FRED HERSCH BEM VIVO NO VILLAGE VANGUARD

26 outubro, 2012
Coluna do Luiz Orlando Carneiro 
Jornal do Brasil, 15 de setembro

Fred Hersch, 56 anos, é um mestre consumado da arte do piano jazzístico e o mais expressivo herdeiro da poética musical de Bill Evans. Mas não se limita a retocar — com a técnica, a criatividade e o requinte harmônico que o caracterizam — joias do Great American Songbook. É também capaz de recriar a seu modo, sempre cool, a temática desafiadora de Thelonious Monk ou de Ornette Coleman. Além disso, é um compositor inspirado (A Lark, At the Close of the Day, Phantom of the Bopera, Evanessence).
Hersch é um daqueles músicos consagrados que se apresentam anualmente no Village Vanguard, a catedral-catacumba do jazz em Nova York. De sua discografia já constavam dois álbuns gravados pela Palmetto, ao vivo, naquele clube que comemorou 75 anos de idade em 2010: Live at the Village Vanguard (2002, em trio com o baixista Drew Gress e o baterista Nasheet Waits) e Alone at the Vanguard (um set solo de dezembro de 2010).

Fred Hersch
A essa discografia acrescente-se agora o CD duplo Alive at the Vanguard  (Palmetto), registro de fevereiro deste ano, com o líder à frente do trio que formou com John Hébert (baixo) e Eric McPherson (bateria). De acordo com o próprio Hersch, trata-se, talvez, do seu melhor disco em trio, em termos de amplitude, de som, do aqui e agora (being in the moment), do modo de tocar.
Ele acrescenta: “E, sonicamente, acho que captura realmente o Vanguard...você se sente como se estivesse lá”.

O alive do título do álbum, e não simplesmente live, é muito significativo. Hersch convive e luta, há muito tempo, com a Aids. Em 2008, esteve muito perto da morte, em coma, durante dois meses. Ele praticamente renasceu, mas ainda estava muito abatido em julho de 2009, quando tive a oportunidade de vê-lo e ouvi-lo lá no Vanguard.
Neste novo CD duplo, Fred Hersch demonstra que está mesmo alive and well, em 15 faixas, das quais sete composições de sua lavra. São elas: Havana (6m45), uma valsinha romântica com o Latin levemente acentuado por McPherson; Tristesse (6m20), balada dedicada ao lendário baterista-compositor Paul Motian (1931-2011); Dream of Monk (6m10), uma espécie de collage de temas de Monk, como Crepuscule with Nellie e Blue Monk; Opener (7m20), peça escrita pelo pianista para destacar o baterista; Jackalope (6m45), bem swinging, de raras assimetrias harmônico-rítimicas; a lírica Rising, Falling (6m45), inspirada na música de Wayne Shorter; Sartorial  (5m), descrita pelo autor como um tributo a Ornette Coleman, “uma das mais charmosas (snnaziest) figuras do mundo do jazz”.

Hersch também celebra ícones de sua especial devoção em quatro faixas do volume 1 de Alive at the Vanguard. Ele interpreta Softly as in a Morning Sunrise (5m50), o velho standard da Broadway, e Doxy (6m45), de Sonny Rollins, explicando que os dois temas, na sua mente, sempre estiveram associados ao grande saxofonista. As fascinantes melodias de Lonely Woman (Ornette) e Nardis (Miles Davis) são fundidas pelo trio num take de mais de 12 minutos. Charlie Parker está presente numa animada reinvenção de Segment (6m50). No volume 2 do CD, Hersch junta, numa mesma faixa (13m30), The Song is You, de Jerome Kern, e Played Twice, de Monk.