UM PALCO. UM PIANO. UM GÊNIO. KEITH JARRETT.

25 outubro, 2012
Keith Jarrett
Rio, noite de quarta-feira.
O cenário : um palco, um piano e um gênio.

Pelo segundo ano consecutivo, Keith Jarrett desembarcou em solo carioca para a séria Jazz All Nights, promovida pela Dell Arte.
Em sua última apresentação, em abril de 2011, o espetáculo foi registrado no álbum duplo Rio, lançado pela ECM, e tornou-se mais um registro histórico e com lançamento relâmpago e que, para Jarrett, foi uma das suas melhores gravações em seus cinquenta anos de música. Este que vos escreve não assistiu esta apresentação ao vivo, a degustação ficou restrita ao álbum.

E enfim, me vi diante deste espetacular músico em um Teatro Municipal lotado para uma apresentação brilhante, cujo título, An Evening of Solo Piano Improvisations, só comprovou o talento, a criatividade e seu pleno domínio na arte de conduzir uma apresentação solo em cerca de duas horas de duração, dividida em dois sets.
Sua exigência foi um piano Steinway D, que foi cedido pela OSB e veio de São Paulo; e a afinação do instrumento ficou na responsabilidade de George Boyd.

No repertório, em cada tema, a única certeza era um início. O meio e o fim eram decididos em tempo do momento criativo, cuja improvisação, livre e despretensiosa, levava a caminhos sonoros imprevisíveis e ao mesmo tempo belos e instigantes. Sua música fala com o corpo, como se suas inteligências musical e cinestésica convergissem em torno da própria criação musical instantânea, indo ao encontro de um cenário imaginário de música improvisada.
Incitou a platéia em dois momentos - quando os aplausos iniciaram antes do término de um tema, aguardou os ânimos baixarem e colocou somente os dois acordes finais, como que dizendo – “agora sim, podem aplaudir”; e ao final, antes do início de um tema, a campainha de um celular o fez balançar a cabeça em tom de reprovação. Mas sempre se reverenciou ao público em sinal de agradecimento.

O Rio de Janeiro parece mesmo ter cativado Keith Jarrett. O samba, de uma nota só, se multiplicou exponencialmente nas teclas brancas e pretas, como pedras portuguesas explodindo em ousadia e malandragem e cujos passos eram conduzidos pelas suas mãos e pés.
E nem o público nem Jarrett pareciam querer ir embora, por duas vezes voltou ao palco e, mesmo com tanta bagagem musical, se entregou ao silêncio e compartilhou com o público – “não tenho idéia do que tocar”; e das mais variadas manifestações, recriou Gershwin (Summertime) e Harold Arlen (Somewhere Over the Rainbow).

Um verdadeiro espetáculo !