O SAGRADO CORAÇÃO DA TERRA

04 outubro, 2012
O Sagrado Coração da Terra é um dos mais intensos grupos da história da nossa música, cuja sonoridade poética, influenciada pela musicalidade e liderança do multi-instrumentista Marcus Viana, de formação erudita, deu ao grupo o rótulo de Rock Sinfônico, muito também pela influência dos grupos progressivos dos anos 70 e pelos elementos ecológicos e metafísicos inseridos em sua música.

Eu conheci a música do Sagrado na época que Juma Marruá se transformava em onça na novela Pantanal, da finada Rede Manchete, que teve a trilha sonora embalada pelos acordes e harmonias do grupo. A partir daí, o grupo tornou-se uma referência para a composição de outras trilhas e, mesmo com apelo comercial, manteve seu estilo e sua característica musical sem deixar de lado os improvisos e as viagens sonoras.

Nunca tinha assistido a uma apresentação ao vivo do grupo, apesar do seu longo tempo de existência, e há muito também não ouvia o trabalho deles, o que foi resolvido na noite de 3 de outubro no Teatro Rival. E foi surpreendente!
A formação do grupo nesta apresentação teve Marcus Viana e Daiana Mazza violinos, Augusto Rennó guitarra, Adriano Campagnani baixo, Neném Ferreira bateria, Danilo Abreu teclados e as participações especiais das vozes de Mila Amorim e Sergio Pererê.
E uma das surpresas da noite, e que tem que ser destacada, foi a interpretação vocal de Sergio Pererê, um show à parte, performático, revezando-se no violão, flauta e percussão e cuja participação no grupo era um antigo desejo de Marcus Viana. Pererê liderou os vocais em quase a totalidade dos temas; Mila Amorim também deu seu recado, liderando a voz nas interpretações em inglês e nos vocalizes, e trouxe em alguns momentos uma atmosfera meio celta, bastante evidente na interpretação do tema Sweet Water.
Marcus Viana alternou muito entre o violino e teclados, além das vozes, e contou com um segundo violino nas mãos de Daiana Mazza, integrante da Transfônica Orkestra, que, apesar de não explorar muito os improvisos, colocou pontualmente as intervenções melódicas além de ter dado um colorido especial no palco.

Muita interação de Marcus Viana com a platéia, contou histórias e lembrou que, na época do início do grupo, assuntos como ecologia, natureza e meio ambiente soavam muito distantes da sociedade e que hoje, com tantos discursos sobre sustentabilidade, o assunto tornou-se pauta obrigatória e está cada vez mais presente. Com a idéia de que a humanidade é varrida do mapa de tempos em tempos, o que, em teoria, é uma verdade, deu o tom para as interpretações de Eldorado e Grande Espírito, dois temas clássicos do grupo.
No repertório teve ainda Estrela Natal,  Raio e Trovão, Pantanal e as canções criadas com letras em inglês, Sweet Water e Firecircle, que Marcus esclareceu que não as traduziu para o português para manter a idéia e originalidade dos temas. Rapsodia Cigana abriu espaço para os efusivos solos do guitarrista Augusto Rennó, do excelente baixista Adriano Campagnani e do baterista Nenem Ferreira.

Um show com um certo ar de nostalgia, mas que soou como novo.
1h30min de apresentação e o público queria mais. Marcus Viana e grupo voltam ao palco para tocar um hino, como ele afirmou, Amor de Indio (Beto Guedes), com um arranjo magistral, bucólico, simplesmente espetacular.
Despediu-se desejando a todos – Paz, Alegria e Música !