O QUE ROLOU NO RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES 2013

04 junho, 2013
O Festival de Rio das Ostras mais uma vez mostrou a grandeza do seu evento, este que, para a cidade, já é mais importante que o carnaval quando comparado pelo aspecto econômico e evento turístico.
Em sua décima primeira edição, as novidades na infraestrutura do palco principal foram extremamente positivas, principalmente com a colocação do piso que permitiu melhor acessibilidade ao público e evitou o problema da chuva e lama que ocorreu na edição passada. E este ano a chuva passou distante, apesar dela aparecer na manhã e tarde de sexta-feira, mas não permaneceu de tanta que era a vibração do público de cerca de 30 mil pessoas circulando pela cidade e distribuída nos quatro palcos do evento.
Outra grande novidade foi a Rio das Ostras Web TV, que transmitiu ao vivo para o mundo as apresentações do palco principal de Costazul e com indicadores muito positivos - cerca de 25 mil acessos e 32 paises acessando o site para assistir em tempo real o maior festival da América Latina.

Posso parecer repetitivo, mas a cada edição o festival surpreende e, sem dúvida, esta foi a edição mais contagiante que eu presenciei em todos estes anos que frequento o evento.

Rio das Ostras Jazz e Blues 2013

Noite de quarta-feira, a tradicional abertura com a Orquestra Kuarup, formada por alunos do Centro de Formação Artística da cidade, e um repertório de clássicos da Música Popular Brasileira.
Seguida pela Big Band 190, os 18 músicos e oficiais da corporação mostraram que a polícia militar do Rio de Janeiro também tem swing circulando nas veias. No idioma de uma big band, destaque para os temas Retalhos do Maestro Cipó; a contagiante Melancia (Rique Pantoja), gravada pelo grupo Cama de Gato; e entre os standards, a clássica Take Five do quarteto de Dave Brubeck.
E o blues chegou pelas mãos do guitarrista Lancaster que, abraçado a uma bela Les Paul com uma sonoridade bem calorosa, apresentou clássicos do estilo acompanhado pelo guitarrista e gaitista Thiago Cerveira, o Hammond de Flavio Naves, o baixo de Izal Oliveira e a bateria de Andre Machado.
E a primeira noite encerrou com o melhor do Chicago Blues e no palco John Primer, acompanhado pela Real Deal Blues Band formada por Russ Green gaita, Melvin Smith baixo e Jason Ferguson bateria.
Desfilou um repertório do estilo da melhor qualidade, abraçado com sua bela Epiphone modelo Sheraton 335.
Homenageou Magic Slim, atacou de Mustang Sally (Wilson Picket), Let the Good Time Roll (BB King), Sunnyland Train (Elmore James), seu clássico Call me John Primer (Prime) e ao final trocou para uma Telecaster e trouxe o slide como protagonista mandando I Called my Baby on the Telephone (Prime) e Sweet Home Chicago (Robert Johnson). Uma primeira noite fervorosa no festival.

Quinta-feira, Lagoa de Iriry, o palco mais incendiado do evento, e novamente John Primer com a mesma energia, aqui amplificada pelo entusiasmo da platéia mais compacta e amontoada na arena local. Além do repertório da noite anterior, uma homenagem ao mestre Muddy Waters em Hoochie Coochie Man (Dixon) e I´m a man (Bo Didley). Dali parti para um palco da Tartaruga completamente lotado para o show de Stanley Clarke, mas fiquei saboreando a bela vista local e assisti o show pelo telão, restando-me esperar pela apresentação na noite seguinte no palco principal.

