TRIO STANDARDS DE KEITH JARRETT COMEMORA 30 ANOS

17 junho, 2013
Coluna do Luiz Orlando Carneiro 
JBOnline, 15 de junho

Em janeiro de 1983,  lá se vão 30 anos, o virtuose do piano Keith Jarrett, o Glenn Gould do jazz, gravou para a ECM o primeiro volume do seu trio Standards, com os inseparáveis Gary Peacock (baixo acústico) e Jack DeJohnette (bateria). Ele já era então famoso por seus longos concertos solitários, pontuados por gemidos e exclamações, cujo ponto culminante foi o Köln Concert (1975), álbum que vendeu mais de 3 milhões de cópias, e deu prestígio e solidez à gravadora ECM, de Manfred Eicher.

O 21º registro do trio que conquistou quase sempre, nas três últimas décadas, o topo da maioria das listas de melhor pequeno conjunto de jazz acaba de ser lançado por Eicher, com um razoável, ou estatrégico, atraso. Trata-se do CD Somewhere, gravado num concerto na Suiça (Lucerna), em julho de 2009. Ou seja, no mesmo ano em que a ECM “desovou” o álbum Yesterdays que, por sua vez, tinha sido gravado ao vivo, em Tóquio, em 2001, ano em que também foram registrados (e guardados) Always Let me Go (Tóquio), The Out-of-Towners (Munique) e My Foolish Heart (Montreux). Os releases destes três últimos ocorreram aos poucos, respectivamente, em 2002, 2004 e 2007.
Assim, é mais do que oportuna a pergunta: Por que adquirir o novo disco do Standards Trio de Keith Jarrett, ou algumas de suas seis faixas - sendo a mais longa de quase 20 minutos (Somewhere/Everywhere) e a mais curta de seis minutos (I Thought About You)?

Na crítica que escreveu para o Neue Zürcher Zeitung, o crítico Jürg Meier qualificou de Kontrollierte Ekstase (êxtase controlado) o clima deste concerto de Lucerna. E, em princípio, a expressão poderia ser aplicada a qualquer performance do “performático” mágico do teclado, sempre marcada por uma concentração físico-intelectual tão intensa que, no período 1997-99, nele provocou uma “síndrome de fadiga crônica”.
No entanto, Somewhere é mesmo um pináculo na discografia do Standards Trio de Jarrett. E, simplesmente, pelo fato de que vai se tornar tão inesquecível como os memoráveis Standards Vol.1 (1983), The Cure/Live at Town Hall New York (1990), Bye Bye Blackbird (1991) e Up for It/ Live in Juan-les-Pins (2002).

Keith Jarrett não é apenas um magistral improvisador que desenvolve com muita inspiração possibilidades melódico-harmônicas de um determinado standard, acolitado pela admirável “seção rítmica” formada por Jack DeJohnette e Gary Peacock. Ele é um improvisador que compõe (ou um compositor que improvisa), ainda que se aproprie de temática do Great American Songbook, como demonstra, mais uma vez, neste álbum de Lucerna. Sobretudo no tratamento das duas peças de West Side Story, de Leonard Bersntein: Somewhere, que o pianista torna uma “composição” de 19m30, com a hipnótica coda que ele chamou de Everywhere; e Tonight (6m45), recriada em tempo bem rápido, com swing intenso.
O mesmo se pode dizer da segunda faixa mais longa do recém-lançado CD, à qual o pianista-compositor deu o título de Deep Space/Solar (15m). O “espaço profundo” inicial comporta uns três minutos de divagações, até que vai surgindo o corpo e a “alma” de Solar, o precioso tema que Miles Davis tornou um jazz standard no LP Walkin' (Prestige, 1954).

“A gente acha que já tem tudo que precisa deste trio. Então, você ouve como Jarrett toca uma melodia com acentuadas hesitações que tornam Stars Fell on Alabama (7m25) algo único em sua pungência, e a gente sabe então que precisa de mais”, sentenciou Thomas Conrad na resenha de Somewhere, publicada na corrente edição (junho) da revista Jazz Times.