RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES 2012 MARCADO PELA CHUVA

11 junho, 2012
Os 10 anos do festival de Rio das Ostras foi marcado pela chuva, que foi intermitente durante todo o evento. Uma pena, pois a cidade estava cheia, hotelaria com ocupação em sua totalidade e muita vontade do público em ouvir boa música.
E comprometeu os shows que são ao ar livre, principalmente o palco principal de Costa Azul que é situado numa área de camping e a combinação de grama, terra e agua fizeram muita lama, causando desconforto em acomodação e locomoção do público presente.

Não assisti a noite de abertura do festival, mas comentários dos amigos que lá estavam revelaram a surpresa da Big Band 190 formada por membros civis da corporação militar do Rio de Janeiro, que contagiou em uma apresentação com standards e arranjos próprios; Helio Delmiro, que optou pelo violão em vez da guitarra e ainda com a bateria de Rafael Barata; e Celso Blues Boy, que apesar de não tê-lo visto na noite de abertura, cheguei em tempo de assistí-lo no palco de Iriry na quinta-feira a tarde. Apesar do mau tempo, Blues Boy subiu em seu palco preferido e espantou a chuva, fez aparecer um tímido sol e mostrou que tem seu público muito fiel e é um verdadeiro ícone. Apesar da aparência fragilizada decorrente da sua luta contra um cancer, Blues Boy fez um show emocionante, muito pela empatia e idolatria que o publico tem por ele e pela sua história na guitarra blues-rock no Brasil. Tocou temas de seu último disco Por um monte de cerveja e seus clássicos como Marginal, Sempre Brilhará, Fumando na Escuridão cantado pelo público e encerrou citando o hino brasileiro e seu clássico Aumenta que isso aí é Rock´n´ Roll. Teve as participações mais que especiais de Jefferson Gonçalves e Joe Manfra e ao final Blues Boy cumprimentou efusivamente o público agradecendo a reverência.
Parti dali direto para a Tartaruga onde Mike Stern Romero Lubambo ainda passavam o som para fazerem um show arrasador no final da tarde em um dos palcos mais excêntricos do festival. Acompanhados pelo baixista Janek Gwizdala e pelo baterista Lionel Cordew, mostraram puro virtuosismo. Stern com sua inseparável Telecaster modelo Pacifica Yamaha e Lubambo de Strato, ambos plugados em 2 Fender Twin Reberb, certeza absoluta de muito som.
O mau tempo insistiu e atrapalhou a noite de quinta-feira. O grupo Plataforma C abriu a noite debaixo de muita chuva, mas deu seu recado com uma apresentação focada em standards da música brasileira com espaço para Bananeira (João Donato), Berimbau (Baden), Ponteio (Edu Lobo), Trenzinho Caipira (Villa-Lobos) e Vera Cruz (Milton).
Mauricio Einhorn seguiu acompanhado por Kiko Continentino piano, Jefferson Lescowitch contrabaixo e Clauton Sales bateria. Aos 80 anos, mostrou que ainda está em plena forma, apresentou temas próprios, destacou sua autoria no tema Batida Diferente e fez alguns standards, entre eles Autumn Leaves. Uma bela apresentação apesar da chuva, que dispersou um pouco a atenção do show.
E esta sinistra chuva atrapalhou a única apresentação mais jazz do festival, o pianista Kenny Barron, que fez um show espetacular. Barron trouxe o trompetista Michael Rodrigues como convidado especial, ele que esteve aqui ao lado da pianista Carla Bley quando ela apresentou seu fenomenal album The Lost Chords. No contrabaixo Kiyoshi Kitagawa e na bateria Johnathan Blake, que, literalmente, quebrou tudo. Blake, com sua grande estatura e com uma disposição pouco comum da bateria com os ton ton posicionados horizontalmente, deu destaque na apresentação desenvolvendo absurdamente a condução dos temas straight-ahead de Barron. Um show contagiante, com espaço para um belíssimo tema em piano solo, uma interpretação estonteante de My Funny Vallentine e o encerramento com Monk. Showzão!
Mudando a forma da noite, Michael Hill subiu ao palco para um show de Blues bem elétrico. Assisti o início da apresentação, que estendeu-se até as três da madrugada, mas mesclou rock, reggae e ainda teve a participação da cantora Lica Ceccato interpretando Georgia on my Mind.

