QUARTETO À DERIVA APRESENTA MÓBILE

16 maio, 2013

às vezes ouço passar o vento, e só de ouvir o vento passar vale a pena ter nascido
Fernando Pessoa

A citação do poema de Fernando Pessoa pode ilustrar um tanto do que é estar à deriva, ao som do vento, não necessariamente estar sob o silêncio, mas se situar em um momento de reflexão que dá o início de uma grande jornada. Melhor quando esses caminhos se constroem em forma de música, moldados por melodias, ritmos e improvisos livres, guiados por emoções e sentimentos que acontecem no momento da interpretação.

O Quarteto À Deriva mostra no disco Móbile, o quarto da sua discografia, que não existem fronteiras quanto o assunto é Música, basta simplesmente deixar fluir a expressão mais bela que há dentro de nós e criar esse movimento de ondas sonoras.
O grupo é formado por Beto Sporleder no sax e flauta, Daniel Muller no piano e acordeon, Rui Barossi contrabaixo e Guilherme Marques na bateria, extraordinários músicos que estão juntos há 9 anos mostrando o quanto está viva, e criativa, a nossa música instrumental.

Móbile é um trabalho autoral e reflete a busca por novos caminhos com ênfase na improvisação e interação livre entre os músicos. Assim o grupo define sua música no belo encarte que resume o CD, ilustrado pelo ensaio fotográfico da artista Mariana Chama.
O disco foi gravado ao vivo no estúdio Comep, São Paulo, em fita analógica, ganhando, assim, uma sonoridade mais calorosa.
Abre com o tema Carvoeiro, como um fractal guiado pelo soprano de Sporleder que repousa no piano de Daniel em Reminiscências, uma bela balada que abriu espaço para o improviso melódico do contrabaixo de Barossi. Segue crescente, com uso de instrumentos percussivos e flautas, e apresenta a veia contemporânea em Il Cane Vuk, dando um ar europeu conduzido pelo contrabaixo e sax desenvolvendo a melodia.
5 Haicais se reveste de tango, com a característica atmosfera sombria proporcionada pelo acordeon de Daniel. E mais um belíssima balada, Bom Retiro, uma verdadeira viagem sonora destacando as pontuações da bateria de Guilherme e o belo solo de piano de Daniel. Aqui, se reforça a textura do sopro de Sporleder, em que percebe-se o traço de um primitivo Wayne Shorter, e é um dos pontos altos do disco. De Areia é quase um poema citado pela introdução em piano solo de Daniel. Alguma coisa blue surge em Atras da Corda vem o Boi, espontâneo, sem formas, sem rótulos; e um epílogo com o soar dos gongos em Onde o Silêncio faz Eco, para reverberar no infinito. 

Por definição, Móbile é uma escultura móvel formada por elementos suspensos, perfeitamente equilibrados, que se movimentam com a passagem do ar ou ação motora criando uma experiência visual de dimensões e formas. E assim podemos definir sobre este excelente disco, uma verdadeira experiência sonora.

Com a palavra, o Quarteto À Deriva -

Como se formou o grupo ? 
Daniel : Um embrião do À Deriva existe desde o tempo em que eu, o Guilherme e o Rui estávamos na Unicamp cursando a graduação em música popular. Tocávamos juntos e compartilhávamos o gosto por grupos de jazz mais voltados para a improvisação coletiva ou em que os acompanhantes tinham liberdade para tocar de forma muito livre e improvisada, interferindo e contribuindo bastante na interpretação do solista.
Quando nos formamos, essa vontade de tocar música improvisada de uma forma mais solta se condensou em um trio, que, por volta de 2004, foi batizado de Trio À Deriva. Mais ou menos nessa época, encontramos, aqui em São Paulo, o Beto. Fizemos algumas apresentações do trio com participação dele e, como a afinidade se revelou de forma muito clara, nos tornamos um quarteto. Nesse tempo, tocamos muito na noite paulistana. Em geral, repertório de outros compositores, jazz e Música Brasileira.
Tínhamos uma espécie de ritual – a escolha do repertório ocorria ali na hora, na gig, e era rotativa, isto é, cada um escolhia um tema, os demais acatavam e tocavam. Os temas eram quase que um pretexto pra improvisação e procurávamos sempre inventar formas diferentes de interpretá-los.
Não demorou muito e decidimos gravar um CD. Levantamos o repertório entre as composições de todos e depois de poucos meses estávamos em estúdio.

Um quarteto muito inspirado e cuja música carrega uma textura bem contemporânea, alternando intensidade e introspecção. Que influências voces trazem na hora de compor ?
Beto: As influências são inúmeras e aparecem de formas diferentes, tanto na forma como cada um dos músicos toca quanto nas composições que cada um apresenta. Como nos arranjos, todos feitos coletivamente. Mas não é a toa que o nome de Wayne Shorter surgiu aqui, um músico e compositor que sempre se preocupou mais com o fazer musical do que seguir ou impor padrões estéticos ou estilos; sempre se preocupou com que sua música fosse universal e, como tal, servisse a todo tipo de fruição. Como compositor sempre optou pala liberdade de criação. Inclusive, o seu trabalho atual é praticamente todo voltado para a improvisação livre, com certeza é uma grande inspiração.

