ENSIMESMADO

19 março, 2014
Estar ensimesmado é colocar-se em estado de introspecção, voltar-se para dentro de si mesmo, recolher-se em um olhar interior. Um termo que, talvez, tenha que ser encarado de forma romanceada. Visto de fora, muitos podem não compreender, mas, verdadeiramente, é um momento em que se promove a inspiração.

Ensimesmado é o título do disco de estreia do violonista e guitarrista Daniel Guimarães.
Um belíssimo trabalho totalmente autoral, cujo título retrata o estado de espírito do músico na época da criação dos arranjos, expressando nas cordas as melodias e harmonias que nos transpõem em uma simples e intensa viagem sonora.
Daniel está acompanhado pelo contrabaixista Auriu Irigoite e pela baterista Georgia Camara, e traz como convidados o violonista Felipe Machado e os acordeonistas Gabriel Geszti e Ricardo Rito.

Ensimesmado

O tema de abertura, "Revoada", traz um ar setentão, uma mistura mineira com nuances da música progressiva e cuja melodia, daquelas que ecoam na nossa cabeça, ganha um certo ar de nostalgia reforçado pelo vocalize de Daniel. Um prático exemplo sobre estar ensimesmado se retrata no tema título, aquele momento introspectivo em que Daniel dialoga só com seu violão, realizando traços que lembram a textura de um Ralph Towner, mas com uma roupagem muito particular e muito brasileira. Uma bela interpretação.
E o toque mineiro se faz presente em "Valsa Antiga", que ganha a presença do acordeon de Gabriel Geszti suportado pela base do violão de Daniel e o colorido da bateria de Georgia Camara. O acordeon volta em destaque novamente na bela composição "Vida e Despedida", aqui nas mãos de Ricardo Vito.
Daniel coloca a guitarra em primeiro plano em "Como se fosse sombra", e mais uma vez colorindo o tema com seu vocalize e um intenso improviso; aqui percebe-se algumas de suas influências.
"Limbo" se introduz um tanto psicodélica, mas logo se transforma em frevo, e Daniel coloca o bandolim como protagonista. "Nossa Valsa" põe uma atmosfera jazzy pontuada pelo walking do contrabaixo de Auriu Irigoite, com Daniel revezando-se no violão e guitarra, entre melodia e improviso, e novamente o forte traço mineiro.
"Trinta anos" promove um belo duo de violões ao lado de Felipe Machado, em um tema recheado por uma melodia chorosa e ar seresteiro, e aqui a transpiração do mestre se apresenta na condução do tema. E o próprio Felipe Machado é o homenageado no samba improvisado e contagiante "Carnaval no Andaraí".
O disco fecha na voz de Daniel no tema "Ao que virá", mais um bela composição em que o mestre coloca a voz em primeiro plano e solta o canto; e assim "pede pro céu um sim, a cantar um sonho bom".

Com a palavra, Daniel Guimarães -

GC: Fale sobre sua formação musical.
DG: Sou Petropolitano, mas fui criado em Angra dos Reis.
Meu primeiro contato sério com o violão aconteceu quando um primo meu de Belo Horizonte veio passar as férias em minha casa em Angra dos Reis, e se dispôs a me ensinar alguns acordes. Eu tinha 14 anos e segui dali, primeiro com revistas como aprendendo musica Pop em geral e depois Rock pesado e o progressivo até chegar na Música Instrumental e o jazz, isso quando já havia me mudado de Angra para Belo Horizonte.
Em Belo Horizonte, na década de 90, comecei a estudar música de forma mais séria e tive a sorte de viver um momento muito musical por lá, tanto de Rock quanto de jazz e música mineira. Meu professor foi o Magno Alexandre, um grande instrumentista mineiro.
De Minas fui pro Rio, no final da década de 90 , já perseguindo uma carreira em Música, aí tive vários professores de harmonia e improvisação, e ingressei na faculdade de música da UniRio. Desde então tenho trabalhado em diversas áreas - teatro, gravações, aulas e apresentações sempre focando no jazz ou nos trabalhos autorais.

GC: Ensimesmado é um trabalho belíssimo, em que percebemos a forte presença do traço musical mineiro e o violão contemporâneo. Até onde você carregou suas influências musicais nesse trabalho?
DG: Você acertou em cheio! É bem essa mistura da música mineira com o jazz europeu da ECM, que sempre me encantou. Na guitarra e no violão minhas maiores influências são Toninho Horta, Pat Metheny, Ulisses Rocha, Guinga e Ralph Towner. Ouço também muito Blues e Blues-Rock dos anos 60 e 70.

GC: Fale sobre o grupo que o acompanha.
DG: Chamei dois amigos dos tempos da faculdade com quem sempre me identifiquei musicalmente - Auriu Irigoite no baixo e Georgia Camara na bateria, que realmente fizeram a diferença e soaram muito bem juntos. Não procuro músicos virtuosos mas aqueles que são musicais.
O Felipe Machado, outro colega dos tempos de faculdade e parceiro em duas músicas, também participou com seu violão maravilhoso; e ainda pude contar a participação dos grandes Gabriel Geszti e do Ricardo Rito, ambos no acordeon.



GC: Que equipamentos você usou nessa sessão?
DG: Meu equipamento é bem simples - guitarra Gibson 335, um violão de luthier, os bandolins e um violão Godin para palco. Na época da gravação do disco, 5 anos já se passaram, eu usei também uma guitarra cítara Danelectro, uma Telecarter Reissue 72 e alguns pedais, como o Boss RT 20 para simular sons de hammond.

GC: Você tem um estilo de tocar muito particular, fingerstyle, o tocar com os dedos em vez da palheta. Como se identificou com esse estilo?
DG: Quando eu tocava mais Rock usava palheta, mas minha técnica nunca foi boa. Ainda uso palheta para tocar bandolim, mas para guitarra e violão prefiro dedo por ter a liberdade de tocar melodias e acordes ao mesmo tempo.

GC: Você é um Mestre, um educador musical. Como percebe essa nova geração de músicos em um mundo de mídia tão popular e tão pouco criativo?
DG: O professor esta virando um intermediário entre o que chega da internet e o aluno. Isso é bom e ruim. De um lado as pessoas podem aprender  muita coisa, mas o lado ruim é que maioria delas não sabe o que esta aprendendo. Eu acho que ainda prefiro o modo antigo.

Obrigado Daniel Guimarães, e sucesso.

Para adquirir o disco diretamente com Daniel Guimarães, envie e-mail para daniguitarguimas@gmail.com



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