LÁ DO ALTO DO MORRO

16 julho, 2012
Lá do alto do morro, assim se intitula o novo trabalho do pianista Fabiano de Castro.
Iniciou na música aos 11 anos e desde então fez das 88 teclas seu ofício. Sua educação musical começou no Conservatório Estadual de Juiz de Fora, estudou harmonia, improvisação e arranjo no CIGAM e em 2000 partiu para Nova York para estudar no Harbor Conservatory for the Performing Art, e por lá teve a oportunidade de participar em diversos workshops na School of Improvisational Music com músicos como Ravi Coltrane, Steve Coleman, Uri Cane e Vijay Iyer.
Retornou ao Brasil em 2002 e acompanhou grandes nomes da nossa música popular e instrumental e lançou seu primeiro disco solo em 2004, Espaço Imaginário, pelo selo Funalfa, acompanhado pelo grupo Raspa do Tacho formado por Itamar Pereira baixo, Sintia Piccin sax, Priscila Brigante bateria e Liz Hanson percussão.

Como afirmou o crítico Matt Cibula, do All About Jazz - "Se você gosta de jazz divertido e bem executado, com um feeling apurado onde a liderança pode ser passada em qualquer momento para qualquer membro do grupo, então você tem que ouvir Fabiano de Castro".

Lá do Alto do Morro

Ao lado do contrabaixista Igor Pimenta e o baterista Bruno Iasi, Fabiano de Castro produziu todas as 11 faixas do álbum, que ainda conta com as participações mais que especiais dos saxofonistas Vinícius Dorin, Vitor Alcântara e João Paulo Barbosa e da trombonista sueca Karin Hammar.

Com a palavra, Fabiano de Castro -

GC: O piano é um instrumento completo, harmonicamente falando, e que permite um controle da dinâmica onde você pode tanto colocar sensibilidade e quanto imprimir intensidade na execução. Como o instrumento surgiu na sua formação musical?
FC: Isso é verdade! O piano é um instrumento muito completo. As possibilidades são infinitas, porém o seu domínio requer muita dedicação e um aprendizado contínuo.
O meu primeiro contato com o piano foi na minha primeira aula, aos onze anos, em Juiz de Fora-MG. Até então eu nunca havia encostado os dedos neste instrumento, foi paixão a primeira vista e nunca mais parei. Quando eu fiz quinze anos o meu pai entrou num consórcio para adquirir um piano e no segundo mês fomos sorteados. Felicidade total. Então estudei no Conservatório Estadual de Juiz de Fora por quatro anos e a minha curiosidade era muito grande e o universo da música popular me fez procurar outras fontes, assim, fui estudar no Rio de Janeiro com o pianista Breno Marques de Sá e no CIGAM (Curso Ian Guest de Aperfeiçoamento Musical).

GC: Voce morou no exterior, em New York, que é, e sempre foi, um berço do jazz. É uma escola e tanto aquele lugar, todas as tendências estão ali. Foi o jazz que o levou para lá?
FC: Com certeza! Quanto mais eu mergulhava no universo musical, mais eu conhecia o Jazz. Eu queria viver essa experiência de morar em NY, sentir aquela atmosfera musical que transformou a música em todo o planeta. Só de passear pelas ruas, entrar nos bares e conversar com as pessoas, você começa a sentir esta vibração. Fiquei dois anos lá e foi uma experiência muito importante não só na minha formação musical mas para minha vida. Participei de uma série de workshops da SIM (School for Improsational Music) com Steve Coleman, Vijay Iyer, Uri Caine, Ravi Coltrane, entre outros, que mudou completamente o meu modo de sentir e tocar música.

GC: Seu primeiro trabalho, "Espaço Imaginário", teve uma repercussão muito positiva no exterior, representando muito bem nossa música instrumental. Essa nossa fusão de ritmos realmente faz a diferença?
FC: A história do CD Espaço Imaginário começou quando eu voltei de NY e fui morar em São Paulo. Um dos primeiros shows que eu assisti foi o do Trio Curupira, com o André Marques, Ricardo Zohyo e Cleber de Almeida. Este show fazia parte de um projeto chamado Hermetismos Pascoais. Eu fiquei muito impressionado com a originalidade e musicalidade daquele trio, era um som muito contemporâneo, brasileiro e universal. Deste projeto criou-se uma orquestra da qual eu participei por quarto anos, liderada pelo Zohyo. Dentro dessa orquestra surgiu o grupo Raspa do Tacho formado pela Sintia Piccin, Priscila Brigante, Liz Hanson, Itamar Pereira e eu. Com esse grupo gravamos o projeto Espaço Imaginário, realizado através da Lei Murilo Mendes de Juiz de Fora-MG. O rico e diversificado universo da música brasileira serviu como fonte de exploração na concepção dos arranjos. O grupo durou pouco tempo, mas o resultado alcançado e a sua repercução foram muito positivas.
Entendo o jazz, hoje, como uma concepção musical que dá liberdade ao músico de interpretar, improvisar e criar, independentemente da linguagem musical estabelecida.