Sexta-feira e mais chuva. Os palcos São Pedro e Iriry ficaram de fora da minha programação e o show do David Sanborn na Tartaruga foi cancelado pelo mau tempo, muito vento e maré alta. E a vantagem de estar no mesmo hotel dos músicos é ter a oportunidade de participar de uma jam super informal durante toda a tarde com o guitarrista Michael Hill e seu gaitista, desfilando blues e classic rock no melhor estilo violão e gaita e ainda com Lica Ceccato fazendo vozes.
Isso é um privilégio!
Mas a noite abriu sem chuva e o camaronês Armand Sabal-Lecco colocou fogo com uma super pegada slap, mostrando forte presença de palco e deu muito espaço para a banda, principalmente para o guitarrista Nir Felder, que desenhou ótimos improvisos e mostrou muita técnica, e o tecladista Barnaby McCall. Armand reverenciou Stanley Clarke, fez elogios a música brasileira e convidou Romero Lubambo ao palco para interpretarem dois temas. Destaque também para o percussionista brasileiro Gilmar Gomes.
Mike Stern e Romero Lubambo fizeram um show empolgante no palco Costa Azul. Assim como no palco da Tartaruga, Stern explorou muito o vocalize, abusou da dinâmica nos temas mais introspectivos e desenvolveu seus improvisos de forma muito intensa, realmente é um gigante. E Romero não ficou atras, surpreende quando abraça a guitarra. Mostrou que, além da excepcional técnica fingerstyle, tem pleno dominio do uso da palheta e fez solos absurdos. Ambos muito a vontade, brincaram, se divertiram, se homenageram e fizeram um show espetacular.
Seguiu a noite e, particularmente, o show do festival nas mãos de Duke Robillard, apesar da fina chuva que caiu no início da sua apresentação. Abraçado a uma guitarra sólida modelo Eastwood Airline, de fabricação canadense, mostrou uma técnica exemplar acompanhado por Bruce Bears no Hammond e teclados, Brad Hallen contrabaixo acústico e Mark Teixeira bateria. Fez um repertório abrangendo todas as escolas, jump blues, um denso e enigmático slow blues, arranjou tributos a B.B. King e T-Bone Walker, este numa bela interpretação de You Don´t Love Me, e criou uma atmosfera bem intimista com o standard If I Had You.
A noite de sexta-feira fechou em formato de um grande baile com a Big Time Orquestra. Performáticos, os componentes da banda empolgaram a plateia com seus irreverentes arranjos explorando as bases dos temas do filme Hawai 5 Zero e In the Mood (Miller); saí na interpretação de Hit the Road, Jack (Ray Charles).

Sábado cedinho choveu muito, mas dispersou ao final da manhã e novamente um tímido sol apareceu renovando a esperança de um dia normal. Assim, resolvi assistir a apresentação de Artur Menezes no palco São Pedro. Lá chegando desaba mais chuva, mas Artur não se intimidou e a frente de uma platéia colorida pelos guarda-chuvas iniciou uma espetacular apresentação e literalmente mandou a chuva embora. Abraçado a uma 335, mostrou muito carisma, passeou por toda a plateia, brincou com um garotinho presente fazendo uma citação fantástica do tema da Chapeuzinho Vermelho e Lobo Mau, desfilou blues em Messin´ with the KidLittle by Little (Junior Wells), soul em Everybody Needs Somebody (Solomon Burke), fez tributos à técnica de B.B. King e Buddy Guy e chamou o gaitista Jefferson Gonçalves para desenvolver a fusão de Bo Diddley com baião com base no tema título de seu primeiro disco, Early to Marry. Ainda entregou a guitarra para Kleber Dias acompanhar Jefferson numa super jam. Um super show e foi original até no bis onde ao interpretar Hendrix saiu do comum e mandou Wait Until Tomorrow.
É isso Artur Menezes, e voce já está eleito como nosso Mr.335!

Não fui assistir Roy Rogers no palco de Iriry e o show do Armand Sabal-Lecco foi cancelado na Tartaruga devido ao mau tempo. Mudança na programação do festival que incluiu Armand Sabal-Lecco no final da noite de sábado e alteração nos palcos do último dia passando Duke Robillard para o palco São Pedro e Sanborn e Cobham no palco de Iriry. Assim, teoricamente, entendi que o pianista Fabiano de Castro não se apresentaria mais e para minha surpresa ele antecipou a abertura da noite de sábado, mas só cheguei ao final de sua apresentação. E gostei muito do pouco que assisti. Estava em formação de trio com um som bem intimista, na atmosfera ECM e com muita influência dos trios europeus. Uma pena não ter chegado em tempo.
A noite seguiu com o grupo Cama de Gato representando, e muito bem, a nossa música instrumental, com destaque para o entusiasmo de Jota Moraes e a bela performance do baixista Andre Neiva.
Billy Cobham sobe ao palco com uma super configuração de bateria e faz uma apresentação muito técnica, acompanhado pela excelente Camelia Ben Naceur teclados, Christophe Cravero teclados e violino, o excelente Jean-Marie Ecay guitarra, Michael Mondesir baixo e Junior Gill na steel drum. Cobham mostrou-se muito à vontade e entusiasmado, alternou algumas cadências latinas, baixou a dinâmica para destacar o som dos teclados e violino e apresentou um repertório bem na linha fusion com muitos elementos de rock progressivo, em algumas passagens lembrou bastante o som do Ponty. Uma excelente apresentação.
Mas o esperado era David Sanborn, que surpreendeu com um repertório baseado em seus discos mais antigos abrindo o show com Chicago Song (Change of Heart, 87), Mapputo (Double Vision, 86) e Lisa (Hideaway, 79), temas que marcaram a todos que viveram a música instrumental naquela época, o que é o meu caso, e fez o show todo nessa linha. Aos 67 anos, Sanborn, extremamente magro, fez uma apresentação curta mas com muito groove e pontuações funkeadas suportados pela guitarra de Nic Moroch, o baixo de Ric Patterson, os Hammond e teclados de Ricky Peterson e a bateria de Gene Lake. Uma certa sessão nostalgia e prova a verdade como dita pelo maestro Daniel Barenboin - "a música desperta o tempo".
Roy Rogers subiu ao palco passava 1h da madrugada e debaixo de muita chuva, mas o público permaneceu no local em um cenário curioso entre muitas capas e guarda-chuvas. E realmente Roy Rogers dá um show de slide, tanto na guitarra double-neck quanto no violão folk eletrificado, pleno domínio da técnica e um super trio. Assisti a um início do show eletrizante, mas não fiquei até o fim.
É isso ! Ano que vem tem mais.