O QUE É O "BRAZILIAN JAZZ"?

07 dezembro, 2012
Uma abordagem sobre o jazz brasileiro pela ótica americana. Interessante que percebe-se a nossa riqueza musical, e que ela também se transforma em alguma forma de jazz.
O próprio jazz, no seu berço, também gerou outras formas baseadas em sua essência, pelas fusões com outros estilos e idéias. Vale também analisar que a criatividade, e até mesmo a malandragem, no melhor sentido, características nossas, brasileiras, são motivos que traduzem o jazz brasileiro com um swing próprio, com sua linguagem própria.

Este artigo foi publicado no Jazztimes e traduzi de forma livre, mas mantive o descrição "brazilian jazz" sem tradução.

O artigo original você lê aqui


(imagem ilustrativa)

por Tony Ananias
Jazztimes, agosto de 2012

Hoje, podemos, certamente, falar sobre "brazilian jazz" e com as letras iniciais maiúsculas. Verificar a sua existência não é problema, já defini-lo é algo muito mais difícil. A etiqueta colocada desta forma, sem mais nada, torna-se muito vaga. É possível ser mais específico ? De que forma ?
Uma das formas de definir Brazilian Jazz é dizer que simplesmente é o Jazz americano, do Dixieland, New Orleans até o Bebop, tocado por músicos brasileiros. Brazilian porque é tocado com o toque brasileiro. Esta definição não seria exatamente errada, mas é também restritiva, ainda deixa algo no ar. Um outro meio seria falar sobre o valor da Música Instrumental Contemporânea feita por grupos instrumentais no eixo São Paulo-Rio de Janeiro-Minas Gerais desde os anos 70. Ainda, define-se Brazilian Jazz e a música improvisada como uma fusão do Jazz e ritmos brasileiros.
Mas neste ponto leva-se em conta também o Choro, para o qual está tão relacionado com a cultura brasileira como o jazz para a cultura americana. Em resumo, toda tentativa de definição é válida, não falsa, mas incompleta, e também limitada.
Uma coisa é certa, o que nós percebemos como Brazilian Jazz não pode ser reduzido apenas às linhas estéticas. Também parece improvável poder ser definido como muitos tipos de combinações destes gêneros em certas proporções. Logo, quando falamos aqui em Braziliam Jazz, não estamos falando em um estilo definido, mas plural e mutável.
Provavelmente, uma razão que dificulta a definição de "brazilian jazz" é a extraordinária riqueza de ritmos brasileiros. O território brasileiro pulsa, de norte a sul, em uma infinidade de ritmos diferentes. Para mencionar somente alguns deles, não necessariamente em ordem de importância - frevo, maracatu, xote, modinhas, samba, bossa nova, os cantos e os batuques. Em outras palavras, podemos dizer que não existe um só balanço, há muitos.
Uma vez que o "brazilian jazz" é uma intersecção de múltiplas influências, pode-se dizer também que sua origem vem de muitas direções. Procuramos estas origens desde os primórdios; voltamos às orquestras de baile do tempo da segunda guerra; ou a um tempo mais recente, no surgimento da bossa nova, embora não exclusivamente instrumental, mas que colocou uma nova linguagem harmônica que seria absorvida por muitos músicos; e podemos, finalmente, reportar os novos grupos que apresentam uma linguagem musical mais moderna.
A questão, no entanto, ainda permanece. O que torna tão fantástico músicos como o pianista, condutor e arranjador Nelson Ayres, os saxofonistas Mané Silveira , Teco Cardoso e Victor Assis Brasil. o trombonista Raul de Souza, os compositores e multi-instrumentistas Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal, a pianista Eliane Elias, os guitarristas Heraldo do Monte, Paulo Belinatti e Laurindo de Almeida, os percussionistas Nana Vasconcellos, Dom Um Romão, Paulinho da Costa, os líderes Severino Araujo e Cyro Pereira ? Nós já sabemos que eles tem estilos individuais bastante diferentes. Como, então, agrupá-los em um único rótulo ?
Talvez a solução não seja a definição de um estilo, mas a existência de um certo fator, a "Brazilidade", cujas caracterização precisaria ser definida não por um musicólogo, mas por um antropólogo ou sociólogo. Assim, embora isso já seja suficientemente interessante, não parece ser de grande valor neste caso porque não podemos realizar aqui uma análise antropológica deste tipo.

