BLUES & SOUL SESSIONS COM A IGOR PRADO BAND

20 outubro, 2012
Soul : termo empregado no início dos anos 60 para passar a ideia de forte sentimento na interpretação, principalmente no Blues, onde as técnicas usadas no spiritual e gospel estão sempre presentes, oriundas do canto negro.

A definição está no Glossário do Jazz, de Mario Jorge Jacques, e ilustra a identidade do estilo Soul, enraizado no Rhythm & Blues, cujo termo, no jargão americano, se baseia no orgulho e cultura da raça negra, é a música popular negra, a intensidade no canto, os coros, o bater das palmas, o movimento corporal, o ritmo.
Historicamente, o estilo tem seus registros muito referenciados em duas grandes gravadoras, a Stax e a Motown, baseadas em Memphis e Detroit respectivamente. Ambas com características muito particulares - de um lado os Memphis Horns colocavam os sopros na assinatura na Stax, suportados por Booker T and MGs; por outro os Funk Brothers na liderança do baixista James Jamerson, cujas linhas de baixo embalaram os maiores hits do catálogo da Motown.
A era marcante do soul estabeleceu-se fortemente nos anos 60 e 70 e célebres artistas deixaram sua assinatura no estilo como Ray Charles, Etta James, Aretha Franklin, Otis Redding, Wilson Pickett, Little Milton, Solomon Burke, Marvin Gaye, Al Green, entre muitos e muitos outros, a lista é imensa, e estreitaram a fronteira com o jazz e o blues tradicional.


Para retratar um verdadeiro tributo ao estilo, a Igor Prado Band, formada pela fenomenal guitarra de Igor Prado, o baixo de Rodrigo Mantovani e a bateria de Yuri Prado, muito influenciados pelo estilo, selecionou alguns clássicos, chamou as vozes de Tia Carrol, J.J Jackson e Curtis Salgado para dar a interpretação vocal necessária ao projeto, o hammond de Flavio Naves, o piano de Donny Nichilo e Ari Borger, e arregimentou os sopros no tenor de Sax Gordon, no trompete de Sidmar Vieira e no barítono de Denilson Martins, nossos Memphis Horns brazucas, para gravar Blues & Soul Sessions.

A produção deste trabalho tem as mãos de Igor Prado e, a fim de criar a atmosfera das gravações da época, escolheram o estúdio Comep em São Paulo para registro das sessões, que foram feitas ao vivo, sem overdubs e com uso de equipamento vintage. E as imagens destas sessões em estúdio foram registradas no DVD que acompanha o luxuoso pack com o CD, em que Igor, Rodrigo e Yuri relatam a experiência de reviver a música Soul, falam sobre os temas, sobre os artistas que tanto os influenciaram e contam muitas histórias.

O repertório está impecável, são 13 faixas no CD e 12 faixas no DVD. Melhor que ouvir, é assistir e sentir a vibração das gravações. O tema de abertura, Prado´s Special, instrumental, vem com muita energia e com arranjo suportado pelos metais e pelo hammond de Flavio Naves; e serviu como uma apresentação aos músicos da banda base desse trabalho, com improvisos de Flavio, Sidmar, Denilson e Sax Gordon, além de Igor, cujo tema ele fez uma adaptação da versão de Hooker Special, de Earl Hooker. Tem que destacar a vibração no sopro de Sax Gordon, é um daqueles saxofonistas que se voce der a ele 27 chorus para improviso, é capaz dele ressuscitar Paul Gonsalves e seu efusivo solo do festival de Newport em 1957 na banda de Duke Ellington (Diminuendo and Crecendo in Blue). Espetacular músico.
Oh Poo Pah Doh (Wilson Picket) e If I Can´t Have You (Etta James) trazem JJ Jackson e Tia Carroll dividindo os vocais; You Hurt Me (Little Willie John) põe o improviso no piano de Donny Nichilo e Rodrigo Mantovani abraça o contrabaixo acústico dando aquela atmosfera soul sob a voz calorosa de Tia Caroll, que também interpreta It´s Your Thing (Isley Brothers) com bastante veneno, e How Sweet It Is (Holland-Dozer), um clássico do Motown e um tema super alto astral que embalou muita gente, aqui em belíssima versão.
Greg Wilson embarcou das areias cariocas para interpretar Tramp (Lowell Fulson) e I´m Ram (Al Green), ambas com aquele swing funkeado e a voz de Greg caindo perfeita, inclusive em Tramp quase que dialogando com a base harmônica do tema, aqui sem os metais. Curtis Salgado interpreta Lucky Loser (James Carr) e divide os vocais com Igor em Don´t Turn Your Header On (Steve Cropper). 
Igor assina One for Duck Dunn, uma homenagem ao baixista Donald Duck Dunn que fez parte do Booker T and MGs e é uma das maiores influências de Rodrigo Mantovani.
Keep Knocking (Bill Mays) fecha o trabalho no melhor estilo rock´n´roll, de raiz, cujo tema foi incendiado por Little Richards no final dos anos 50, mas aqui quem colocou fogo foi o piano de Ari Borger.
Um disco obrigatório.

Igor Prado nos conta um pouco sobre o trabalho e, como sempre, uma aula de música.

