O QUE ROLOU NA PRIMEIRA SEMANA DO RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES 2014

11 agosto, 2014
E teve início mais uma edição de um dos maiores, e melhores, festivais de música da América Latina que, ganhando cada vez mais público e visibilidade na grande mídia, coloca em pauta a discussão de promover outras tendências que não estão inseridas na identidade do evento. Uma iniciativa um tanto controversa, afinal é um evento que leva cultura e diversão para a população, independentemente de idade e gosto musical, além de movimentar muito a economia da cidade promovendo a hotelaria, o comércio e o artesanato local.

Muito atraso na abertura do evento este ano, e a Orquestra Kuarup subiu ao palco principal quase às 11 da noite, mas basta soar os primeiros acordes para que o tempo pare e a curtição da boa música prevaleça.
Como todos os anos, a Kuarup, liderada pelo maestro Nando Carneiro e os convidados David Ganc e Mario Seve nos sopros, realizou seu tributo aos grandes mestres da nossa música, e desta vez a orquestra de jovens músicos locais fez homenagem a Dorival Caymi. Abriu os trabalhos com a interpretação do tema 'Milagre", e trouxe ao grupo a apresentação da Companhia de Dança Bahia Formosa, formada na cidade. Ainda no repertório, versões de Jobim em "Chovendo na Roseira" e "Aguas de Março", e Donato em "Bananeira".
Carlos Malta deu seguimento na noite com seu Pife Muderno, formado por Aline Gonçalves nos sopros e pífano, e os percussionistas Marcos Suzano, Bernardo Aguiar, Oscar Bolão e Rodolfo Cardoso. Muito ritmo brasileiro e muito entusiasmo no palco, agradando o público com um repertório bem regional, resgatando Jackson do Pandeiro (Canto de Ema), Gil (Chiclete com Banana), Edu Lobo (Ponteio) e Gonzagão (Asa Branca), além das performances individuais de Suzano e Aguiar nos pandeiros, este último que fez até uma citação do tema da "Pantera Cor de Rosa" na pele de couro. Malta é sempre fantástico, um dos nossos grandes e vibrantes instrumentistas, e seu show com o Pife Muderno é sempre muito animado.

Rio das Ostras Jazz e Blues

E uma das grandes e esperadas atrações do festival subiu ao palco - o baixista Marcus Miller.
Abraçado com seu Fender Jazz Bass, teve ao lado um grupo de jovens músicos da cena do jazz contemporâneo - Alex Han no sax, Lee Hogans no trompete, Brett Williams nos teclados, Adam Agati na guitarra e o incendiário Louis Catto na bateria; e não podia ser diferente - uma apresentação sensacional.
No repertório, "Detroit", “Dr Jekyll and Mr Hyde”, "Blast" e “Run For Cover”, tema que gravou com David Sanborn, com quem tocou por muito tempo. Ainda deu espaço para sua performance solo no Clarinete Baixo, dando um ar quase intimista na apresentação. E não deixou espaço vazio - vibrou, dançou, conduziu os improvisos dos jovens músicos Alex, Lee e Agati, mandou muito slap e com o suporte rítmico do excelente baterista Louis Catto, fez, em uptempo frenético, um empolgante walking usando somente a técnica do polegar. Um showzão, apesar de relativamente curto.

Com o atraso inicial da noite, já passava das 4 da madrugada e não fiquei para o show instrumental do guitarrista Pepeu Gomes, a quem vi na tarde de sábado no intenso e vibrante palco de Iriry. Arena cheia, mesmo debaixo de muita chuva, Pepeu não deixou a galera desanimar desfilando um repertório bem brasileiro com sua pegada Rock na guitarra. No palco, os irmãos Didi e Jorginho, baixo e bateria respectivamente, os teclados de Claudio Mendes, mais guitarra base e dois percussionistas; e apresentou o enteado e guitarrista Filipe Pascual, já mostrando muita ousadia na guitarra aos 17 anos. Encerrou a apresentação com a contagiante "Chicana", a la Santana, voltou pro bis com muita vontade atacando com o clássico "Malacaxeta", tocou o Hino Nacional e, na base do improviso, mandou "Satisfaction" dos Stones colocando o público em um verdadeiro frenesi; e ainda abraçou a guitarrinha baiana no frevo "Vassourinha". Mais uma vez, e como sempre, a arena de Iriry pegou fogo.
Não assisti a apresentação de Marcus Miller no palco da Tartaruga, mas quem lá esteve viu uma apresentação mais completa, em que rolou as versões de "I'll be There", "Come Together" e a tão esperada "Tutu".

