DUBAI-LIMA GUITAR PROJECT

30 novembro, 2012
São mais de 40 anos de bateria, um marco registrado no disco Quarenta (2006, Rob Digital), e uma história na nossa música, não só Instrumental e no Jazz, mas na Música Brasileira.
Uma referência no instrumento.
Pascoal Meirelles apresenta o disco Dubai-Lima: Guitar Project, em que coloca a guitarra como protagonista, representada pelas mãos de Nelson Faria, Alexandre Carvalho, Leonardo Amoedo, Mateus Starling, Ricardo Peixoto e Kamal Mussalan.
Um fato não muito comum reunir talentos de grande expressão do instrumento em um único disco, uma celebração às seis cordas liderada pelas baquetas de Pascoal, que assina 7 dos 11 temas e que traz também composições de Toninho Horta (Luisa) e Vitor Assis Brasil (Joanne).

Pascoal Meirelles
Nelson Faria dispensa comentários, um músico do primeiro time, que não se prende a estilos, com extrema fluência no Jazz e que também atua na música popular e no clássico com a maior naturalidade. Uma escola de guitarra;
Assim como Alexandre Carvalho, espetacular músico e um guitarrista de Jazz na essência. Passou uma temporada em Berklee, mas graduou-se aqui pela UFRJ onde defendeu sua tese de mestrado baseada na textura musical de Pat Metheny, não é para poucos;
O uruguaio Leo Amoedo é sensação quando sobe ao palco. Ganhou muita evidência por aqui como sideman de Ivan Lins e marcou com seu incendiário improviso no tema Dinorah Dinorah; e está sempre presente nas gigs pelo RJ contagiando o público admirador do instrumento;
Mateus Starling é um dos guitarristas mais expressivos da nova geração. Formando em Berklee, especializou-se em performance e recebeu a maior honra concedida pela escola. Sempre citado nas melhores revistas do gênero pelo mundo inteiro e teve seu nome em destaque no All About Jazz como "um guitarrista muito promissor que toca sem ter que soar como os outros";
Ricardo Peixoto reside na California e é um músico muito influente por lá, representando a nossa música. Também ingressou em Berklee para estudar violão clássico, mas seguiu o caminho do Jazz. Mudou-se para San Francisco para estudar no Conservatory of Music e lá juntou-se a outros músicos brasileiros onde atua como solista e compositor;
Kamal Mussalan nasceu no Kuwait e reside em Dubai. Descobriu o Jazz nos nomes de Metheny, Miles, Benson e McLaughlin, suas principais influências, e desenvolveu o seu próprio estilo de tocar. E foi uma grande oportunidade esse encontro com Pascoal Meirelles.

Neste trabalho ainda participam os contrabaixistas Augusto Matoso, Jefferson Lescowitz, Alberto Continentino e Sergio Barrozo; os pianistas Osmar Milito, Vitor Gonçalves e Julio Merlino; o percussionista Mingo Araujo; e os sopros de Daniel Garcia, Nivaldo Ornelas, Mauro Senise e Altair Martins.
No repertório, um passeio pelo instrumental contemporâneo nos temas Pro Helvius, liderado pela guitarra de Mateus Starling e o único tema com todos os sopros em cena; Dubai-Lima, que traz Milito ao piano e a guitarra de Kamal Mussalan; um tempero Blues em Pontanegra, nas mãos de Nelson Faria; o balanço brasileiro nos temas Malaysa, Diida e Salseiro, esta que Pascoal dedicou a sua esposa Nina, nas mãos de Nelson Faria, Alexandre Carvalho e Leo Amoedo, respectivamente; e o belo tema Luisa no improviso do violão acústico nas mãos de Ricardo Peixoto.

Pascoal nos conta um pouco sobre esse trabalho -

GC: Dubai-Lima: Guitar Project coloca a guitarra em primeiro plano. Como surgiu a ideia desse projeto ?
PM: A ideia surgiu de uma viagem que fiz com meu trio formado com Nelson Faria na guitarra e Augusto Mattoso no contrabaixo para a Malásia no Penang Jazz Fest e na Indonésia no Java Jazz Festival. Conheci o Kamal Musallan quando o avião fez escala em Dubai. Para resumir, fiz uma base da minha musica Dubai Lima no Brasil e enviei o mp3 para o Kamal gravar no seu estudio em Dubai. A partir desse inicio, convidei outros cinco guitarristas e gravei três musicas com o Nelson Faria, duas com o Alexandre Carvalho, duas com o Leo Amoedo e uma com Ricardo Peixoto, que é um guitarrista brasileiro radicado na California. O Mateus Starling, guitarrista que recebeu uma bolsa integral para estudar no Berklee College, colocou sua guitarra na musica Pro Helvius, dedicada à memória do grande pianista Helvius Villela.
Nelson Faria gravou meu disco de trio dedicado ao Jobim, Tom (2002) e fizemos uma tour na Malásia e Indonésia. Quando voltamos, o Nelson começou a ficar ocupado com os shows do João Bosco e chamei o Alex Carvalho para seguir no meu projeto do Trio e fomos fazer o Festival Jazz In Situ, em Quito, Ecuador.
As outras musicas do disco são a linda Luisa do Toninho Horta, Bambelô do cancioneiro do RN e Joanne do Victor Assis Brasil.