GC: Fale um pouco do seu novo trabalho, Lá do Alto do Morro e o grupo que o acompanha.
FC: O CD Lá do Alto do Morro é um projeto muito especial por vários motivos. São onze composições e eu acompanhei e liderei todo o processo de produção. Há dois e anos e meio venho trabalhando com dois grandes músicos e amigos, o baterista Bruno Iasi e o contrabaixista Igor Pimenta, e com eles formamos o trio que é a base do projeto. Surgiram, então, algumas oportunidades para eu apresentar o meu trabalho na formação de quarteto e/ou quinteto. Convidei o Vinícius Dorin, que sempre foi para mim um ícone da música instrumental, e ele abraçou o projeto na hora e acrescentou muita musicalidade e muita originalidade. É sempre uma aula poder tocar com ele.
Outro saxofonista que eu admiro muito é o Jota P.. Eu o conheci em Tatuí há uns 8 anos e ele já "quebrava tudo!" Foi um prazer tê-lo no CD e em vários shows que fizemos por aí.
Já o Vitor Alcântara foi um dos primeiros músicos que eu conheci em SP. Desde lá, nunca deixei de ser seu fã. Aliás, isso só aumenta quando eu ouço os seus solos, ele é muito talentoso e acrescentou muito neste CD.
Conheci a trombonista suéca Karin Hammar em Juiz de Fora há uns 4 anos. Sempre quando ela vem ao Brasil nós fazemos algumas apresentações em SP e poder tê-la neste projeto foi um prazer e uma honra. Ela é uma super compositora e instrumentista e conhece muito a música brasileira.

GC: De onde veio a inspiração para o nome do disco?
FC: Eu moro numa das casas mais altas do Morro do Querosene, lugar peculiar da Zona Oeste de São Paulo. Clima de cidade do interior no meio da metrópole, berço de grandes artistas que preservam e desenvolvem diversas formas de expressão da cultura brasileira. Tião Carvalho e Dinho Nascimento são alguns nomes que representam bem este lugar. A capa do CD foi inspirada nesta vista urbana que eu criei e produzi neste trabalho e é a vista lá da minha casa, cuja foto foi tirada pelo Guilherme Alvernaz, outro grande talento das artes visuais.

Fabiano de Castro

GC: Na sua formação em trio, é muito evidente a influência dos pianistas de jazz europeus, aquela atmosfera ECM. Você os tem como uma referência?
FC:
É muito bom poder tocar de trio. Eu, Bruno e Igor tocamos todas as semanas e estamos sempre procurando evoluir. Acho que o talento de cada um somado com o tempo de estrada juntos gera um resultado fantástico. Eu gosto muito dessa atmosfera ECM, mas também gosto muito dessa pegada dos ritmos brasileiros. Sempre levo músicas novas para o trio e falo o mínimo possível para extrair o máximo de criatividade de cada intérprete. Assim, a gente desenvolve o nosso jeito de tocar e o nosso repertório.

GC:  Há um pianista que você tem uma admiração em especial?
FC:  Por vários - Bill Evans, Chick Corea, McCoy Tiner, Oscar Peterson, Brad Mehldau, Vijay Iyer, Joe Calderazo, Kenny Baron, Írio Júnior, Cesar Camargo Mariano, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal e os não pianistas Vinícius Dorin, Wayne Shorter e Coltrane; e muitos outros músicos.
Tenho uma admiração muito especial pelo pianista André Marques. Ele sempre me impressiona, é muito talento e muita música concentrado em uma pessoa só.

GC : A formação clássica em trio - piano, contrabaixo e bateria - exige muito dos músicos pela forte interação de conjunto e pela intervenção de cada músico em colocar pontualmente harmonias e improvisos. Você pretende gravar nesta formação?
FC : Eu adoro essa formação e faço muitas gigs de trio. É um projeto que eu venho desenvolvendo aos poucos. É um desafio!

GC: Três discos por Fabiano de Castro.
FC: Difícil esta pergunta! Brad Mehldau, Live in Tokio;  Egberto Gismonti, Sanfona; e Fabiano de Castro, Lá do Alto do Morro…esse é muito especial!

Mais sobre Fabiano de Castro em  www.fabianodecastro.com

Obrigado Fabiano de Castro, e Sucesso.