A ARTE MUSICAL CONTEMPORÂNEA DESENHADA PELAS MÃOS DO DUO NAZARIO

20 setembro, 2014
Poder se expressar livremente é o grande desafio da arte musical. E experimentações musicais sempre fizeram parte do universo dos irmãos Lelo e Zé Eduardo Nazario, o DUO Nazario.
Nos anos 70, a prática da improvisação livre os levaram a integrar o grupo de Hermeto Pascoal, este que sempre se mostrou além do convencional; e eram nos momentos de pausa das apresentações com o grupo do bruxo que o DUO costumava construir sua própria sonoridade, inserindo elementos da música eletrônica e do jazz.
Ainda jovens, já mostravam domínio dessa linguagem improvisada e, assim, criaram uma identidade muito particular.

Amálgama é mais um resultado de toda essa musicalidade dos irmãos Nazario, cujo trabalho é consequência do Prêmio Funarte de Música Brasileira, que tem como objetivo estimular a criação e produção de projetos relacionados ao campo da música brasileira.
Somente com o uso de teclados e bateria, Lelo e Zé Eduardo Nazario apresentam uma música muito contemporânea, em que o acústico e o eletrônico se aliam em uma mistura de tendências promovendo passagens tão progressivas quanto melódicas, sem deixar de lado o universo da música brasileira.
Assim, o DUO se impõem como uma das mais vanguardistas formações da nossa Música Instrumental.

DUO Nazario

Amálgama é um álbum autoral, um verdadeiro diálogo entre Lelo e Zé Eduardo, com um repertório que traz novas leituras para temas antigos e novas composições, e Lelo é muito objetivo quando fala sobre elas -
"Refletem a enorme quantidade de eventos e informações que é gerada no mundo todos os dias, e busca exprimir em sons todos os aspectos dessa entropia crescente e suas consequências para a vida no planeta."
Para Zé Eduardo Nazario, o principal conceito de trabalho do DUO é experimentar múltiplas possibilidades de encontro entre linguagens e universos musicais com total liberdade criativa.

Lelo Nazario nos conta um pouco sobre o trabalho -

É fato que essa química musical foi criada dentro de casa. Como surgiu a proposta de se consolidar, de fato, como DUO e começar a gravar juntos ?
Isso se deu de uma forma natural, já que comecei, desde cedo, a compor material para tocarmos juntos e fomos, ao longo do tempo, consolidando um repertório extenso e bastante variado. O Zé Eduardo usa, além da bateria, muitos instrumentos de percussão, e eu gosto de criar “ambientes sonoros” com meus recursos eletrônicos e teclados, que são muito diferentes de música para música. Isto cria uma diversidade muito grande, ampliando a sonoridade do DUO. O fato é que, como irmãos, sempre estivemos juntos em vários trabalhos e nestes trabalhos sempre houve a possibilidade de realizar algo como duo também. Quando estávamos tocando com o Hermeto Pascoal ou com o Pau Brasil, muitas vezes era possível tocar algum material só nosso nas apresentações.
No final da década de 80, resolvemos “formalizar” o DUO, e começamos a fazer uma série de shows. Então, recebi o convite do maestro Roberto Farias para compor duas peças de vanguarda para a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, cujas peças foram apresentadas em concertos e com o DUO como solista. A partir daí o trabalho foi se consolidando cada vez mais até hoje.

O título do álbum, Amálgama, tem implícito em seu significado a mistura de vários elementos, e aqui, é a Música o principal componente. É essa a proposta do DUO – misturar tendências, texturas e dar um novo significado sonoro às composições?
Exato. O DUO é terra e ar. Os tambores, pratos e a percussão exótica do Zé nos remete ao chão, às raízes africanas, ao ritmo e à pulsação. Os sons eletrônicos e texturas nos levam ao sonho, aos grandes espaços, às possibilidades sonoras que não temos com os instrumentos convencionais. Então essa mistura de elementos tão diferentes e aparentemente antagônicos nos dá uma nova perspectiva sonora e é nessa premissa que se baseia a proposta criativa do DUO.

