A MÚSICA É A CHAVE PARA O SUCESSO ?

21 outubro, 2013
Excelente artigo publicado no NY Times sobre a relação da música com outras atividades profissionais.
(tradução livre)

por Joanne Lipman
fonte : NY Times (imagem : Anna Parini)

A cientista politica americana Condoleezza Rice estudou para ser uma pianista. O economista Alan Greenspan foi clarinetista e saxofonista. O bilionário e investidor Bruce Kovner estudou na Julliard.

O que o estudo e treinamento dedicado da música parece se relacionar com o sucesso em outras áreas ?
A ligação não é uma coincidência. Eu coloquei a questão para profissionais bem sucedidos na industria de tecnologia, finanças e comunicação, e todos tinham alguma relação no passado como músicos. Quase todos fizeram uma conexão entre o estudo da música e sua realização profissional.

O fenômeno vai além da associação matemática-música. Evidentemente, muitos afirmaram que a música abriu o caminho para o pensamento criativo e lembram que suas experiências aguçaram outras qualidades, como o trabalho em equipe, a habilidade de ouvir, um jeito de pensar que a agrega ideias distintas e o poder de focar no presente e no futuro simultaneamente.

Um programa musical escolar transformará seu filho em um Paul Allen (guitarra), o bilionário co-fundador da Microsoft? Ou um Wood Allen (clarineta)? Provavelmente não. Estes são únicos. Mas o meio que estes e outros visionários citados utilizam a música é fascinante. É a forma que muitos deles aplicam o estudo, a dedicação e o foco na música em muitas maneiras de pensar e se comunicar, até mesmo na solução de problemas.
Olhando cuidadosamente, voce encontrará músicos no topo de quase todas as industrias. Woody Allen toca semanalmente com um grupo de Jazz. A apresentadora Paula Zahn (cello) e a corresponde da Casa Branca Chuck Todd (trompa) ingressaram em suas escolas como bolsistas de música; Andrea Mitchell, da NBC, tornou-se uma violinista profissional. Allen, assim como o investidor de risco Roger McNamee, tiveram grupos de Rock. Larry Page, co-fundador da Google, tocou saxofone na escola. Steven Spielberg é clarinetista e filho de uma pianista. O presidente do Banco Mundial James Wolfensohn tocou violoncelo no Carnegie Hall.

Não é coincidência, afirma Greenspan, que desistiu do clarinete mas toca o instrumento em sua sala de estar. "Posso dizer a voce, como estatístico, que a probabilidade de que isso é mero acaso é extremamente pequena. Isso é tudo que você pode julgar sobre os fatos. A questão crucial é: por que essa ligação existe?", diz ele.
Paul Allen tem uma resposta, ele reforça sua confiança na habilidade de criar. Começou a tocar violino aos 7 anos e trocou para a guitarra quando adolescente. Mesmo no início da Microsoft, ele pegava a guitarra ao final de uma maratona de dias de programação. A música era sua válvula de escape em seus dias de trabalho, canalizando diferentes tipos de impulsos criativos. "Muita coisa puxa voce para olhar além do que realmente existe e isso se expressa de muitas maneiras", diz ele.
Todd diz que há uma ligação entre os anos de prática e ele chama isso de "guiar pela perfeição". O executivo Steve Hayden credita sua experiência como celista ao seu mais famoso trabalho, o comercial da Apple para o computador "1984", ilustrando uma rebelião contra um ditador. "Eu estava pensando em Stravinski quando me veio a ideia", diz ele. E acrescenta que tocar violoncelo o ajudou a trabalhar em equipe - "Tocar em conjunto educa voce, literalmente, tocar bem com os outros, saber quando solar e quando acompanhar".

Para muitos dos altos executivos entrevistados, a função musical como a "linguagem oculta", de acordo com Wolfensohn, permite melhorar a habilidade de conectar coisas diferentes ou mesmo idéias contraditórias. Quando ele liderava o Banco Mundial, viajava para mais de 100 países e frequentemente assistia a shows locais (ocasionalmente juntava-se ao grupo com um violoncelo emprestado), e isso o ajudava a entender a cultura das pessoas.
É nesse contexto que as tão discutidas ligações entre matemática e música ressoam. Ambos são meios de expressão. Bruce Kovner, o fundador da Caxton Associates e membro executivo da Juilliard, diz que vê similaridades entre tocar piano e estratégias de investimento, afirmando que ambos se relacionam por reconhecer padrões e muitas pessoas estendem esses paradigmas por diferentes sensações.
Kovner e o pianista Robert Taub descrevem isso como um conjunto, uma sinestesia, em que percebe-se os padrões de um meio tri-dimensional. Taub ganhou fama por suas gravações de Beethoven e desde que fundou sua empresa de sofware musical, MuseAmi, diz que quando toca pode visualizar todas as notas e suas inter-relações, uma habilidade que se traduz intelectualmente em fazer múltiplas conexões em múltiplas esferas.
Para outros, a paixão pela música é mais notável que seus talentos. Wood Allen afirma duramente - "Eu não sou um músico completo, muito pelo fato de estar no cinema. Sou como um jogador de tenis de final de semana, daqueles que joga somente uma vez. Não tenho um bom ouvido ou particularmente um bom senso de tempo. Em comédias, tenho um bom instinto para ritmo, mas na música nem tanto."
Ainda, ele pratica o clarinete pelo menos meia hora por dia senão perderá a embocadura se não o fizer. Afirma que, se quiser tocar, tem que praticar e, por pior que ele esteja, o faz todos os dias. Allen toca regularmente com seu grupo e  não pretende tocar em salas de concertos para 5000 ou 6000 pessoas, mas isso enriquece tremendamente sua vida.

A música te dá equilibrio, explica Wolfensohn, que iniciou as lições de violoncelo já adulto. Diz ele - "Voce não está tentando ganhar uma corrida para ser o líder disso ou aquilo. Voce está se divertindo pela satisfação e alegria da música, que está totalmente desvinculada da sua situação profissional."
Para Roger McNamee, cuja empresa Elevation Partners seja, talvez, a mais conhecida em investimento no Facebook, música e tecnologia convergiram. Ele se tornou um especialista na rede social usando-a para promover sua banda, Moonalice, e agora está promovendo videos por streaming de seus shows. Ele afirma que músicos e profissionais compartilham a necessidade quase que desesperada de ir mais fundo.
Paula Zahn lembra passar quatro horas por dia tentando tirar uma frase em seu violoncelo. Todd, agora com 41 anos, conta em detalhe sua audição solo aos 17 - "Sempre acreditei nas razões que me levaram a trabalhar mais que as outras pessoas. É uma competência aprender a tocar solo, trabalhar em algo muitas e muitas vezes. Não há nada como a música para ensinar a voce que, eventualmente, se trabalhar duro, obterá o melhor. Voce vê os resultados."
Esta é uma observação da qual lembra que a música com um sério propósito, a educação musical, está em declínio neste país.

Considerando as qualidades destes altos realizadores, digo que a música aguçou a colaboração, a criatividade, a disciplina e a capacidade para reconciliar idéias conflitantes. Qualidades ausentes da vida pública. A música não faz de voce um gênio, ou rico, ou mesmo uma pessoa melhor, mas ajuda a pensar diferente, a processar diferentes pontos de vista, e o mais importante - torna prazeroso o ato de ouvir.

Joanne Lipman is a co-autora junto com Melanie Kupchynsky do livro "Strings Attached: One Tough Teacher and the Gift of Great Expectations”.

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