Krishnamurti: “Não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade doente”. Ou seja, você tem o espírito? Então será colocado à margem, porque o que está na via principal neste modo de vida é apenas morte. Estamos vivendo a inversão de valores num de seus picos mais surreais. Exagero? Observe ao redor e me diga.
Coloquei este título porque o tema, a estrutura, enfim, o clima me remeteu a ele. Elvin Jones é daqueles caras que eu ouço em qualquer situação e fico com vontade de tocar guitarra e melhorar como músico e como pessoa.

GC: "Siga aquele diploma!". O diploma é o nosso sonho?
ML: Espero que não. Este título é sobre o poder do marketing das instituições que destilam na sociedade a ideologia "só será um músico sério aquele que tiver um curso superior em música". Será?
Já toquei com vários "mestres" destas instituições, por exemplo, e, com a exceção de uns pouquíssimos, eles talvez tenham talento para outras áreas da atividade humana, mas não para a música. Se fosse só isso, ok, porque talvez pudessem ser bons professores, mas vários "músicos formados" por estas instituições me procuram para ter aulas e chegam sem repertório, sem saber fazer uma levada decente ao acompanhar, além de presos ao extremo ao improvisar - e isso sem falar nos relatos acerca de como procedem os tais “mestres”.
Então, estas e outras me levam a crer que algo muito errado está acontecendo dentro dos muros da “academia”. Quanto aos alunos, muitos deles são pessoas que realmente amam a música e, por isso, insistem, mesmo depois de ter sido atacados pelos lobos.
Tem caras que são apenas um diploma, uma "carteirada" andando por aí; você os seguiria?

GC: "14" e "70s". O que os números representam?
ML: "14" é a 5ª faixa do disco, uma balada bem lenta cuja estrutura principal é de 14 compassos. Obviamente não compus pensando neste número de compassos; procedi como sempre: depois de tocar bastante, ver que era uma música e não um exercício, aí eu escrevi (e contei). Na falta de um nome mais mirabolante, coloquei “14”.
"70s" tem a ver com o clima dos anos 70. Eu nasci em 1971 e me lembro apenas de flashes da década, mas esse pouco é muito legal, porque tem um clima mágico. É como se eu tivesse nascido num planeta muito diferente deste atual. Já o tamanho da faixa acabou ficando ideal para um single: 16 minutos! Minutagens à parte, é incrível como a música faz o tempo cronológico ser tão relativo, ou seja, é como em qualquer outra atividade na vida: se você está curtindo, vai ficar contando os minutos?

Felipe Silveira, Bruno Migotto, Michel Leme, Bruno Tessele

Michel ainda complementa -
"A experiência de compor, tocar e produzir o "9" foi, como sempre, um grande prêmio. Poder ouvir o que as pessoas estão falando a respeito e responder a entrevistas como esta são cerejas e raspinhas de chocolate nesse delicioso bolo. Muito obrigado pela oportunidade."

Eu que agradeço, Michel Leme, é sempre motivador entrevistá-lo.
Obrigado, e sucesso.

A distribuição física e digital do álbum é da Tratore e voce pode comprar diretamente enviando e-mail para michel@michelleme.com




Fotos e ilustrações de capa e contracapa são da Taty Catelan.
9 tem apoio cultural da D'Addario Brasil, EM&T Escola de Música e Tecnologia, Espaço Sagrada Beleza, Luthieria, Net, Sho'You Audio & vídeo, Rotstage, Tecniforte Cables e Timbres Instrumentos Musicais.

Leia também outra super entrevista com Michel Leme sobre o DVD "Arquivos Vol.1", em que fala sobre o processo criativo na música; e o DVD "Na Montanha", seu primeiro lançamento no formato -

Arquivos Vol.1 Na Montanha