ELIANE ELIAS VOLTA A LANÇAR CD DE JAZZ PROPRIAMENTE DITO

11 novembro, 2012
Coluna do Luiz Orlando Carneiro 
Jornal do Brasil, 22 de setembro

Há quatro anos, a pianista Eliane Elias produziu com o marido Marc Johnson, refinado baixista que integrou o derradeiro trio de Bill Evans (1978-80), o CD Something for You: Eliane Elias Sings and Plays Bill Evans. Escrevi então, nesta coluna, que “o fato de o verbo cantar estar antes de tocar no título do álbum já é um recurso apelativo, até porque há mais faixas puramente instrumentais (10 em 17) do que com a voz doce, bonitinha, mas não extraordinária, da cantora, mais pop do que jazzy”.

Nesta última década, essa paulista de 51 anos, dos quais 30 vividos em Nova York, fez uma clara opção comercial, dando ênfase à sua carreira de singer de smooth jazz, em detrimento de sua arte puramente pianística, como atestam os discos Dreamer (Blue Note, 2004), Kissed by Nature (RCA, 2009) e Light my Fire (Concord Picante, 2011).
Os críticos e jazzófilos mais exigentes estavam à espera de um novo registro puramente instrumental do alto nível de Everything I Love (Blue Note, 1999), em trio com Johnson e Jack DeJohnette (bateria), e de Shades of Jade (ECM, 2004), novamente com o marido e os eminentes Joe Lovano (sax tenor), John Scofield (guitarra) e Joey Baron (bateria).

Pois esse CD, gravado em fevereiro de 2010, acaba de ser lançado por Manfred Eicher, dono, cabeça e alma da ECM. Trata-se de Swept Away, título de uma das cinco peças compostas por Eliane Elias para o disco, que se somam a outras duas que ela escreveu com o marido (Sirens of Titan e Inside Her Old Music Box), a três originais do baixista colíder (When the Sun Comes Up, Midnight Blue e Foujita), e ao tema folclórico Shenandoah, interpretado em solo por Marc Johnson.

O primoroso trio Elias-Johnson-Baron reúne-se novamente, e Joe Lovano forma um quarteto para a interpretação de quatro faixas: It’s Time (5m50), tema de Eliane dedicado ao inesquecível sax tenor Michael Brecker (1949-2007), seu primeiro patrão, na década de 80, no grupo Steps Ahead; as etéreas When the Sun... (6m35) e Midnight Blue (6m); a animada e envolvente Sirens of Titan (5m50), impulsionada pelas acentuações indispensáveis de Joey Baron.
Assinadas pela pianista, One Thousand and One Nights (8m15) e B is for Butterfly (8m) são, a meu ver, as faixas em trio mais atraentes do álbum, em termos de emoção e execução técnica. A primeira, como fica claro no título (Mil e uma noites), tem um colorido melódico oriental; a segunda lembra os momentos mais alegres e interativos do trio de Keith Jarrett.

A atmosfera geral do novo CD é do jazz mais contemplativo que caracteriza a etiqueta ECM. Eliane e Marc Johnson admitem que o ambiente em que foram escritas as peças de Swept Away, a casa em que moram nos Hamptons, o balneário chique de Long Island, perto de Nova York, influenciou decididamente o seu mood. O baixista comenta: “Existe lá, definitivamente, um sentimento de quietude e de espaço que nos inspira. A natureza está mais próxima, e podemos realmente ver a mudança de estações. Acho que se pode ouvir isso no lirismo e na sinceridade da música (do álbum)”.