BIG JOE TURNER ENCONTRA JIMMY WITHERSPOON

07 maio, 2013
Big Joe Turner, Jimmy Witherspoon
No ultimo ano da sua vida, Big Joe Turner juntou-se com Jimmy Witherspoon, este que também gritou o blues e gravou tanto quanto Joe Turner em mais de meio século de música.

Em Patcha, Patcha, All Night Long, Turner e Witherspoon documentaram sobre a arte de cantar o blues, as alegrias da vida, as frustrações e o quão complexo isso representa, assim como o lado bom e o lado mau do amor. Foram mais fundo do que as histórias pareciam ser, para contar porquê o blues toca o centro de todo ser humano.
Aqui, Big Joe e Witherspoon aqui dão claras evidências desta verdade.

O album foi produzido por Norman Granz e gravado no Group IV Recording Studios, California, em 1985, e participam além de Joe Turner e Witherspoon nas vozes, Ike Willians trompete, Red Holloway, Lee Allen e Jerry Jummonville nos sax alto, tenor e barítono respectivamente, Bobby Blevin teclados, Gary Bell guitarra, Rudy Brown baixo e Al Duncan bateria.




por Nat Hentoff
liner notes do album original
( tradução livre )

Mingus queria ouvir música, mas tinha que ser uma música que ele pudesse gritar e sentir. Então foi para um lugar no Greenwich Village chamado Cookery para ouvir Joe Turner. Ele cantou sentado em uma cadeira, mas tinha mais presença do que se estivesse em pé e pulando entre as mesas, porque sua voz preenchia todo o lugar. Sobre cantar blues, Joe Turner me faz lembrar como Billie Holliday, que conhecia o blues mas raramente tenha cantado de forma tão formal, descrevia profundamente essa clássica música americana - "O blues para mim é como estar muito triste, muito mal, é ir a uma igreja, é estar muito feliz. O Blues é um conjunto disso tudo junto, contanto que voce o sinta."
Jimmy Witherspoon também faz isso do mesmo jeito. Eu costumava ouví-lo com Ben Webster e o envolvimento que eles proporcionavam sobre as baladas, assim como nos blues, claramente transborda uma experiência real de vida fazendo com que a música mecanica que tocava no rádio parecesse tão vazia.
Ouvir Joe Turner e Jimmi Witherspoon juntos me faz lembrar como alguns gigantes se envolvem no blues assim como no Jazz instrumental. Quantos cantores teriam condições fazer isso? Quantos chegaram, mesmo conhecendo o caminho? Quantos conhecem as histórias desses dois brilhantes sobreviventes?

Joe Turner trabalhava e cantava blues no The Sunset, em Kansas City, no início dos anos 30. Havia um outro clube do outro lado da rua, o Lone Star, e Jo Jones recorda - "Joe Turner comecava a cantar o Blues no Sunset e atravessava a rua para cantar no Lone Star ... e não era comum apresentações de 1 hora, 1 hora e meia. Ninguem se cansava."
Joe Turner foi para New York e tornou-se um verdadeiro contador de histórias, fez inúmeros hits de R&B, e em seus últimos anos incorporou clássicos do Blues em seu repertório. Ele canta com uma pegada que faz com ele possa swingar com qualquer grupo. E ele não tem que explicar nada porque os músicos conhecem a linguagem, sabem o tempo e o sentem do jeito que Joe faz.
Jimmy Witherspoon começou cantando em uma igreja batista em Arkansas quando tinha 5 anos. Aos 16 largou a escola e partiu para a California onde tornou-se pupilo de T-Bone Walker. Enquanto estava na Marinha Mercante, cantava com o grupo de Jazz do pianista Teddy Weatherford em Calcutá, e foi a primeira vez que ele cantou o blues. Isso veio naturalmente a ele e quando retornou para os EUA trabalhou com o grupo de Jay McShann, que gostava do seu jeito de cantar Wee Baby Blues de Joe Turner.
Witherspoon também é reconhecido na Europa e Japão, onde aparece muito mais na TV do que na America. Joe e Witherspoon certamente podiam ser vistos e ouvidos nas escolas americanas, em gravações e videos, como representantes da essência tradição musical americana.

Nesta gravação, Witherspoon, dirigido por um pulsante grupo, abre o disco no tema Patcha, Patcha.
Blues Lament é como uma antologia do vintage Blues. Em 1940, em certos clubes de Jazz, eu ouvia esse tipo de Blues por uma noite inteira e uma das mais brilhantes noites foi quando Oran "Hot Lips" Page manteve o swing por 1 hora meia sem repetir uma única palavra. Embora muitas das imagens em Blues Lament sejam familiares, Witherspoon aparece como nunca havia feito.
You Got me Running traz Witherspoon novamente com o grupo colocando um suave groove.
Joe Turner volta a Kansas City, mas não como um triunfo, Kansas City on my Mind é retrato de uma paixão adolescente, talvez pela garota de Wee Baby Blues que casou-se com outro e construiu uma família. Também como um contador de histórias aparece o guitarrista Gary Bell, um cara muito figura; e o tenor Lee Allen, que acompanhava o pianista Bobby Blevins.
J.T.´s Blues traz novamente Joe Turner e destacam-se Jerry Jummonville no barítono, Gary Bell na guitarra e o sax alto de Red Holloway.
I Want that Girl, com letra de Holloway, ilumina o romantismo de Witherspoon, melhorado atraves dos anos pelas lições de Blues.
Sobre Any Time, Jimmy Rushing uma vez disse - "Uma pessoa pode tocar e cantar o blues e ele tem a alma que o dá condições de  fazer qualquer coisa que queira. Os blues são como um conjunto de bases, como uma fundação de uma construção."

Ouvindo este álbum inúmeras vezes, penso em um comentário de Art Blakey - "O blues é o início do Jazz, é de onde veio. A última coisa que Charlie Parker me disse foi ele imaginando quando os jovens voltariam a tocar blues. Eu disse a ele que se você aprende a tocar blues, você pode tocar qualquer coisa."
E se você pode cantar o Blues com o sentimento e autoridade de Joe Turner e Jimmy Witherspoon, você pode ganhar a atenção de qualquer pessoa no mundo para suas histórias.