Rio das Ostras Jazz e Blues 2013

Não cheguei em tempo de assistir a abertura da noite com a big band BYU Sintesis.
E minha noite iniciou com o violonista Diego Figueiredo, acompanhado por Gabriel Grossi gaita, Eduardo Machado baixo, Alexandre Piu piano e Robertinho Silva bateria, este a dois dias de completar 72 anos de vida e de grandiosa contribuição para a nossa música.
Diego abriu a apresentação em violão solo e o grupo foi chegando aos poucos, primeiramente Gabriel Grossi, nossa grande revelação da harmônica, e o duo faz uma bela interpretação de Amor em Paz (Jobim) e Canto de Ossanha (Baden) para uma atenta e extasiada audiência. Com boa presença de palco e técnica impecável abraçado a um violão Ovation, Diego mostrou destreza no tema flamenco Malaguena emendando com o tango La Cumparsita, em diálogo com o piano de Alexandre Piu. Muito espaço para os músicos e uma bela citação de Trenzinho Caipira (Villa Lobos) no solo do Eduardo Machado. Colocou o público para cantar Carinhoso (Pixinguinha) e na volta do bis o dividiu para fazer o ritmo no baião com direito a citações de Asa Branca (Gonzaga) e Stone Flower (Jobim). Diego é um músico que decide o repertório no momento do show, pelo calor do público e pela interação que tem com ele. E se fosse para conjugar essa apresentação - eu agradeço, tu agradeces, ele agradece e nós agradecemos Diego por este show espetacular.
A noite seguiu com Charlie Hunter e Leo Gandelman em uma apresentação recheada com muito groove, marcado pelas linhas de baixo do instrumento de Hunter. No palco, Serginho Trombone, a percussão de Frank Colon e a bateria de Renato Massa.
Hunter colocou-se em alguns momentos solo, como na bluesy Sittin' on the Dock of the Bay (Otis Redding), e sua técnica é realmente muito original nessa condução simultânea das linhas de baixo, acordes e improvisos.
No repertório, destaques para Vip Vop, tema título do último album de Gandelman; uma quase psicodélica Hard Head (Hunter); revisitaram Carlos Lyra em Quem Quiser Encontrar o Amor; e ao final colocaram groove na Reza (Edu Lobo), fazendo de "laia ladaia sabatana ave maria" quase um mantra e base para os longos improvisos de Serginho e Gandelman, que resolveu circular pela plateia e encerrar com o coro de A Love Supreme (Coltrane). 
É isso aí, Gandelman. Valeu eu eu eu eu !
A noite fechou com o tributo ao guitarrista Celso Blues Boy, que faleceu no ano passado, com um grupo formado pelos guitarras de Joe Manfra e Marcos Amorim Bart, o baixo de Roberto Lee, a bateria de Marcio Saraiva, a gaita de Jefferson Gonçalves e a voz de Ivo Pessoa. Clássicos do nosso mago da Fender incendiaram o final da noite.