Há muita experimentação e improvisação livre na música do DUO. De onde vem as influências de vocês?
Estudamos música desde cedo e sempre gostamos de jazz e música contemporânea, então partimos daí para estabelecer a base do trabalho do DUO. Não tenho muito apreço por imitadores, então, mesmo quando estudava a música dos compositores e pianistas que eu admirava, procurava reescrever frases e achar outras inversões para certos acordes. Assim, faço sempre essa “filtragem” para tentar chegar a uma sonoridade mais pessoal.
Em 1998, lancei o CD “Simples”, que traz algumas composições dedicadas a estes pianistas que eu admiro - Denny Zeitlin, Clare Fischer, Roger Kellaway e outros, e tentei dar às composições um pouco da personalidade de cada um desses compositores, mas, no final, acaba prevalecendo a minha maneira de tocar. O mesmo se dá com o Zé com relação aos grandes bateristas contemporâneos, como Elvin Jones, Jack DeJohnette, Tony Williams ou ao trabalho do Grupo de Percussão de Strasbourg.

Como se deu o processo de gravação?
Em “Amálgama” optamos por gravar como se estivéssemos num concerto, ou seja, gravando um só take de cada música. Como já havíamos tocado bastante esse material nas turnês, acabamos optando por essa forma de gravar. Desse modo, o material soa mais vivo e os improvisos mais “quentes”. Tivemos a sorte de encontrar no estúdio Soundfinger parceiros que também trabalham dessa maneira, então o CD ficou com essa sonoridade viva, que é mais apropriada para o nosso repertório.

A Música Instrumental Brasileira, mesmo com tão pouco espaço na mídia tradicional, mantém seu público muito fiel. Como vocês encaram esse cenário atualmente?
A Música Instrumental no Brasil só existe graças a esse público e a poucos jornalistas que conseguem divulgar esse trabalho. Ao longo da nossa carreira, assistimos a grande mídia diminuindo paulatinamente os espaços para a divulgação da cultura em geral, não só a música. A competição pelo lucro e audiência é o mote dos empresários da comunicação, sem dar a mínima atenção para divulgar os bens culturais produzidos aqui. Nos países mais desenvolvidos existe, claro, a competição pelo lucro, mas lá existe também a consciência de que um bem cultural tem enorme valor e deve ser divulgado. É uma contrapartida que, aqui, existe cada vez menos. Certamente, isto tem um preço e as gerações futuras de brasileiros sentirão o efeito nocivo dessa prática.

Fale sobre o Utopia Studio e o Soundfinger.
Criei o Utopia Studio em 1980 para fazer experimentações com música eletroacústica e de vanguarda. Como consequência natural, passei a usar o estúdio também para produzir esse trabalho de maneira independente, já que não havia espaço para esse tipo de música na indústria fonográfica. Assim, lancei pelo Utopia meus álbuns solo em produções totalmente independentes, da gravação à distribuição. Além disso, comecei a criar trilhas para cinema, TV, dança, teatro e publicidade.
Sempre gostei também de engenharia de som e acabei me aprofundando nisso e assumindo essa função nos meus discos. Logo, comecei a receber convites de outros músicos para direção de gravação, mixagem e masterização e, com o tempo, o estúdio foi se firmando nessa área também, tendo um catálogo de grandes nomes da música brasileira, que inclui o Pau Brasil, Marlui Miranda, Nenê, Nivaldo Ornelas, Jorge Bonfá, Andrea Ernest Dias e outros.
No Soundfinger, encontramos um parceiro incrível para a produção de “Amálgama”. Paulo Aredes, seu idealizador, tem como filosofia dar prioridade a trabalhos autorais e gravações ao vivo, interferindo o mínimo possível na execução dos músicos. A ideia dele é resgatar técnicas e instrumentos usados nas décadas de 50, 60 e 70, mas com equipamentos de última geração. E foi nesse contexto de máxima sintonia e cooperação que gravamos e mixamos o album "Amálgama", que, depois, masterizei no meu estúdio.

O disco pode ser adquirido na Livraria Cultura, Pop’s Discos, Locomotiva Discos e Baratos Afins.



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