PHILIPPE BADEN POWELL ARRASA EM VOO SOLO

25 julho, 2012
Coluna do Luiz Orlando Carneiro 
JB, 7 de julho

Philippe Baden Powell nasceu há 34 anos em Paris, onde seu pai, o grande violonista-compositor Baden Powell (1937-2000), estava radicado. Philippe e seu irmão mais moço, Louis Marcel, passaram depois quatro anos em Baden-Baden, na Alemanha. Papai Baden foi tocar lá, adorou o nome, a calma e a beleza da cidade de onde se vê, por sobre o Reno, as terras francesas de Estrasburgo, e resolveu trocar o endereço parisiense por uma casa na estação de banhos (Baden) fundada pelos romanos no início da Era Cristã. Philippe e Louis Marcel herdaram do "velho" o talento musical que desenvolveram, desde cedo, na Europa, e mais tarde no Brasil. O primeiro é pianista, o segundo violonista. Quando ainda eram adolescentes apresentaram-se e gravaram com o papai, professor e guru.

Philippe Baden Powell
Esta breve introdução é para recomendar o recém-lançado CD solo de Philippe Baden Powell, o segundo álbum da série Piano Masters, da Adventure Music, já à venda na internet.

O virtuose, que teve formação erudita, sob a orientação de professores do quilate de Sônia Maria Vieira e Luiz Avellar, gravou o disco de quase 50 minutos, divididos em 13 faixas, em março de 2008, num Fazioli F-308 concert grand piano.
Para quem não sabe, os Faziolis, fabricados na Itália a partir de 1980, apenas cerca de uma centena por ano, são considerados os Roll-Royces dos pianos, com o endosso de celebridades como Martha Argerich, Alfred Brendel, Brad Mehldau, Martial Solal e Herbie Hancock.

O álbum começa com um Prologue, de menos de um minuto, insistente, ostinato, e termina com um Ending (2m40) especulativo, sem ponto de exclamação. No recheio, outras quatro composições do pianista: Frevo da sorte (2m20), desenho musical em claro-escuro, as notas graves percussivas em contraste com o fraseado melódico solto à la Ernesto Nazareth; The Meantime (1m40), com a mão esquerda sempre atenta às iniciativas da direita; Garfield (7m05), a peça mais longa, de intrincada harmonia, vibrante, polirrítmica; Vista Chinesa (5m15), brilhante composição que remete a Villa Lobos, tem até interpolações bachianas, mas não perde o swing.
De temática e concepção eminentemente jazzísticas, Philippe escolheu Round About Midnight (6m40), de Thelonious Monk, e Giant Steps (3m25), de John Coltrane. A composição de Monk, embora tenha melodia tão bela e hipnótica que é muito difícil reinventá-la a partir de sua redução a acordes de base, recebe tratamento totalmente inesperado, desabrochando aos poucos como uma fantasia em rubato. As cinco notas mágicas de Giant Steps são exploradas a fundo em termos de combinações policromáticas ainda mais out, com engenho e arte que remetem a Keith Jarrett e Chick Corea, duas influências admitidas por Philippe Baden Powell.
As duas faixas em homenagem à obra de seu inesquecível pai são as irresistíveis Consolação (3m30) e Choro para Metrônomo (3m05). A envolvente Loro (2m50), de Egberto Gismonti, é interpretada com muita animação. Canto Triste (4m15), de Edu Lobo, e Sou Você (5m), de Caetano Veloso, são os dois momentos mais delicados da seleção gravada por um músico de refinada técnica, que explora com muito bom gosto e apetite os recursos percussivos do pianoforte.