O JAZZ COMO ESPERANTO MUSICAL

01 julho, 2013
Uri GurvichColuna do Luiz Orlando Carneiro 
JBOnline, 29 de junho

Conforme a narrativa do Gênesis, os homens falavam uma só língua. Até que decidiram construir uma torre que tocasse os céus, e mostrasse ao “Todo Poderoso” do que eram eles capazes. Como Deus não gostou do desafio, confundiu a linguagem dos construtores, que começaram a se expressar em idiomas até então inexistentes.
Sem se entenderem, os homens de Babel (ou BabEl) dispersaram-se mundo afora, em grande confusão.

No mundo moderno, o jazz, que não é um tipo de música afroamericana, mas um modo de expressão musical cada vez mais global, é o idioma capaz de reunir, num estúdio ou num palco, instrumentistas nascidos em países os mais diversos num clima de criativa harmonia.

Com sotaques distintos, Louis Armstrong e Django Reinhardt, Art Tatum e Martial Solal, Miles Davis e Thomasz Stanko falaram ou falam esse esperanto musical.

O CD BabEl, recém-lançado pelo selo Tzadik, do “cult” John Zorn, é um registro especialmente relevante dessa língua sempre aberta a neologismos, cultivada em lugares de intensa atividade cultural, como os clubes underground do Village e do Brooklyn, em Nova York, e o Berklee College of Music, em Boston.
BabEl contém oito peças da lavra do saxofonista alto israelense Uri Gurvich, que comanda um quarteto integrado pelo argentino Leo Genovese (piano, teclados), pelo cubano Francisco Mela (bateria), e pelo búlgaro Peter Slavlov (baixo). Todos eles completaram seus estudos no afamado Berklee College, e acabaram por radicar-se em Nova York. Em três faixas deste cativante álbum, o marroquino Brahim Fribgane embarca no grupo tocando o seu oud, instrumento de origem árabe similar ao alaúde, também com cordas duplas, mas fretless (sem trastes).

O chamado world jazz não é novidade. Um dos conjuntos mais interessantes do gênero é o quarteto Third World Love, formado pelos israelenses Avishai Cohen (trompete), Yonathan Avishai (piano) e Omer Avital (baixo) mais o americano Daniel Freedman (bateria), e que teve merecido sucesso com o CD New blues (Anzic, 2007). O cultor mais radical do gênero é o acima citado John Zorn, que vem de lançar, como compositor, o álbum Tap: Book of Angels, Vol. 20 (Tzadik), no qual Pat Metheny entra em erupção, com todo o seu arsenal de guitarras e engenhocas eletrônicas, na companhia do baterista Antonio Sanchez.

BabEl, de Uri Gurvich & Cia, está mais na linha da música de Avishai Cohen do que no viés excêntrico de Zorn. A temática oriental, de caráter modal, é hipnótica e ritmicamente dançante logo na primeira faixa, Pyramids (6m10), que destaca o oud de Fribgane, na abertura e na conclusão da peça, desenvolvida num solo de mais de três minutos do saxofonista, cujos som ácido e articulação invejável lembram muito Kenny Garrett. O clima é o mesmo em Derwish Dance (6m20), com realce para o piano assimétrico, à la Don Pullen, de Genovese, e na pegada groovy de Nedudim (6m35), incrementada pelo teclado com som de órgão do pianista.
As peças mais contemplativas do CD são também as mais longas: Alfombra Magica (8m) e Hagiga Suite (8m50). O oud do marroquino Fribgane “orientaliza” ainda mais Scalerica de Oro (6m), tema tradicional sefardita, desenvolvido em crescendo até uma celebração final com efeitos eletrônicos dos teclados e uma coda vocal em ladino, e Camelão (5m45), com o incisivo sax alto de Gurvich e o piano de Genovese em movimentada troca de ideias, mais solo do magnífico baterista Francisco Mela (o preferido de Joe Lovano).