Voces utilizam instrumentos percussivos, flautas e acordeon em algumas composições e isso reflete uma aproximação com a nossa regionalidade. Há uma fronteira entre essa fusão de rítmos nativos com o improviso livre ?
Rui: Os instrumentos percussivos que utilizamos nesse disco são, na verdade, materiais retirados do lixo, cujas possibilidades sonoras nos interessavam. Eles não foram fabricados com o intuito de emularem o som de instrumentos tradicionais de percussão. O que nos interessou neles foi justamente a busca por incluir o que chamamos de "ruído" no nosso trabalho, de um jeito musical, orgânico.
Acho que a música regional brasileira está presente como sempre esteve na nossa música, ela faz parte intrínseca da nossa personalidade musical como criadores, como artistas. Mas o À Deriva nunca teve a preocupação específica de incluir a música regional brasileira como gênero no nosso trabalho. Ela está lá assim como muitas outras coisas que escutamos, que tocamos, que admiramos e que naturalmente fazem parte do nosso jeito de compor e de tocar. Mas a nossa busca sempre foi por tornar as fronteiras entre os gêneros cada vez mais difusas, indefinidas. Até por isso temos dificuldade em responder quando nos perguntam "que tipo de música vocês fazem?".
Nunca conseguimos encaixar o nosso trabalho em um gênero que o definisse, porque procuramos fazer música a despeito de quaisquer rotulações ou barreiras de gênero, então acho que sempre nos definimos da maneira mais ampla e aberta possível – fazemos música instrumental improvisada.
Tudo nos interessa como artistas e como músicos, até o ruído retirado do lixo, assim como diria Manoel de Barros, o poeta. Da mesma maneira, a flauta e a sanfona são elementos que fazem parte dessa busca por caminhos diferentes (a flauta já tinha sido usada nos nossos dois primeiros discos, a sanfona é a primeira vez), independente de qualquer barreira ou ditame estilístico. Simplesmente achamos que o timbre funcionava para aquela determinada música e pronto. Simples assim.


Daniel: Em outros trabalhos em que participamos individualmente, muitas vezes nos aproximamos mais diretamente dos gêneros brasileiros que no À Deriva. Cito meu caso como exemplo – toco no grupo Quatro a Zero, que mergulha no Choro em busca da matéria prima pras suas criações musicais; e também no grupo Conversa Ribeira, um trabalho de canção que se inspira na música caipira.
Acho que todos do À Deriva compartilham a admiração pela riqueza e diversidade dos gêneros musicais que existem no Brasil. Mas o mais importante, na estética que elaboramos coletivamente para o À Deriva, é a admiração que compartilhamos pelo ser humano de uma forma mais geral, em sua capacidade criativa, sem distinções.
Nos incomoda um pouco, inclusive, um conceito que circula há um bom tempo pelo nosso país e que define como legítima apenas a Música Instrumental, que se fundamenta nos gêneros brasileiros - samba, baião, maracatu, etc. Nosso caminho não é esse, mas também não é um caminho de negação da cultura do país em que vivemos.

A expressão "à deriva" traduz-se como "sem rumo certo"; ao mesmo tempo voces afirmam que é simplesmente "não estar". É esta é a ideia, estar sempre em movimento, explorando novas possibilidades deixando se levar pela emoção ?
Guilherme: Sem dúvida. Além de uma postura aberta às várias manifestações musicais, ou melhor, aos vários estilos – jazz, música brasileira, rock, improvisação livre, free jazz, música de concerto e etc – dado que já demostra uma preocupação nossa de não fechar e delimitar nossas fronteiras musicais. Posso dizer que nossa música é bastante permeável por outras formas de expressão artística – teatro, cinema, artes visuais, literatura, etc. Nunca tivemos preocupação em rotular e delimitar um gênero específico que traduzisse nosso som. Ele é aberto, está aberto ao novo, à mudança, aos desafios de tocar o que ainda não é ou o que pode ser. A vida é assim, dinâmica, muda a todo instante. De certa forma nossa música reflete muito mais que uma tentativa de expressar algo num padrão estético fechado. Nossa música reflete nossa busca constante por explorar novas possibilidades de expressão artística através de nossos instrumentos. É uma forma de dar significado musical às nossas vidas, que estão sempre em movimento.
Beto: Fazer música não como um fim, mas sim como um meio, um instrumento de celebração da vida, acima de tudo.

