O QUE ROLOU NO BOURBON PARATY FESTIVAL 2013

29 maio, 2013
Bourbon Paraty Festival


Uma colaboração do nosso amigo e amante incondicional da música Paulo Cesar Nunes, nosso conhecido PC, que pegou a estrada e desembarcou no Bourbon Paraty Festival para três dias de muita música.
E ele nos conta o que aconteceu por lá.

por Paulo Cesar Nunes

No final de semana de 24 a 26 de maio se realizou na cidade histórica de Paraty a quinta edição do Bourbon Paraty Festival, evento que já tem enorme importância no calendário cultural do país.
A programação musical se dividiu entre dois palcos - o principal, ao lado da Igreja da Matriz e usado para os shows maiores à noite; e o palco menor, no descampado em frente a Igreja de Santa Rita, com shows à tarde. Este ano tivemos chuva nas noites de sexta e sábado, o que atrapalhou um pouco devido a grande quantidade de guarda-chuvas, e também alguns atrasos no início dos shows, mas nada disso diminuiu o nível das apresentações.
Na noite de sexta-feira o lendário músico Raul de Souza e seu quinteto abriram o festival com mais uma memorável apresentação. O mestre brasileiro do trombone, muito conhecido no exterior por seu inigualável domínio de linhas distintas em seu instrumento como jazz, soul e gafieira, desfilou seu ótimo repertorio nessa mistura que o torna referencia para os trombonistas do mundo inteiro, e apresentou seu  souzabone, um trombone elétrico criado por ele. Em destaque, o empolgadíssimo baixista Glauco Solter, que animou o público com sua estupenda técnica.
Depois vieram os ingleses do Incognito, a primeira atração internacional. Uma das mais empolgantes formações de acid jazz-soul music e com muitos albuns lançados, os ingleses desceram a mão com grande atuação de seu maravilhoso naipe de metais e o destaque para as vozes de Vanessa Hayne, Tony Monrelle e Natalie Williamns, além do mestre de cerimonias, lider e guitarrista Jean Paul "Bluey". Mesmo com as mudanças no grupo ao longo de três décadas, seguem firmes com muita empolgação. Bluey chamou Ed Motta para subir ao palco e uma soul jam se armou com uma sintonia de arrepiar, e nós nem ligamos pra chuva. Um dos pontos altos do festival.
Encerrando a noite e com atraso de 1 hora, a Serial Funkers detonou sua mistura dançante já atacando de Let's Groove e outras do Earth, Wind and Fire, com o detalhe do falsete do vocalista Regis Paulino, tornando o calçamento pé de moleque da cidade em uma grande pista de dança. O convidado especial Ed Motta detonou seus hits e o show contou ainda com a participação do Bluey. Foi um bailão em Paraty.