Rio das Ostras Jazz e Blues 2013

Sexta-feira, tentei assistir ao show do guitarrista Mauro Hector, mas a chuva pela manhã não aliviou apesar de não ter sido problema para o público que lotou a arena da Praça São Pedro. Eu, sem capa e debaixo de muita chuva, não fiquei para assistir tudo mas gostei muito do pouquinho que vi e ouvi. Uma pena pois a guitarra de Hector estava falando em alto e bom som.
E a noite foi de contrastes. Na abertura, Artur Maia e uma super banda com um repertório de Música Instrumental Brasileira cheia de balanço, destacando-se os temas MacabuAlivio (Djavan), em que Arthur soltou a voz; e Brejeiro (Ernesto Nazareth). Apresentou outra promessa no instrumento - Michael Pipoquinha, aos 17 anos mostrando competência e que ja é uma das grandes promessas do nosso instrumental. Fechou a apresentação com a salsa Muchacha com o público marcando o ritmo com as palmas e deixou sua mensagem - "quem corre não atrasa, quem atrasa não adianta".
A noite seguiu com jazz de primeira linha com o grupo do trompetista Christian Scott, acompanhado por Lawrence Fields piano, Luques Curtis contrabaixo, Braxton Cook sax e Corey Fonville bateria. O grupo abriu implacável com o tema Jihad Joe, do album Christian aTunde Adjuah. O pianista Lawrence Fields já esteve presente no festival acompanhando o trompetista Nicolas Payton e desta vez sobrou muito mais espaço, principalmente quando o grupo detonou a clássica e empolgante Eye of the Hurricane (Hancock), no melhor estlo straight ahead. Destaque também para o sax alto reto de Braxton Cook, pouco comum. Scott apresentou-se com um trompete de angulação a la Gillespie, híbrido, nem tradicional nem flugel, que ele mesmo desenhou, cheio de adornos, e que deu o nome de "Katrina". Com uma bela sonoridade, mostrou que tem forte influência de Miles. No repertório, ainda atacou de K.K.P.D. e voltou para o bis com No Church in the Wild.
Uma apresentação espetacular!
Sobe ao palco o guitarrista Vernon Reid, introduzindo o show com uma textura um tanto blue, mas não demorou para abrir o som da guitarra, com muita distorção e muita técnica em um desfile de escalas. Não à toa, foi declarado como um dos 100 maiores guitarristas pela revista Rolling Stone. Teve sua primeira corda arrebentada no início do show e fez um som bem pesado, fora do convencional. O tecladista Leon Gruenbaum usou em alguns momentos um instrumento muito exótico, um teclado MIDI inventado por ele com uma sonoridade muito particular. Em um momento do show, Vernou detonou a base de Sidewinder (Lee Morgan) com um forte groove e o publico gostou.
A cantora Maya Azucena chegou ao palco e deu um pouco mais de sobriedade na apresentação, entrou com um belo vocalize e mandou Walking on the Moon, clássico tema do The Police, e The Scientist, do Coldplay.


Encerrando a noite, a esperada apresentação de Stanley Clarke. Realmente um gigante, acompanhado por
Mahesh Balasooriya teclados, Kamasi Washington sax e Michael Mitchell bateria.
Abriu com Journey to Love e emendou com Goddbye Pork Pie Hat em eletrizantes trinta minutos. Muito empolgado com o público, falou sobre a riqueza da música brasileira e citou Tom Jobim, para delírio geral. Abraçou o contrabaixo acústico e atacou de No Mistery, clássico do Return to Forever, em mais trinta minutos de absoluta viagem com espaço para uma performance solo em que mostrou sua impecável técnica fazendo pontuações percussivas no corpo do instrumento e em alguns momentos uma pegada de mão direita lembrando a técnica flamenca de toque nas cordas, sempre com muita intensidade.
De volta ao baixo elétrico, a clássica School Days para um final apoteótico com uma citação de Stratus (Billy Cobham) e um verdadeiro diálogo entre ele e o excelente baterista Michael Mitchell, de apenas 17 anos.

A noite de sábado prometia e não foi por menos. A abertura com o grupo do baterista Will Cahoun, acompanhado por Donald Harrison sax, Marc Cary piano e Charnet Moffett contrabaixo.
Afro Blue (Coltrane) iniciou a apresentação que se manteve em intensidade durante todo o tempo. Cahoun contou sobre sua recente viagem a Recife onde encantou-se com o Maracatu e os ritmos regionais e sentou no case a frente do palco para uma pequena performance solo com um instrumento de percussão nativo.
Utilizou-se de outros instrumentos percussivos, inclusive eletrônicos com uso de loop, e flauta.
O grupo revezou a formação em trio e quarteto e foi nos momentos em trio que destacou-se o pianista Marc Cary, que largou a mão e mostrou porquê é um dos mais criativos do jazz contemporâneo. Moffett sempre presente, instigou o público em vários momentos e fez muito uso do arco e de efeitos no contrabaixo, promovendo uma verdadeira viagem sonora, quase lisérgica. Em um momento, na intensidade do grupo marcado pela bateria de Cahoun, seu solo me lembrou a ousadia do tema Egocentric Molecules do Jean-Luc Ponty. E Donald Harrisson também não ficou atrás, tanto nos momentos cerebrais que o tema impôs, inclusive até colocou o óculos, quanto nos espaços dado pelo trio, realizou solos contagiantes.
Um grande show e junto com o de Christian Scott representou o lado mais jazz do festival.

