O VAZIO QUE VAI DEIXAR O CONTRABAIXISTA CHARLIE HADEN

14 julho, 2014

Não tem como não registrar algumas palavras sobre o contrabaixista Charlie Haden, que nos deixou aos 77 anos. Uma trajetória musical como poucos realizaram, e deixa um legado importante para os amantes do instrumento e da boa música. Eu o tinha como um poeta do instrumento, tendo a oportunidade de assistí-lo na edição 2006 do saudoso Tim Festival.

Comecei a ouvir Haden de verdade com seu Quartet West, grupo que também trazia o saxofonista Ernie Watts e o pianista Alan Broadbent, registro dos discos Haunted Heart (1992), Always Say Goodbye (1993) e Now is the Hour (1995), estes que jamais pararam de rodar por aqui.
No lançamento de Beyound the Missoury Sky (1996), em duo com Pat Metheny, estava ali mais um registro histórico, de beleza musical ímpar, e que deu a Haden seu primeiro Grammy em 1997. Haden já havia gravado com Metheny nos discos 80-81 (1980), Rejoicing (1984) e Song X (1986), em formações variadas. Aliás, Song X, pra mim, foi uma porta de entrada para o universo da música livre, a qual Haden foi um dos pioneiros quando participou do disco Free Jazz:A Collective Improvisation (1961), sob a liderança de Ornette Coleman com dois quartetos tocando ao mesmo tempo, um em cada canal - Haden estava em um deles ao lado de Freddie Hubbard, Eric Dolphy e Ed Blackwell, um disco que só consegui perceber, e entender, musicalmente mais tarde.
A série de concertos ao vivo em Montreal foi outro marco de Haden, sessões registradas na edição do festival em 1989 em formação de trio, que teve o piano de Geri Allen e Gonzalo Rubalcaba, ambos com o baterista Paul Motian, e o ousado trio com o trompetista Don Cherry e novamente Ed Blackwell numa sessão incendiária sem instrumento harmônico de base.

Haden também fez belos trabalhos com nosso Egberto Gismonti, como o duo registrado ao vivo em Montreal (2001); o trio Mágico, que também trazia o sax de Jan Garbarek, no disco homônimo lançado em 1979 e no registro perdido de uma apresentação em Munique no ano de 1981, Carta de Amor, lançado recentemente.
O mestre também estava ao lado de Michael Brecker em Don't Try This at Home (1988) e o belíssimo Nearness of You: The Ballad Book (2000); com David Sanborn em Another Hand (1991); com John Scofield em Time on My Hands (1989) e Grace Under Pressure (1991); e no Blues com James Cotton em Deep in the Blues (1995).
Tem que destacar os registros com o pianista Keith Jarrett, com quem Haden talvez tenha mais gravado e com quem fez dois trabalhos sensacionais em duo - Jasmine (2010) e Last Dance (2014).

Enfim, em muito que eu ouvia, e ainda ouço, tem o contrabaixo de Charlie Haden desenhando melodias, walkings e improvisos. Vai deixar uma imensa lacuna no jazz e na boa música.

Charles Edward Haden nasceu na cidade Shenandoah, Iowa, em 6 de agosto de 1937.

Charlie Haden: 1937-2014