Rio das Ostras Jazz e Blues

A segunda noite teve a abertura da excelente Afro Jazz com sua roupagem funky e muito improviso. O grupo ganhou destaque na boemia da Lapa carioca e trouxe os sopros de Eduardo Santana no trompete e Oswaldo Lessa no sax, e a base de Sidão Santos no baixo elétrico, Felipe Chernicharo na guitarra e Thiago Silva na bateria, além de dois percussionistas. Com muito rítmo e muito groove, destacaram-se na abertura com "Afro Blue" (Coltrane), homenagearam Moacir Santos com "Coisa No 4" e citaram "Zaratrusta" (Deodato), tudo com uma pegada muito forte. Ao final, Eduardo Santanda assumiu a bateria e Thiago as vozes para mandar um Rap, e encerraram ao som de Ska. Super banda e um super show!
O blues elétrico e moderno com um tanto de pegada Soul sobiu ao palco nas mãos do guitarrista e vocalista Larry McCray e quarteto formado por Kerry Clark no baixo elétrico, Steve Boone nos teclados e Steve McCray na bateria. Apesar dos problemas técnicos e imprevisíveís, como a primeira corda de sua Les Paul arrebentada e a pane do amp Fender, fez um show muito honesto e com passagens muito interessantes.

A expectativa era o nome de Raul Midón. Particularmente, não esperava muito por esta apresentação, ainda mais se tratando de uma apresentação solo no meio de dois grandes nomes do blues. Mas não foi o que ocorreu, e quando esses momentos nos surpreendem, o registro fica para sempre.
Mídón é cego, canta com boa impostação de voz, muitas vezes simulando o sopro do trompete em seus improvisos vocais, e tem muita destreza no violão, alternando entre o aço e o nylon. Fez uso dos bongos em alguns momentos, aplicou muito o uso do tapping e fez do próprio violão também um instrumento percussivo.
Uma apresentação totalmente intimista e emocionante, e que entreteve o público do palco principal com muita sensibilidade, simpatia e muitas histórias. Citou o Reggae nos nomes de Bob Marley, Peter Tosh e Jimmy Cliff; desenhou melodias e improvisou Charlie Parker em "Yardbird Suite" com muita originalidade, mostrando que conhece a linguagem do jazz. Ainda sentou-se ao piano para interpretar dois temas, quase fazendo o público chorar. Entre muitas de suas histórias, contou que ao conhecer sua esposa disse a ela que "não podia dirigir, mas que podia escrever uma canção"; e mostrou-se grande compositor. Encerrou a apresentação no melhor scat.
Eu fiquei impressionado com o que vi e ouvi, e a minha pouca expectativa transformou-se num dos melhores shows que assisti no festival, acredito que a única apresentação solo de todas as edições.

Rio das Ostras Jazz e Blues

A noite encerrou com o blues contagiante na harmônica de Rick Estrin, que trouxe um quarteto muito invocado com Kid Andersen na guitarra, Lorenzo Farrell no Hammond e contrabaixo e o baterista J. Hansen. Estrin mostrou porque levou o prêmio de melhor instrumentista na harmônica em 2013 pelo Blues Music Awards, a maior premiação do blues, e conduziu a apresentação com base em seu último album "You Asked For It ... Live".
Destaque para o guitarrista Kid Andersen, que dialogou muito com Estrin, fez caras e tocou uma barbaridade em um verdadeiro desfile de riffs e bases. Endiabrado esse Andersen.
Mais um super show para encerrar a primeira semana do festival.

Confira o que rolou na segunda semana do Festival -

Michel Leme DVD Na Montanha