Finalmente, com todo o respeito à caracterização do Brazilian Jazz, obviamente estamos diante de uma tarefa dificil, mais dificil do que caracterizar qualquer dos estilos não comuns do Jazz americano. Por todas essas dificuldades, optamos aqui por usar uma noção informal do Brazilian Jazz e das dinâmicas que emergem sobre as relações de similaridade entre os músicos em vez de uma definição precisa. Essa teia de conexões é construída baseada em uma gama de influências, e isso é possível de mapear. Por exemplo, Hermeto, que colaborou muitas vezes com Heraldo do Monte; Paulo Belinatti, que faz parte do grupo Pau Brasil em que toca tambem Rodolfo Stroeter, que é parte do grupo avant-garde Grupo A e com quem também tocou Teco Cardoso; o virtuoso Carlos Malta, que pesquisa os ritmos do interior do Brasil, assim como Paulo Freire, e por aí vai. Infindaveis outros caminhos como esses são possiveis.

A concepção de "brazilian jazz" emerge, lenta e inevitavelmente, de um jeito impreciso, numa teia de relações entre diferentes artistas. Não é um conceito fechado, mas aberto.
Isso entendido, um fenômeno similar ocorreu com certos tipos de jazz como o Free e o Fusion, Alguns trabalhos desses artistas e estilos são tão diferentes do que tradicionalmente se entende por jazz, que incluí-los somente funciona para as semelhanças e inter-relações como fizemos aqui.
Você pode avançar um pouco nessa caracterização de "brazilian jazz" destacando alguns dos traços desta música. Primeiro, diz respeito a formação instrumental. Como você sabe, a música brasileira tem uma forte tradição instrumental, principalmente nos metais, no violão, piano e percussão; não tem tradição em instrumentos de arco Assim se configura os instrumentos reais que são usados na música brasileira. Do ponto de vista estético, um traço interessante é uma certa consciência, uma economia de recursos, ao contrário da imagem tradicional do Brasil como um país exuberante, festivo e carnavalesco,
Podemos observar que, contrário a este estereótipo, muitas expressões musicais se distinguem por melodias curtas, secas, claramente desenhadas e rítmos simples e poderosos, até um canto à capela. Isso é observado tambem na música que vem do interior. Mesmo o samba, agora totalmente industrializado, é tradicionalmente o mais economicamente viavel, tanto em verso e melodia. Para dar outro exemplo, a bossa nova é recheada de informação em canções curtas, com versos altamente poéticos, emoldurados por sofisticados acordes. Digo essas raízes para sugerir que o enfeitamento e a exuberância não são típicos da música brasileira.
Em particular, algumas coisas são mais estranhas para a música brasileira do que o acompanhamento doce e enfeitado, hoje, onipresente na música pop, feita com cordas ou mais recentemente com sintetizadores. Nem é característica da tradição brasileira, por exemplo, o uso de fantasias, brilhos e bandas coreografadas, tão popular na América do Norte. Outros exemplos são possíveis, raramente surge algo como uma trilha de Wagner, por exemplo. Mesmo o barroco é econômico. Nesse ponto, pode haver alguém mencionado como um contra-exemplo, como o compositor Heitor Villa-Lobos. É importante notar que, mesmo ele, mantém-se permanentemente na simplicidade como um polo ativo de criação musical, em oposição ao outro polo, a complexidade. Isso quando ele não faz, com maestria, a partir da abundância de simplicidade, como acontece em muitas passagens.
 
Ezra Pound disse que a poesia é igual a concisão. E é essa equação que pode explicar o caráter poético da música brasileira. Voltando nossos ouvidos ao "brazilian jazz", percebemos que essa escola da brevidade deu frutos. O foco da música é geralmente bem definido, o fraseado é incisivo, os acompanhamentos são econômicos, a harmonia está concentrada. Mesmo o humor e a decantada brejeirice brasileira, sempre presentes, são obtidos com malandragem : "quem pisca, perde a piada".
Da década de 80 até hoje, podemos observar um crescimento considerável do "brazilian jazz", embora a ênfase pela mídia para os artistas ainda esteja muito além do desejavel. Mas cresceu na imprensa e na percepção pública que os músicos brasileiros foram e são capazes de criar uma música preparada, consistente, tecnicamente bem feita, o que, sem dúvida, pode combinar com o melhor que o jazz americano já produziu. E com uma qualidade adicional - é uma música vital que reflete as melhores características do povo brasileiro. Na medida em que acreditamos que há algo na brasilidade, que é de alguma forma relevante para o resto do mundo, o "brazilian jazz" é um canal aberto para a difusão dessa coisa boa que trazemos dentro de nós.

(Ezra Weston Loomis Pound (1885–1972), poeta e crítico americano e um representante do início do movimento modernista)