A guitarra de Igor Prado tem a marca registrada do Jump Blues, com aquele puro recheio do Swing sem perder a essência Blues. Como deu-se essa iniciativa de mostrar a influência da música Soul e a ideia de gravar um disco em tributo ?
A gente sempre foi fã de Soul Music, há muito tempo, e claro que todo nosso embasamento musical vem do Blues tradicional. Muita gente não sabe que o West Coast Blues/Jump Blues é calcado no Blues tradicional, vide os principais artistas nos anos 50 - T-Bone Walker, BB King, Pee Wee Crayton e Lowell Fulson, todos vieram do Blues de raiz. As pessoas tem a mania de muitas vezes separar coisas que andam muito juntas ou criar rótulos.
Certa vez eu estava em Chicago conversando com o editor de uma revista muito tradicional e falávamos de estilos e tal e ele me disse : - "Igor, sabe quem inventou essas nomenclaturas como Texas Blues, Jump Blues, Chicago Blues?" E ele disse para meu espanto : - "O homem branco da Inglaterra nos anos 60, pois o Blues tinha ido para lá e era uma novidade, uma febre na Europa, época do American Folk Festival e quando as bandas inglesas estavam levando os negrões de convidados; por uma questão mais mercadológica eles dividiram e inventaram alguns estilos".
Provavelmente se você disser para o BB King - “Agora vc esta tocando Jump Blues!", ele vai olhar na sua cara e vai dar risada. Na verdade é tudo o Blues. E essa discussão vai além, uma vez o BB disse que, para ele, o Jazz e o Blues são a mesma música, mas isso é assunto para outra entrevista.
Mas enfim, estávamos numa fase bem Blues-Soul e então resolvemos montar esse projeto, que foi gravado todo ao vivo, nos moldes dos discos dos anos 60, com todos os músicos na mesma sala tocando ao mesmo tempo. Por isso tivemos que achar um estúdio que comportasse esse tipo de gravação. Até as vozes foram gravadas todas ao vivo.
O Chico Blues, produtor do CD/DVD, registrou praticamente toda a gravação em 3 câmeras e montamos um DVD extra para as pessoas verem como foi gravado "de verdade", coisa rara hoje em dia, não tem overdub, não tem auto tune (software de computador que reafina a voz) e não tem edições também.

As vozes de Tia Carroll, J.J Jackson e Curtis Salgado foram fundamentais nesse trabalho. Como vocês se conheceram e como eles receberam o convite para este projeto ?
O JJ já é parceiro de longa data, eu e o Yuri o conhecemos quando eu tínha 17 anos e o Yuri 16, foi numa jam session no antigo Sanja Jazz Bar aqui de São Paulo. De lá pra cá estamos sempre fazendo coisas juntos quando podemos.
A Tia Carroll conhecemos em uma das tours na Europa. Tocamos no famoso Lucerne Blues Festival em 2010 com o Lynwood Slim e o guitarrista Kid Ramos, e foi lá que tivemos o primeiro contato com a Carroll. No ano passado trouxemos ela para o Brasil e todo mundo adorou, ela já veio 4 vezes e fizemos mais de trinta shows.
Não poderia deixar de destacar a participação do cantor e gaitista Curtis Salgado, figura lendária que já tocou com Robert Cray e Carlos Santana e no ano passado ganhou o BMA (Blues Music Awards) como melhor cantor de Soul-Blues de 2011 nos EUA. Ele é um monstro e também peça fundamental no projeto, não só pela participação mas pela influência que ele exerceu nesses últimos anos mostrando material, ensinando várias coisas sobre Deep Soul e Gospel Music para a gente.

Ainda tem as participações no piano de Donny Nichilo e Ari Borgher e a voz de Greg Wilson, que é um dos pioneiros do Blues no Brasil.
O Greg é um parceirão de longa data, talentosíssimo, é o simbolo disso tudo que queríamos no disco. Ele pode estar tocando Blues-Rock, tocando trompete, cantando Blues tradicional ou cantando em português. Ele tem uma personalidade musical muito bem definida e está muito acima dos rótulos.
O Donny também já é de casa e convidei ele para algumas tracks e ele topou na hora.

Eu chamo essa espetacular seção de sopros como os "Memphis Horns" brazucas. Que energia desses caras.
Pois é, o Denilson e o Sidmar são pessoas diferenciadas mesmo, eu sempre falo isso, são geniais. Eles vieram totalmente da Gospel Music e o feeling que esses caras tem para tocar esse estilo é um negócio absurdo. Atualmente estou produzindo o disco solo instrumental do Denilson com previsão de lançamento para o ano que vem, e terá a participação mais que especial do Sax Gordon, que pra mim é um dos músicos mais geniais da atualidade.

A influência do soul invadiu a praia do Jazz no anos 60 e, para a guitarra, um dos ícones nessa onda foi o Grant Green, juntamente com a explosão dos Organ Trios. Como foi essa identificação e influência da música soul na sua formação ?
É isso mesmo, essa sua pergunta ilustra totalmente o que eu venho falando. Tanto o Grant Green quanto  o Bill Jennings, que entraram nessa onda do Soul-Jazz ou Acid Jazz nos 60, começaram tocando swing de big band, blues. Vide Bill Jennings, que acompanhou o saxofonista Louis Jordan nos 50. Então é jazz??  Mas Louis Jordan é swing, é jump blues ... e jump blues é blues??
Ops ... então tudo acaba no Blues ou começa também ! percebe ?!

Obrigado Igor Prado, e sucesso.