ELAS TAMBÉM TOCAM JAZZ

03 setembro, 2012
Coluna do Luiz Orlando Carneiro
JB, 11 de agosto

Em 1958, a revista Esquire publicou na capa a histórica fotografia de Art Kane com 57 grandes músicos de jazz reunidos na calçada fronteira e na escadinha de dez degraus de uma casa (brownstone) típica do Harlem. Na foto, intitulada A Great Day in Harlem, apareciam celebridades como Count Basie, Coleman Hawkins, Lester Young, Dizzy Gillespie, Sonny Rollins, Thelonious Monk e Charles Mingus. Havia apenas duas representantes do sexo feminino: as pianistas Mary Lou Williams e Marian McPartland.
Mais de 50 anos depois, a produtora-diretora Judy Chaikin está concluindo um documentário, The girls in the band, iniciado a partir de uma foto similar, com a mesma disposição, feita no mesmo lugar. Só que com nada menos de 72 instrumentistas de salto alto e batom, todas elas jazzwomen de expressão, que hoje competem com os jazzmen em igualdade de condições técnicas e criativas.

A revista Jazz Times aproveitou o gancho para dedicar sua edição de setembro (já enviada aos assinantes virtuais) às mulheres que também tocam jazz, e não apenas às que ficaram famosas como cantoras (geralmente fazendo jazz para quem não gosta muito de jazz) ou pianistas. Não por acaso, o editor Evan Haga ilustrou a capa da edição especial com o sorriso da clarinetista-saxofonista Anat Cohen, tão irresistível como a sua música. E destacou nas chamadas, além das jazz singers Cassandra Wilson, Carmen Lundy e Cheryl Bentyne, a violinista Jenny Scheinman, a guitarrista Mary Halvorson e a flautista Nicole Mitchell.

No recente referendo anual dos críticos de jazz promovido pela revista Downbeat (60th annual pool, edição de agosto), as instrumentistas acima citadas conquistaram posições invejáveis. Cohen ganhou, por larga margem, a competição entre os clarinetistas (à frente de Don Byron, Paquito D’Rivera e Ken Peplowski), e também a eleição referente à estrela em ascensão (rising star) entre os saxofonistas tenores (derrotando Mark Turner, Jon Irabagon e Marcus Strickland).
Mitchell foi a primeira na divisão dos flautistas, superando Charles Lloyd e Frank Wess. Halvorson foi a quarta mais votada no grupo dos guitarristas (logo atrás de Bill Frisell, Nels Cline e John Scofield). Scheinman chegou também em honroso quarto lugar no páreo dos violinistas, cuja vencedora foi, mais uma vez, a aclamada Regina Carter (Mark Feldman e Jean-Luc Ponty ocuparam as segunda e terceira posições, respectivamente).
Registre-se ainda que na mesma lista da DB dos melhores músicos de jazz em atividade, Maria Schneider continuou a reinar em três categorias: líder de orquestra, arranjador e compositor; Esperanza Spalding foi a terceira mais votada na bancada dos baixistas, atrás dos grandes Charlie Haden e Christian McBride; Jane Ira Bloom (sax soprano) só perdeu para Branford Marsalis; Claire Daly (sax barítono) chegou em quinto lugar numa especialidade até bem recentemente considerada inadequada para mulheres.

Em 1989, a editora Jorge Zahar publicou o meu livrinho Elas Também Tocam Jazz, de 160 páginas, com perfis de 25 instrumentistas, das quais 12 eram pianistas. Havia no índice apenas uma trombonista (Melba Liston), uma trompetista (a obscura Barbara Donald) e duas saxofonistas (a também esquecida Vi Redd e Jane Ira Bloom).
Se o livro fosse atualizado agora, 23 anos depois, teria de ter certamente o dobro de páginas. Só para dar um exemplo, deveriam ser incluídas na reedição revista e aumentada, pelo menos, mais nove renomadas saxofonistas além das já citadas, e que seriam as seguintes: Tia Fuller, Grace Kelly, Christine Jensen (irmã da trompetista Ingrid), Virginia Mayhew, Sharel Cassity, a austríacaa Karolina Strassmayer, a holandesa Tineke Postma, a francesa Géraldine Laurent e a italiana Ada Rovatti.