CARTA DE AMOR

16 março, 2013
Que significado tem essa expressão no mundo atual, tão eletrônico, em que mensagens se traduzem codificadas em zeros e uns, criptografadas dentro de e-mails, formatadas em curtas mensagens de texto em dispositivos móveis ou mesmo resumida por limitadas palavras em redes sociais.
Talvez diga-se tanto com tão pouco, alguns afirmam; talvez o conceito do niilismo esteja em pauta, vindo na carona da modernidade e na velocidade da era da informação; talvez uma transformação de valores que, de certa forma, tirou o encanto de uma carta desenhada pelas mãos e esculpida por sentimentos.

Em 1981, época em que a informação ainda não se expressava com tanta velocidade, uma carta nos tornava onipresentes, envolvia um ritual tanto para quem a escrevesse quanto para quem a recebesse, e isso realmente criava um momento mágico.

Carta de Amor é o título do disco de Egberto Gismonti, Jan Garbarek e Charlie Haden, um trio que foi apelidado com o nome de Magico
Não por menos, este espetacular grupo, formado por mestres, surgiu inicialmente da vontade de Haden em formar um duo com Gismonti, mas Manfred Eicher, o homem forte da ECM, sugeriu Garbarek para integrar o grupo, com quem Haden já tinha tocado no grupo de Keith Jarrett, e o encontro do trio foi promissor.
No ano de 1979 gravaram dois discos, Mágico e Folk Songs, ambos pela ECM.

"Carta de Amor" foi gravado em abril de 1981 ao vivo em Munique, no America Haus, e lançado mais de 30 anos depois em edição dupla pela ECM, e aqui no Brasil distribuído pela Borandá.

"É uma mensagem que lançamos ao mar numa garrafa e que só agora chegou à praia.”, disse Gismonti sobre o título do disco, gravado em dois canais e que, para ele, foi como um milagre tecnológico a mixagem das fitas originais, analógicas, tão perfeitas e distante dos ruídos dos registros ao vivo.

E ouvimos uma viagem sonora em 11 composições guiadas pelo sopro intenso de Garbarek, pontual, com sua assinatura sonora, e que aqui se soma ao lirismo do contrabaixo de Charlie Haden, um poeta do instrumento, e Gismonti, sempre Gismonti, se revezando no violão e piano.
É o violão de Gismonti que conduz a maioria das composições - no tema título, que divide-se em duas variações, Cego Aderaldo, Branquinho, composições próprias; os arranjos de Garbakek estão em Folk Song, Two Folk Songs e na experimental Spor; e a intensa La Pasionaria de Haden, que nos brinda com um belo improviso de contrabaixo, tão melódico quanto estonteante, e cujo tema é repertório da Liberation Music Orchestra, grupo liderado por ele que ainda contava, entre outros, com Ryan Kysor, Joe Lovano, Mick Goodrick e Bill Stewart. Ao piano, Gismonti remonta seus clássicos temas Palhaço e Dom Quixote; e também na composição de Haden, All that is Beautiful, em gravação inédita.

Um discão.