Rio das Ostras Jazz e Blues 2013

E foi a vez de Scott Henderson subir ao palco, acompanhado por Travis Carlton baixo e Alan Hertz na bateria. Com uma guitarra modelo Strato levemente cor-de-rosa, abriu o show com All Blues (Miles) e até pensei que seria uma apresentação com enfoque no estilo mas tornou-se uma apresentação bem fusion, muito técnica, de guitarrista para guitarrista, mas não menos contagiante.
Henderson mostrou pleno domínio da guitarra, fez uso da microfonia, deu um ar "Jeff Beck" em alguns momentos da apresentação e uma única balada para conforto do público.
E uma grande expectativa para o show de Victor Wooten. O que que é esse baixista ?!
Uma super banda de apoio com Derico Washington na bateria e simplesmente mais 3 baixistas de seis cordas que também suportavam a música com outros instrumentos - Dave Welsch, baixo e trompete; Anthony Wellington, baixo e teclados; e Steve Bailey, baixo e trombone. Wooten, com seu 4 cordas, abriu o show solo, como se estivesse filmando a plateia. A formação com o grupo completo no palco promoveu a "baixaria" total - muito groove, muito slap, muito tapping e muito walking. Wooten estava incansável, cantou e mostrou um domínio absurdo do instrumento com direito a acrobacias girando o baixo pelas costas levando o público ao verdadeiro delírio. A cantora Crystal Peterson deu o ar Soul que a apresentação pedia.

Rio das Ostras Jazz e Blues 2013

Uma usina de contrabaixos e todos desfilaram performances extasiantes, mas tem que destacar a performance solo de Wooten na citação do hino gospel Amazing Grace fazendo uso dos harmônicos e uma passagem intensa com Dave Welsch ao trompete em uma verdadeira onda Miles elétrico.
Doses cavalares de baixo elétrico que só suavizaram para formar a base para a bela Crystal, que mostrou boa extensão de voz e cantou clássicos como a pop Let´s Hear it for the Boys (Deniece Willians) e Overjoyed (Stevie Wonder) em uma versão que Wooten afirmou "como voces nunca ouviram antes".
Ao final, o Bass Tribute de Wooten e um bis bem ao estilo Motown, transformando a apresentação em um verdadeiro espetáculo, muito divertido e contagiante.
Fim de noite como uma verdadeira sessão de descarrego com o grupo de Lucky Peterson.
Ainda sem o lider no palco, o grupo abriu com muita pressão e em destaque o excelente e endiabrado guitarrista Shawn Kellerman, que deu um show à parte com seu ar um tanto "punk" e uma pegada escandalosa.
E Lucky chegou colocando mais fogo com seu jeitão extrovertido e olhos esbugalhados, atacou forte tanto no Hammond quanto na guitarra, que abraçou e mostrou muita competência e forte pegada blues.
Resolveu passear pela platéia e, vendo de perto a multidão contagiada, voltou e desfilou ao longo do corredor ao lado do público, sentou em cima da divisória por toda sua extensão e mandou clássicos como Voodoo Chile (Hendrix) e Johnny B Good (Berry) para vibração geral. A cantora Tamara Peterson chegou depois e não deixou por menos, incendiando de vez a apresentação no encerramento do palco principal de Costazul.

Rio das Ostras Jazz e Blues 2013

Uma edição para ficar na história deste festival, já consagrado mundialmente. E tudo indica que teremos mais novidades para a próxima edição, que já estamos aguardando desde agora.
Parabéns a toda a produção !

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