PAT METHENY PARA LAVAR A ALMA

11 junho, 2013

Eu não economizo palavras para falar de Pat Metheny.
Torna-se praticamente impossível descrever o que é assistir ao vivo sua apresentação, de tanta energia e empolgação que sua música transmite. É uma oportunidade impar, como um cometa que cruza o céu e deixa seu rastro de luz. E na última noite da edição carioca do BMW Jazz Festival esta luz reverteu-se em pura emoção, euforia, nostalgia e simplesmente lavou a alma de um público que lotou o teatro do Vivo Rio.

Metheny acompanhado pelo sopro de Chris Potter, pelo contrabaixo de Ben Willians e pela bateria de Antonio Sanchez, um super grupo, um super trio que suporta a música desse gênio, um compositor de mão cheia, um maestro da música contemporânea e um dos mais brilhantes guitarristas do planeta.
Sim, eu sou um "methenymaníaco" !
A guitarra de Pat Metheny tem assinatura própria, sua digitação e seus riffs são facilmente reconhecidos e é uma escola de guitarra que influenciou uma infinidade de outros amantes do instrumento.

Na abertura do show, sentou-se para uma interpretação solo com seu exótico instrumento Pikasso, de 42 cordas, uma espécie de harp guitar, único, e foi minha primeira oportunidade ver este instrumento ao vivo, com uma sonoridade impressionante. O tema serviu para acomodar o ouvido da atenta platéia e trazer a Unity Band ao palco para o tema Come and See, do último album. Chris Potter ao clarone e Metheny revezou entre o violão acústico, a guitarra archtop e a sintetizada. A marca da música de Metheny já estava imposta e mais um tema da Unity Band, New Year, introduzido pelo violão acústico e um belo solo de Potter que, alias, tocou uma barbaridade, não à toa é reverenciado pelo lider como um dos mais extraordinários músicos da atualidade.
E a primeira surpresa da noite com o tema Police Police do album Song X que Metheny realizou com Ornette Coleman em sua mais próxima relação com o free jazz; e Potter não deixou barato, um extraordinário solo e ainda com espaço para a improvisação de Antonio Sanchez.
Em sua primeira interação com o público, Metheny falou da alegria de estar novamente tocando no Brasil e agradeceu o convite e a oportunidade. Lembrou Joshua Redman, que também participou do festival e é seu grande amigo e de todos no grupo, e seguiu com dois saudosos temas - a balada The Bat e James, ambas do album Offramp. Mesmo nas baladas Metheny é incansável, tão melódico quanto intenso, e novamente um belo solo de Potter. A versão de James foi um tanto excêntrica, após a melodia da introdução seguiu improvisada acompanhada somente por Sanchez para depois acomodar  o improviso no contrabaixo de Ben Willians, em diálogo com o baterista. Os saudosos "methenymaníacos" aplaudiram efusivamente.

E o show tomou um rumo bastante experimental com a apresentação de parte da parafernália eletro acústica Orchestronic (veja aqui), controlada mecanicamente usando solenóides e pneumáticos e acionada por pedais em sincronismo com sua guitarra modelo PM-120. Um visual impressionante e Metheny iniciou a performance solo fazendo uso de efeitos e loops e improvisou ao longo do tema. O grupo interveio ao final e Metheny novamente fez uso da guitarra sintetizada promovendo uma verdadeira viagem sonora.
Seguiu o show em formato de duos, primeiramente Chris Potter em um standard com All the Things You Are em uma versão improvisada livremente por ambos; depois foi a vez com Ben Willians e chamou a Insensatez de Jobim que, nos primeiros acordes, levantou aplausos calorosos do público e deu espaço para o longo improviso de contrabaixo. Ainda neste formato, a vez de Antonio Sanchez e a interpretação de Go Get It do album Trio 99-00 e cujo tema deu a Metheny o Grammy de melhor solo em 2000. Intenso !
Com o grupo todo em cena novamente, mais dois temas da Unity Band, Interval Waltz e Breakdealer, que, teoricamente, fechariam o show, mas Metheny queria mais, e o público tambem, e voltou 3 vezes para o bis. Primeiro com um medley acústico interpretando Minuano, September Fifteen, In her Family, Last Train Home e This is not America; na segunda volta, o clássico Are you Going with Me? do album Offramp com sua marcante batida e Potter realizando a melodia na flauta transversa e claro, o estonteante solo da guitarra sintetizada de Metheny; e para encerrar a apresentação a roupagem latina de The Good Life.
Um show memorável !


Na segunda noite do festival tivemos também as excelentes apresentações do trio do pianista Brad Mehlday e o grupo Sound Prints liderado por Joe Lovano e Dave Douglas. Como afirmou Luiz Orlando Carneiro em sua coluna semanal no JB, Douglas e Mehldau representam, como poucos, o constante renascer do jazz, no mais alto nível de técnica e criatividade; e Joe Lovano a quem afirma possuir raízes nas alquimias sônico-harmônicas de Coltrane, Shorter e Joe Henderson. Palavras de quem realmente entende do assunto.

Mehldau veio acompanhado do seu habitual trio formado pelo contrabaixo de Larry Grenadier e a bateria de Jeff Ballard, todos que já formaram juntos com Pat Metheny. Mehldau, inclusive, gravou dois albuns intitulados Metheny-Mehldau com esta formação.
E o pianista comprovou que é um dos poucos que conseguem desconstruir brilhantemente temas enraizados no Rock e trazê-los para o universo do Jazz. A apresentação abriu com Hendrix, Hey Joe, e fechou com Allman Brothers, Midnight Rider. Isso foi bom demais.
E Mehldau, aos 42 anos, cada vez mais se apresenta como um verdadeiro herdeiro do piano de Keith Jarrett. Mostrou-se introspectivo nos espaços para as colocações solo, colocou swing quando evocado o Blues e deu destaque à música brasileira, que ele afirma ser um admirador, na citação de Trocando em Miudos de Chico Buarque. Grenadier largou a mão e Ballard com suas pontuações rítmicas intensas deram o colorido essencial para o show.
A noite fechou com o quinteto formado pelo sax de Joe Lovano, o trompete de Dave Douglas, o piano de Lawrence Fields, o contrabaixo de Linda Oh e a bateria de Matt Wilson. Que grupo espetacular !
A proposta do Sound Prints é inspirada na música de Wayne Shorter e a apresentação colocou em foco o verdadeiro Jazz na sua essência, sobrando virtuosismo em todos os músicos. A abertura foi implacável com o tema título do grupo, Sound Prints, ainda destacando-se os temas Dream State e Weatherman.
E tem que ressaltar a performance da pequena contrabaixista malasiana Linda Oh, que se agiganta no palco. Essa moça é um absurdo, uma pegada impressionante, improvisos sólidos e uma base impressionante que roubou o show com sua presença de palco, aplaudida com muito entusiasmo.

É isso. Eu ainda estou com a apresentação do Pat Metheny iluminando minha mente.
Esperamos que o BMW Jazz Festival se mantenha firme para a próxima edição pois há rumores de que está tenha sido a última. Este festival já se comprovou como nosso grande festival de Jazz, uma herança dos saudosos Free Jazz e Tim Festival.

E voce, are you going with me ?