ENFIM JAZZ : BMW JAZZ FESTIVAL 2012

14 junho, 2012


O BMW Jazz Festival, em sua segunda edição, já se consolida como nosso principal evento no gênero. E a edição deste ano superou as expectativas e trouxe um elenco de primeira.

Pena que a agenda no Rio de Janeiro não tenha sido tão completa quanto em São Paulo, que teve ainda as presenças do trompetista Ambrose Akinmusire e dos Clayton Brothers e, lógico, uma apresentação gratuita, ao ar livre.



E os acordes comecaram em plena segunda-feira, que podia ter sido estendida para acomodar por mais tempo a apresentação do trio de Chick Corea, Stanley Clarke e Lenny White.
Assistir Corea e Clarke juntos é como a passagem do cometa halley ou um eclipse solar, não é sempre que voce vai ver isso tão de perto e ainda na véspera de Corea completar seus 71 anos, no palco, com direito a um "parabéns pra voce" de um Teatro Oi Casagrande lotado para 1 hora e 40 minutos de apresentação.
E foi a última apresentação do trio nesta turnê e um passeio pelo Return to Forever. Na abertura, três temas de vinte minutos cada iniciando com Sometime Ago/La Fiesta, Light as a Feather e o standard How Deep is the Ocean. Corea muito à vontade e em plena forma, tocou demais. E Clarke, em noite inspirada somente ao contrabaixo acústico, desenvolveu walkings maravilhosos, fez uso do arco, usou o contrabaixo como instrumento percussivo e improvisou absurdos. A interação do trio e espantosa e evidente e Corea respondia aos improvisos de ambos como em um diálogo de velhos amigos. Sensacional !
Ainda teve No Mistery, cujo album homônimo ganhou um Grammy na época (1975), e cujo tema foi intenso; e um suspiro de emoção e surpresa quando interpretaram All Blues. Romantic Warrior fechou a apresentação e, lógico, um bis com 500 Miles High.
Simplesmente espetacular !


A noite seguiu como grupo Ninety Miles e mudou um pouco a onda da noite, mas nem por isso menos espetacular. As noventa milhas que separam Cuba dos EUA, em analogia ao nome do grupo, realmente não são suficientes para mostrar a grandeza da apresentação do quinteto liderado pelo vibrafonista Stefon Harris ao lado de Christian Scott e David Sanchez. O show é muito mais vibrante que o disco e fazem muito bem a proposta de conectar as raizes caribenhas com o jazz. Scott e Sanchez deslocaram-se muito pelo palco e volta e meia pontuavam, a capela, os improvisos de Harris, do pianista Edward Simon, que, alias, improvisou pouco, e do excelente baterista Henry Cole, que deu um show a parte.
Gostei demais.


A noite de terça-feira prometia festa muito funk. E não por menos, os J.B. Horns Maceo Parker, Pee Wee Ellis e Fred Wesley representam a escola do estilo.
Na abertura, Trombone Shorty e sua elétrica banda. Fez 1 hora de apresentação, porém um show frio apresentando temas dos seus discos Backatown (2010) e For True (2011). Levantou o público das cadeiras na interpretação de I Got Woman (Ray) e de forma bem pesada mandou os standards St James Infirmary e Sunny Side of the Street onde levou ao delírio o público sustentando uma nota por alguns minutos com a técnica de respiração circular. Ao final, como é comum em suas apresentações, todos os músicos revezaram nos instrumentos.
Seguiu a noite com a apresentação mais esperada, Maceo Parker. Um verdadeiro showman, bem à vontade, dançando e brincando no palco. Afirmou que o jazz tem muito da alma funky e fez um breve improviso bem ao estilo mainstream em duo com o tecladista Will Boulware simulando um Hammond. Chamou Fred Wesley e Pee Wee Ellis separadamente ao palco e foram suportados por um super banda com o Parliament Rodney Curtis no baixo, o guitarrista Bruno Speight e o excelente Marcus Parker na bateria, filho de Maceo; ainda complementando os metais o trompete de Lee Hogans e dois backing vocals, entre eles a cantora Marta High, que fez parte do grupo original de James Brown.
Pegada funk-soul na veia e que só teve espaço para a balada Children´s World. Voltou para o bis com Let´s Get it On (Gaye) e um medley com Pass the Peas, Soul Power e Get up!.


Quarta-feira enigmática.
Charles Lloyd realmente é um gigante. Que estilo, que elegância, que sopro. Um apresentação memorável.
Ecos de Coltrane soavam com uma solidez impressionante e o pianista Jason Moran realmente "quebrou tudo", está tocando muito; incorporou freneticamente o estilo do piano de Monk e mostrou porquê é um dos pianista mais conceituados desta nova geração. Reuben Rodgers e Eric Harland completaram o quarteto e ambos também tiveram muito espaço para improvisos e nestes momentos Lloyd sempre se recolhia ao canto ou sentava-se no banco ao lado do piano. Largou o tenor pela flauta em um tema e fechou a apresentação com Forest Flower, seu clássico album.
Fiquei impressionado com o que eu ouvi. O show do festival !


E a noite encerrou com Darcy James Argue e sua Big Band Secret Society composta por 18 músicos, entre eles a trompetista Ingrid Jensen e o saxofonista John Ellis, este que esteve por aqui no festival de Ouro Preto acompanhando a guitarrista Kate Schutt.
A Big Band traz uma proposta muito particular, diferentemente do som cerebral da Maria Schneider ou da melodiosa Cinematique Orchestra. Produz uma intensa massa sonora, característica das big bands, e explora algumas tendências contemporâneas com o uso de drive e slide na guitarra e o piano Rodhes. Gostei da proposta do grupo cujo público parece não ter entendido muito visto que muitos deixaram a apresentação antes do final.