No sábado a música reiniciou na bonita tarde ensolarada e a bela vista da baía de Paraty, local do palco Santa Rita. O violonista local John Wesley e o mestre Carlos Barbosa Lima dividiram o palco desfilando clássicos do instrumental brasileiro e chorinhos, como Odeon, Sons de Carrilhões, Trenzinho Caipira e outras pérolas de um rico repertório. Degustação de música de muita qualidade que a plateia acompanhou maravilhada. Depois subiu o veterano do Blues Paulo Meyer e os Thunderheads, que esquentaram a plateia com Blues dançantes e um repertório com Jonnny Cash, Credence e temas próprios. E uma surpresa espetacular - a cantora californiana Alissa Sanders, que participou cantando alguns temas. O ponto alto foi Simpathy for the Devil (Stones), numa levada meio country-rock, emoldurada pela gaita do Meyer e os backing vocals. À noite no palco principal a paulistana Céu apresentou seu novo album, Caravana Sereia Bloom, sequencia de seu trabalho que é uma mistura de ritmos e que ela gosta de separar da MPB, com tempero atrevido dos efeitos do DJ Março. Não faltaram seus sucessos de discos anteriores, como Lenda, Vagarosa e Malemolencia, cantados pela atenta platéia, apesar da chuva.
E a noite seguiu com o nome mais forte desta edição, Stanley Clarke, que fez um espetacular set acompanhado por seu quarteto formado pelo californiano Kamasi Washington sax, o genial pianista Mahesh Baasooriya e um inquieto baterista Mike Mitchell, com quem Clarke dialoga constantemente. Clarke apresentou sua técnica soberba tanto no baixo elétrico quanto no acústico e é muito difícil escolher um ponto alto aqui, mas me permito o atrevimento de mencionar a surpreendente introdução de Goodbye Pork Pie Hat, clássico de Mingus, no arranjo feito por Jeff Beck, uma insinuante sensação triste e bela ao mesmo tempo, em que Clarke traduziu à perfeição para o seu instrumento. Apresentação espetacular deste ícone da música e um dos pilares do fusion.
E para quem pensou que a noite tinha terminado subiu ao palco o endiabrado trombonista Sammie Williams à frente do quinteto de New Orleans Big Sam's Funky Nation. Doses cavalares de soul-funk marcados pelo incessante ritmo dos integrantes, praticamente encadeando um tema no outro, numa festa interminável de hip-hop, dance e soul . Todos tocaram muito e destaque para a guitarra ora pesada, ora ritmada, do guitarrista Joshua Connely, e a cozinha do baterista Desmond "Chocolate Milk" Williams e do baixista Jerry Henderson. Big Sam e o trompetista Andrew Baham fizeram os vocais e os passinhos de dança engraçados, e também tocaram muito. Pancadaria de grosso calibre, o grupo representou com maestria o lado mais soul que prevaleceu neste festival.

Domingo, último dia, o belo palco de Santa Rita abriu os trabalhos com mais um representante da linha jazz-samba-funk, o ótimo quinteto  paulistano Tuto Ferraz Funky Jazz Machine, liderado pelo baterista Tuto Ferraz, que apresentou repertorio do disco novo À Deriva . Destaque para nos solos do guitarrista Angenor de Lorenzi, do tecladista Pepe Cisneros e do sax de Clayton Souza e a elegante condução de Sidiel Vieira no contrabaixo. Depois Jefferson Gonçalves e sua bem sucedida mistura de Blues com ritmos nordestinos acompanhado por Kleber Dias, Fabio Mesquita, Marco BZ, Marco Arruda e o convidado especial Big Joe Manfra em uma apresentação vibrante e plateia em delirio. O show teve ainda a participação de Vasco Faé, o one man band, que era visto nas ruas de Paraty no segmento Buskers do festival.
De noite, a atração mais Jazz do festival, a tradicional Players New Orleans Jazz Band, com a cantora Germaine Bazzle, uma senhora que representa com maestria a escola mais antiga do cancioneiro americano. Esbanjando swing do alto dos seus 81 anos, a diva abusou dos scats. Infelizmente o saxofonista Alonzo Bowens não veio, mas ela foi muito bem acompanhada pelo trio formado pelo baterista Ocie Davis, o contrabaixista Mitchel Player e o maravilhoso pianista Leslie Martin, que desfilou stride e twist boogie e encantou a platéia. Brilho intenso de todos no standard Bye Bye Blackbird em que a senhora Bazzle apresentou os músicos de forma inusitada, usando scats. Uma verdadeira aula de jazz em Paraty.
Depois o virtuoso do bandolim Hamilton de Holanda acompanhado de André Vasconcelos no contrabaixo e Thiago da Serrinha na percussão. No repertorio, seu novo album Trio e temas como Roda Viva (Chico Buarque) e Canto de Ossanha (Baden). Essa formação e repertório diferente do quinteto anterior dá uma guinada mais intimista e sóbria ao trabalho de Hamilton que, mantendo a execução sempre virtuosa e inspirada, teve que fazer dois bis a pedido do público.
Palco e público em temperatura mais alta, por volta de 1h de segunda feira o encerramento ficou a cargo da cantora Mart'nalia.

Mais uma edição com muita música de qualidade. Parabenizamos a produção e esperamos a edição de 2014. Hasta la vista!