AS MÚLTIPLAS FORMAS DE KIN

16 março, 2014
Quando é anunciado um novo álbum de Pat Metheny, a comunidade de adoradores de sua música pelo planeta fica ansiosa, afinal é certeza de mais um trabalho de grande magnitude.
Lógico que sempre existe um ponta de esperança de um dia ouvirmos novamente a formação do Metheny Group, aquela sonoridade tão particular, contagiante, quase que cinematográfica, e que selou eternamente a química musical de Metheny com o pianista Lyle Mays.
O último trabalho do Metheny Group data de 2005, The Way Up, e desde esse tempo Metheny realizou diversos trabalhos solo, extraordinários, como o fantástico What´s All About, o ousado Orchestrion e o inesperado Tap: Book of Angels, além da criação da Unity Band.


KIN(←→) é o título do álbum, que agora se forma como Unity Group.
O grupo mantém a base da Unity Band, formada em 2012 - Cris Potter, Ben Willians e Antonio Sanchez, e agora ganha o reforço do multi-instrumentista italiano Giulio Carmassi.
Apesar que muitos afirmam ser o Unity Group uma nova edição do saudoso Metheny Group, é fato que isso não é possível sem a presença da assinatura de Lyle, mas a entrada de Carmassi resgatou um pouco daquela atmosfera, com a adição de piano, vozes e sopros. É uma nova roupagem, sem dúvida, e traz passagens de outros momentos da trajetória de Metheny, como com as registradas com Charlie Haden, Ornette Coleman e Michael Brecker.
KIN(←→) é espetacular. Ponto.

A imagem que ilustra a capa, desenhada pelo artista Stephen Doyle, rendeu uma exposição na Azart Gallery em NY, intitulada "The Many Faces of KIN (←→)”, com uma coleção de 20 impressões que capturaram a evolução da arte da capa.
É fato que as capas dos albuns de Metheny sempre tiveram uma identidade com a música inserida nos albuns; e Kin não foi diferente, o objetivo foi criar uma face recortada representando todas as raças e culturas.

O repertório traz 9 composições e o tema de abertura, "One Day One", é um suspiro nostálgico em intensos 15 minutos, introduzido por intervenções percussivas e um improviso invocado de Metheny, ganhando novas nuances no andamento do tema para deleite de Potter, Willians e um epílogo com as vozes de Carmassi. Nessa mesma onda vem "Rise Up", em mais 10 minutos de composição que vão alimentar os ouvidos mais saudosistas, alimentados pela base acústica de Metheny, o piano mais presente de Carmassi, além dos contagiantes improvisos do líder e Porter. Impressionante a base rítmica imposta por Sanchez e Willians nesses dois temas.
E não fica por aí, "Sign of the Season" ganha o reforço do piano de Carmassi e o timbre característico de Metheny, e Porter ataca de soprano, com destaque ainda para improvisos de Willians e Sanchez que, como sempre, dá o colorido todo especial. É surpreendente como Sanchez se encaixou tão perfeitamente na linguagem da música de Metheny, e Cris Porter, que Metheny não esconde sua admiração, afirmando que esperou por 30 anos até que outro músico o inspirasse do mesmo jeito que fizeram Michael Brecker e Dewey Redman.
O tema título nos resgata para uma viagem de guitarra sintetizada, aquela sonoridade tão original pelas mãos de Metheny e que ficou eternizada com "Are You Going with Me".
Particularmente, o ápice do álbum é a balada "Born", de uma beleza melódica estonteante, quase um hino, nos elevando para a atmosfera de Missouri Sky, trabalho que Metheny realizou com Haden, uma semelhança sonora impossível de não ser percebida. Mais baladas com "Adagia", introduzida pelo violão de Metheny e desenvolvida no sopro de Potter; e "Kqu", com roupagem mais jazzy e com melodia desenhada pelas vozes de Metheny e Porter. "Genealogy" traz uma pontuação free, na onda do Song X, album de Metheny com Ornette Coleman; e ainda uma levada smooth em "We Go On".

Um discão.
Obrigatório.


www.nonesuch.com/albums/kin

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