O trabalho gráfico ilustrado no CD Mobile, assinado pela artista Mariana Chama, é espetacular, ilustra o cotidiano e nos transmite essa sensação de movimento. 
Conte-nos sobre a artista e como esse ensaio se encaixou no trabalho do grupo.
Daniel: Bem, o À Deriva, desde o início, tem um apreço grande pelo CD, entendendo ele como mais que música. Um objeto mesmo, pra, além de ouvir, ver e manusear. Aliás, todos nós ainda compramos CDs e gostamos da experiência de pegá-lo, tirar o plástico, colocar no aparelho de som e ouvi-lo, inteiro, sentado ou deitado, enquanto olha o encarte. É uma experiência prazerosa, ainda, pra gente.
Somos estranhos ou é o mundo que mudou demais?
E a parte visual do CD é muito importante para nós também. Em todos os nossos CDs procuramos imagens que nos sugerissem sensações de alguma forma análogas a alguma sensação importante pra gente, contida na música que estávamos propondo e registrando nele.
Nesse 4º CD, desde quando ele era apenas um projeto, tínhamos uma ideia que ia um pouco além de encontrar essa imagem única. Queríamos um ensaio fotográfico, ao invés de uma foto apenas. E a Mariana Chama desde o início era a artista que estava em nossa mente, por uma questão de afinidade mesmo, e adoramos o trabalho dela.
Mas a história desse encarte é um pouco mais longa e começa com a escolha do nome do CD. Nesse disco usamos alguns materiais brutos pra produzir som  – pedaços de metal que fomos buscar em um ferro velho,  entre eles um prato enorme de aço inoxidável com um som grave estranhíssimo; pedaços de madeira que encontramos em uma marcenaria aqui do bairro, plásticos, papéis diversos; e uma boa parte desses objetos a gente pendurou pelo estúdio, assim como pendurados foram os gongos que o Guilherme mandou fazer especialmente para a música Onde o Silêncio faz Eco.
Nos ocorreu que aquele monte de objetos pendurados pareciam móbiles, as esculturas suspensas, em movimento, suscetíveis às transformações operadas pelo vento, luz e sombra, criadas pelo artista americano Alexander Calder. Achamos que estava aí uma chave para definir esse CD, além da palavra carregar a ideia de “em movimento”, totalmente em acordo com as novidades que estávamos incluindo na nossa música, em busca de transformá-la, explorando novas possibilidades.
Quando levamos essa ideia para o Lula Carneiro, parceiro do grupo e diretor de arte desse CD, ele desenvolveu uma forma bastante feliz de transpor a ideia do móbile do Calder para o encarte do CD e incluir, sem interferência de texto algum, as fotos da Mariana, e sem grampos. Dessa forma, a pessoa que manuseia o encarte pode alterar a ordem das folhas do modo que bem entender. O Lula também selecionou as fotos, de tantas que a Mariana nos disponibilizou, e as ordenou imaginando um primeiro conjunto de possibilidades de relações que se criam no encontro entre as fotos.
É que como as fotos do encarte são dobradas no meio, acaba que ao manusear o CD se defronta, num mesmo olhar, com duas metades de fotos, justapostas. E aí pode criar relações entre elas, ver continuidades ou contrastes de linhas, curvas, texturas ou significados. E essas relações se transformam totalmente a cada nova disposição que a pessoa quiser inventar. É um encante interativo, em movimento.


Guilherme: Essa relação com nosso parceiros é algo que cultivamos desde o início do grupo. Além deste aspecto visual que diz respeito diretamente ao trabalho da Mari e do Lula, tem o aspecto sonoro, ou seja, nossa opção por gravar música com qualidade. Neste sentido nosso grande parceiro, desde sempre, é o engenheiro de som Homero Lotito. Responsável por captar o som, gravar, mixar e masterizar todos os nossos discos. É um tipo de preocupação semelhante àquela que temos em relação ao aspecto gráfico dos nossos CDs. Ao gravar um disco nossa intenção é traduzir da forma mais fiel possível a qualidade sonora de cada um de nós como indivíduo e do grupo como um todo. Por isso a tamanha preocupação em relação ao registro e a mixagem dos discos. Neste ponto acredito que o Homero tem tanta importância para o resultado final do disco quanto cada um de nós.
Posso dizer que a preocupação que nos orienta quanto ao encarte dos disco é exatamente a mesma. Em relação ao encarte procuramos tratar nossos parceiros, Mari e Lula, com um grau de abertura e liberdade que os torne coautores do trabalho como um todo. Damos algum direcionamento, mas estamos sempre atentos e abertos às propostas deles, de forma que o trabalho de criação e elaboração destes artistas dialoga diretamente com a nossa música.

Como adquirir o CD ?
Rui: O disco é distribuído pela Tratore - www.tratore.com.br - assim como nossos outros discos, e pode ser encontrado em diversas lojas, como a Livraria Cultura, a Pops Discos, Submarino e Americanas. Para uma lista completa de lojas, quem quiser pode procurar no próprio site da Tratore.
Para aqueles que não tiverem acesso a nenhuma opção de lojas, pode entrar em contato conosco no site www.musicaaderiva.com.br que enviamos o disco. No site também tem a nossa agenda de shows, acesso a videos e outras informações sobre o grupo e os integrantes.

Obrigado Quarteto À Deriva, e Sucesso !



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