GC : Além dos guitarristas, muitos convidados participam deste trabalho. Foi um desafio juntar esse time todo ?
PM : Como são músicos muito preparados para trabalhar em estúdio, eu consegui a adesão total de todos. O clima das gravações transcorreram em ótimo astral e conseguimos gravar tudo em um mês. O projeto demorou nas mixagens pois no meio desse trabalho fui contratado pela Berklee Network-Ecuador para dar aulas na graduação durante os anos de 2010 e 2011, e acabei terminando as mixagem em Quito no estúdio do musico equatoriano Juan Donoso.

GC : Eu passei a entender a bateria como mais que um instrumento rítmico, e sim um instrumento melódico e parte essencial na interação com todos os outros elementos. 
É essa dinâmica que torna o instrumento fascinante ?
PM : Eu tenho uma visão bem melódica da bateria pois com meu trabalho de solista tenho a obrigação de fazer uma versão melódica em um instrumento que não tem afinação definida. Por isso o desafio é conduzir as idéias rítmicas sugerindo uma improvisação sobre o tema escolhido.
No Jazz, esse quesito entre os melhores bateristas já está em franco desenvolvimento. E não é só nos solos, o baterista  precisa acompanhar atentamente o que os solistas fazem para aplicar idéias de como motivar os solistas a impulsionar seus caminhos na improvisação dos temas.
Na música Diida (Pius Bachenlob), por exemplo, comecei a faixa com um solo de vassourinhas, tentando emoldurar a concepção do tema que viria a ser exposto em seguida. Tenho isso tão claro em minha concepção musical que lancei um livro denominado "A Bateria Musical", exatamente para que instrumentistas, e não somente bateristas, possam acompanhar o desenvolvimento das minhas ideias e toca-las em grupos, caso queiram, como forma de estudo.

GC : É fato que as pessoas querer ouvir boa música e pedem espaços para isso; e sempre haverá oportunidade para criar novos públicos. Voce vê um certo preconceito na mídia tradicional para divulgação da música instrumental ?
PM : O que passa é que no Brasil vive-se de modismo. Os meios de divulgação não estão divulgando com seriedade os trabalhos dos músicos porque a mídia voltou-se para musicas que, no entender das gravadoras, são mais fáceis de serem digeridas. Isso é um erro crasso de avaliação, pois toda vez que tocamos em praça publica as pessoas ficam vidradas quando ouvem um bom grupo, com grandes solistas. Se as mídias apoiassem com criticas honestas e com seriedade, esse tipo de musica voltaria a ser consumida, como foi o Samba Jazz na Bossa Nova e depois na década de 80, com grupos mostrando repertório próprio, divulgando as variadas tendências dos ritmos brasileiros.
A Niterói Discos, atraves da Fundação de Artes de Niterói, há 20 anos divulga os músicos que tem aceitação popular no município de Niterói, e as outras prefeituras deveriam usar esse exemplo louvável da Secretaria de Cultura deste município.

GC : Para finalizar, 3 discos por Pascoal Meirelles.
PM : Minha principal referência foi o LP Edison Machado é Samba Novo, de meados da década de 60. Eu estava começando a tocar e me entusiasmaram muito os arranjos e a atuação brilhante do Edison Machado na bateria. Entre os lançamentos de jazz, Giant Steps do John Coltrane e com Elvin Jones na bateria; e o Three Blind Mice do Art Blakey sexteto, com Freddie Hubbard, Wayne Shorter e Curtis Fuller. Em 2007 fiz um disco baseado nesse sexteto do Blakey a convite do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil).

Obrigado Pascoal Meirelles, e Sucesso.

Você encontra o disco "Dubai-Lima: Guitar Project" na Livraria Arlequim.


SALSEIRO from Pascoal Meirelles on Myspace