DO OUTRO LADO DA VIDA

21 agosto, 2012
por Roberto Muggiati
Jornal Estado de SP, 28 de julho

Ao eleger People Time como um dos maiores discos da história, a revista Jazz Times
recoloca as luzes sobre uma lenda de nome Stan Getz

People Time The Complete Recordings
O último álbum de Stan Getz, People Time, acaba de ser eleito pela revista Jazz Times um dos 50 Melhores Álbuns de Sax Tenor de Todos os Tempos. O CD duplo, gravado pouco antes da morte de Getz, foi considerado seu testamento musical. O legado ganhou força maior em 2010, ao sair a caixa de sete CDs People Time The Complete Recordings.
Às 14 faixas do CD duplo de 1991 foram acrescidas outras 37: às quase duas horas iniciais foram somadas mais sete de música maravilhosa. Não são só alternate takes, mas temas inéditos como Con Alma (Gillespie), Bouncing with Bud (Powell), The End of a Love Affair, You Stepped Out of a Dream e as francesas Autumn Leaves (Les Feuilles Mortes, de Kosma-Prevert) e I Wish You Love (Que Reste-t-il de Nos Amours, de Charles Trenet).

Estas últimas sessões, reunindo Stan Getz (sax tenor) e Kenny Barron (piano), foram gravadas ao vivo nos dias 3, 4, 5 e 6 de março de 1991 no Café Montmartre, em Copenhague, fundado em 1959. Inicialmente dedicado ao jazz tradicional, o Jazzhus Montmartre logo se tornou um dos mais importantes templos do jazz moderno fora dos EUA, graças justamente a saxofonistas como Stan Getz (morou em Copenhague entre 1958 e 61), Ben Webster e Dexter Gordon. Essa ligação afetiva de mais de 30 anos com o Montmartre certamente ajudou Getz a superar, nas gravações de 1991, os efeitos de um câncer terminal no fígado que o mataria três meses depois da última apresentação: em 6 de junho, aos 64 anos, em sua casa de Malibu, Califórnia. (Suas cinzas foram jogadas ao mar, em Marina del Rey.)
O CD duplo de 1991 transcorre em território neutro, parece até uma gravação de estúdio. Já as gravações completas trazem toda a ambiência calorosa da apresentação ao vivo, com falas bem-humoradas de Stan e reações da plateia. Surpreende, também, a vitalidade do sopro de Getz e sua criativa improvisação, como se juntasse as últimas forças para uma despedida em grande estilo, reeditando os momentos mais líricos de uma carreira de 48 anos de gravações. As interpretações longas (oscilam entre 5:24 e 13:45) destacam também o empenho físico de Getz, pois todo o espaço musical foi dividido apenas por saxofone e piano. Kenny Barron, que começou a tocar com Getz em meados dos anos 1970, fala dessa última temporada: "No Montmartre, Stan tocou excepcionalmente bem, dando o melhor de si em cada solo. Mas, depois de cada música, ele ficava literalmente sem fôlego; obviamente não se sentia nada bem. Quando nos despedimos, disse que faria um novo tratamento na Califórnia e me chamaria para uma nova turnê. De certo modo, eu sabia que nunca mais o veria."

A saída prematura de cena, de Stan e de uma infinidade de grandes jazzistas, foi a consequência de uma vida de abuso químico. A partir do bebop, drogas pesadas como a heroína tornaram-se uma espécie de rito de passagem e emblema que abria para o músico o clube fechado dos eleitos. Charlie Parker, o mártir mais notório, dizia: "O músico que afirmar que toca melhor graças à erva, ao pico, ou quando está chapado, é um mentiroso sem-vergonha."
Getz envolveu-se com álcool e drogas ainda adolescente. Em 1954, foi preso tentando assaltar uma farmácia para conseguir morfina. Estava na ala penitenciária do Centro Médico da Universidade do Sul da Califórnia quando sua mulher Beverly Byrne dava à luz ao terceiro filho um andar abaixo, na maternidade do hospital. Getz tinha 19 anos ao se casar com Byrne, cantora da orquestra de Gene Krupa. Na biografia de Chet Baker, No Fundo de Um Sonho, James Gavin relata inúmeros episódios de overdose de Stan, os amigos o encontravam geralmente desacordado no banheiro, com uma seringa espetada na veia: encharcavam-no de café preto e o faziam caminhar sem parar até que despertasse do quase coma.

Getz tentou escapar das drogas indo para Copenhague, onde casou com a aristocrata sueca Monica Silfverskiöld em 1956, com quem teria dois filhos. O casamento acabou em 1987, após anos de brigas judiciais que terminaram na Suprema Corte. Casamentos e filhos não combinavam com o estilo de vida caótico dele. A certa altura, Stan descobriu que Monica lhe administrava secretamente Antabuse (no café da manhã, no suco de laranja), uma droga para eliminar o vício da bebida. A combinação do remédio com álcool poderia ser fatal. Stan interpelou Monica: "Você quer um marido sóbrio ou, então, morto".
A instabilidade emocional levou Getz a outros relacionamentos. Um deles foi com a "The Girl from Ipanema", Astrud Gilberto, nos anos 1960, quando Stan, Jobim, João e Astrud Gilberto desencadearam mundialmente o que os americanos chamaram de "The Bossa Nova crazy". Donald L. Magin, na biografia de 1996, Stan Getz A Life in Jazz, escreve: "Astrud personificava sexo e romance para Stan, bem como para as multidões e - apesar de constantes brigas sobre salário e royalties -, os dois começaram um caso durante a turnê de julho de 1964. Assim começou a mais notória das infidelidades de Stan durante o casamento com Monica."
Não faltaram crises de depressão, explosões de raiva e violência e tentativas de suicídio numa existência de desespero sobre a qual Getz raramente teve o controle. Uma região, porém, permaneceu pura e cristalina ao longo de toda sua vida: a dedicação à música, a suavidade angelical do sopro do seu tenor, seu elo afetivo maior com o mundo e as pessoas. Um elo que continua vivo até hoje.