GARY BURTON EM AUTOBIOGRAFIA

11 setembro, 2013
por Nate Chinen
fonte : NY Times  (tradução livre)

Há um momento em Learning to Listen: The Jazz Journey of Gary Burton que relata o encontro de Gary Burton com Miles Davis no festival de jazz de verão em sua cidade natal, Indiana. Para Burton, esse encontro provavelmente poderia ter sido um pouco melhor. O ano era 1959 e Burton tinha 16 anos, um precoce vibrafonista matriculado na Stan Kenton Jazz Camp. Davis estava tocando no festival com seu sexteto, o grupo que fez o disco Kind of Blue. Burton descreve - "Enquanto ele andava atrás do palco, eu tirei uma foto dele com a minha câmera Brownie, e, ao piscar o flash em seu rosto, ele respondeu simplesmente, de forma sarcástica - obrigado, garoto".
Esta é somente uma das histórias contadas no livro e que captura algo essencial sobre Burton. Assim ele conta - "Eu sempre fiquei fora da badalação, vim de um lugar de campo, tocando um instrumento que muitas pessoas não conheciam. Era jovem e todos os integrantes de grupos que toquei estavam na faixa dos 40 anos; e eu estava contente, embora não tivesse como descobrir muito naquela época".

O que é uma verdade sobre Burton é que ele se encaixa nesse perfil insider, e se sente orgulhoso da sua trajetória. Ganhou 7 Grammys, um deles com Chick Corea. Foi um pioneiro no nascimento do jazz-rock e seus grupos serviram como incubadora para jovens artistas, como Pat Metheny. Durante mais de 30 anos como afiliado da Berklee College of Music em Boston, ajudou a transformar a educação do jazz e transformou o cenário da música atual. Felizmente, o som predominante do jazz, harmonicamente sofisticado, ritmicamente simples e não autoconsciente dessa mistura de tradições, suporta a influência de Burton..
"Muitos jovens músicos de hoje não estão vindo de uma escola ou de outra, eles estão vindo de um lugar mais amplo. E Gary foi sempre veio desse grande lugar."", disse o saxofonista Joe Lovano, que detém a Gary Burton Chair in Jazz Performance na Berklee.

Burton cultiva um pouco da atmosfera mística de Miles Davis e outras grandes figuras do jazz. Sua educação sempre se baseou nos seguintes princípios - seja educado, cortez e tente fazer as pessoas se sentirem bem. Muitas vezes ele encontra pessoas pela primeira vez e elas se surpreendem em aprender em saber que ele é um músico de jazz - "Voce parece um professor de colégio", muitos dizem.
O livro lança uma nova luz sobre sua inserção no jazz. Burton cresceu com uma marimba, e com um professor de vibrafone começou a estudar música aos 6 anos. Sua família sempre se programava para viagens em torno dele para que se apresentasse em programas de talentos.
Na adolescência, já era conhecido nas jams locais. Um dos que ficaram impressionados com o ainda garoto foi o saxofonista Boots Randolph, que fez os arranjos para Hank Garland, guitarrista de Nashville. Garland, que pensava em gravar um disco com vibrafone, convidou Burton para passar um verão em Nashville e tocaram juntos no festival de Newport, em que também participou Chet Atkins. O disco que Garland gravou, “Jazz Winds From a New Direction", se tornou um clássico. Com o suporte de Atkins, Burton fez seu próprio acordo com a gravadora RCA.
Curioso o fato que os dois primeiros mentores de Jazz de Burton não eram músicos de jazz, mas lendas da música Country. Realizou seu disco de estreia, "New Vibe Man in Town" (1961), enquanto estudava em Berklee e não demorou muito para trabalhar como sideman, primeiro com o pianista George Shearing e depois com o saxofonista Stan Getz, com quem gravou Getz/Gilberto, registro que marcou a química entre o jazz e outras tradições musicais. Esse sucesso significava que Burton logo encontraria seu próprio rumo.
O público gostava de sua performance com as quatro baquetas - The Burton Grip, como era conhecido, e atuava como diretor musical também. Manfred Eicher, fundador da ECM, disse que viu Burton no quarteto de Getz e ficou impressionado com sua criatividade melódica como solista e, é claro, pela técnica fenomenal que estava sempre a serviço da expressão lírica. Burton carregou essas qualidades por toda a sua carreira como líder - "Uma das razões que me senti motivado a tentar combinar rock e jazz era ter visto Stan Getz combinar estilos por três anos e pensei - eu quero fazer algo assim". Inspirado pela energia do som do rock dos anos 60, formou o Gary Burton Quartet com o guitarrista Larry Coryell. O primeiro disco do grupo, "Duster", foi lançado em 1967 com Steve Swallow e Roy Haynes. Mais tarde o quarteto se solidificou com o baterista Bob Moses em turnê pela Europa.

Burton disse que se sentiu menosprezado por muito tempo por relatos de que o jazz-rock começou com "Bitches Brew", álbum que Miles Davis fez em 1969. Na época, o Gary Burton Quartet foi devidamente creditado por desbravar novos caminhos e a eleição dos leitores da Downbeat em 1968 o elegeu como o jazzman do ano. O guitarrista Bill Frisell, que viu o grupo de Burton naquele verão, lembra o momento - "O que Gary fez foi uma espécie de modelo para tantas coisas que eu ainda faço".
Frisell é atualmente um dos muitos guitarrista que não passou pelo grupo de Burton. Após Coryell, passaram John Scofield e Kurt Rosenwinkel. Pat Metheny foi outro que se antenou com Burton ainda jovem, se tornando uma descoberta preciosa e um verdadeiro parceiro, diz ele - "Para mim ele foi a síntese do que um músico moderno devia ser, ele é um poço de ideias e melodias. Isso fica um pouco perdido por causa da natureza do instrumento. Com essas quatro baquetas voando pelas notas, muitas vezes sinto que as pessoas podem perder o conteúdo real das ideias, das linhas, e é impressionante a visão disso tudo".

Um argumento que Burton traz em seu livro é que ele também popularizou as apresentações solo e em duo com instrumentos além do piano. E isso é de extrema importância pois Burton ganhou seu primeiro Grammy por "Alone at Last", um álbum solo de vibrafone magistral lançado no Atlântico em 1971; além do duo com Chick Corea na mesma época com o album Crystal Silence, ECM, altamente aclamado. Para Manfred Eicher, Burton foi um artista marcante, assim como Keith Jarrett, com quem ele também gravou. A diferença entre os dois é que Jarrett cultivou uma personalidade mais introspectiva. Burton afirma - "Eu poderia ter acabado como Jarrett se não tivesse partido para o lado acadêmico, e a única coisa que acontece quando voce ensina, como em Berklee, é que voce está acessível para muita gente".

De Berkelee, onde começou como professor em 1971 e saiu como vice-presidente em 2004, Burton fez dessa acessibilidade sua doutrina, expandindo a base de estudantes além dos protocolos do Jazz.
Em 1994 colaborou com Astor Piazzolla, o mestre do novo tango, que o fez emergir em uma nova veia de expressão emocional. Mais de uma década depois, em 2010, lançou novo album com o espantoso guitarrista Julian Lage e uma super seção rítmica com o contrabaixista Scott Colley e o baterista Antonio Sanchez. Para Julian Lage, a experiência foi um momento marcante e afirma que, se olhar o trabalho de Burton cronologicamente, ele sempre está fazendo algo novo e sempre instituiu uma nova tradição.