UMA ALEGRE BONECA DE PANO

07 novembro, 2012
As definições de bordel e cabaré, por vezes, misturam-se no imaginário. Enquanto o primeiro caracteriza-se como prostíbulo, o segundo é uma casa de diversão com shows realizados com mulheres, embalados por música e dança em apresentações sensuais e um local preferido das classes sociais mais abastadas.
Os cabarés foram muito populares na França, na época do Belle Epoque, período que iniciou no fim do século 19 e se estendeu até o fim da primeira grande guerra, de intensa movimentação cultural. A França apadrinhou este movimento pois concentrava grande quantidade de músicos, pintores, dançarinos, escritores e filósofos, e a solidão destes personagens era revestida pelo ambiente enfumaçado levando-os a um estado de êxtase que ia de encontro a falta de perspectiva para as suas vidas, às vezes, tão vazias.
Essa fascinação pelo encontro com as moças vestidas em íntimas lingeries e cintas-ligas transcende ao tempo e ainda hoje se fantasia pelos meios de acesso na modernidade da realidade virtual. Ainda e sempre, acaba tornando-se uma libido proibida, cujo feitiço será sempre o mesmo, à imagem e semelhança das fantasias eróticas, promíscuas e mundanas.
O piano sempre foi um instrumento marcante e característico destes locais. O piano de armário. Músicos se faziam presentes para compor a trilha destes ambientes, cujo estilo traçou seu próprio caminho e que até deu início a era do ragtime, que veio a ser rotulada como a música do pecado.

Glad Rag Doll (Verve Records) é o novo álbum de Diana Krall e revela um lado intimista e sensual, reproduzindo uma certa atmosfera de época, os anos 20 e 30, sob a ótica da modernidade.
Eleita a voz feminina pela votação dos leitores da Downbeat, Readers Poll 2012, Krall ainda ilustra a capa da revista na edição do mês de dezembro.

Krall esclarece que conheceu as canções do início do século passado antes de conhecer os standards de Jazz. Seu avô trabalhava nas minas de carvão, não tinha dinheiro, mas tinha um piano; e nos domingos em família enquanto o avô ia para a jogatina, ela ia atrás das pilhas de partituras antigas para cantar. E assim conheceu o trabalho de Jean Goldkette e Gene Austin.
A capa do album é uma homenagem a Alfred Cheney Johnston, fotógrafo conhecido por seus retratos das showgirls nos anos 20 e 30; e mostra Krall, em seus 47 anos, muito sedutora.
E essa sedução se desenvolve nos 17 temas recheados de baladas acompanhadas por dobros, banjos, violões acústicos e ukulele, instrumento de quatro cordas muito característico dos anos 20, revezados por Marc Ribot, Howard Zoward Bryan Sutton, Colin Linden e T-Bone Burnet.
Krall ainda executa alguns temas só com voz e piano.
Ela sabe das coisas e entendeu que precisava de algo diferente para este álbum e, para reproduzir o estilo da época, utilizou um piano de armário nas gravações, um vintage Steinway de 1890. Na verdade, Krall cresceu  tocando neste tipo de piano e ela afirma que o instrumento faz voce tocar de uma forma diferente, a música soa diferente porquê, por si só, é um instrumento diferente.

Glad Rag Doll é um disco surpreendente e carregado com uma sonoridade bem rústica. Obrigatório.

Som na caixa !