PEDAIS DE EFEITO HAND MADE: TARGINO

29 maio, 2012
Pedais de efeito são conhecidos equipamentos que alteram o sinal do som de um instrumento musical. Geralmente representam um grande desafio para o músico, na escolha do efeito específico para um determinado tipo de som, no domínio sobre esse efeito, na dinâmica e no timbre.

Historicamente, os primeiros efeitos foram produzidos em estúdio por volta de 1940 por engenheiros de gravação e músicos que começaram a manipular o audio para criar efeitos de eco e sons futuristas pouco comuns, inclui-se aí o próprio Les Paul. A ideia se desenvolveu e se estendeu para os amplificadores, que passaram a incluir circuitos de vibrato e reverb em seus equipamentos. E foi o transistor eletrônico que expandiu a criatividade e possibilitou criá-los em um formato pequeno.
O registro do primeiro efeito de guitarra com um desses pequenos equipamento foi o pedal Maestro Fuzz Tone, de 1962, cujo timbre ficou imortalizado com o riff de Satisfaction dos Stones em 1965.
E os anos 60 impulsionaram a febre dos pedais de efeito, principalmente com o revolucionário Cry Baby, conhecido também como Wah Wah, criado por Brad Plankett em 1966. A força do Cry Baby foi tão poderosa que revolucionou o som das guitarras e transformou a cultura musical americana.


Mas não importa o estilo, seja no improviso do jazz, no colorido do fusion, na rítmica do funk e do soul, no drive do blues ou na resposta de peso do rock, por tras desse pequeno equipamento plugado em seu instrumento há uma eletrônica pensada em forma de som.

E não se aplica limitadamente na guitarra, o uso destes recursos se estende aos baixos, teclados, instrumentos de sopro e percussivos.

Apesar dos inúmeros fabricantes de pedais de efeito em modo industrial, são os pedais hand-made que atraem cada vez mais músicos, feitos sob medida conforme a necessidade e/ou característica do som que querem produzir.


E um nome que vem se destacando na produção destes pedais é o Targino, residente em Quixadá, Ceará, que produz diversos modelos de pedal e já tem no seu catálogo músicos de expressão assinando seus equipamentos, entre eles o guitarrista Artur Menezes.

Vale destacar a história de empreendedorismo, determinação e paixão no trabalho de Alexandre Targino, que enriquece o valor musical do nosso país tornando acessível ter equipamentos com qualidade e personalizados. E ele nos conta um pouco dessa história e do seu trabalho de criação dos pedais de efeito nesta entrevista ao 33 Rotações.

Gustavo Cunha : Como começou seu interesse pela eletrônica associada com a música ?
Alexandre Targino : Sempre gostei muito de eletrônica. Desde moleque eu via meu amado pai Edimilson Targino consertando eletrodomésticos e a parte elétrica do seu carro e cresci fascinado por esse mundo. Daí veio o meu interesse pela informática e tecnologia e trabalhei durante muitos anos prestando assistência técnica. Com a música não foi diferente, cresci ouvindo boa música e vendo guitarristas tocando e sempre que eu tinha chance chegava perto pra saber o que eles estava usando de pedais, amplificadores e guitarras. Meu interesse pela música e por equipamentos de audio só aumentava, mas por outro lado tudo era muito caro e como eu não vivia disso e nem tinha dinheiro ficava inviável ter acesso a estes equipamentos. Foi quando conheci os pedais hand-mades, cheguei a comprar um clone do GT2 da Samsamp pois fiquei impressionado com a qualidade do pedal, que tinha até menos ruidos que o original, muito bom mesmo, e um dia eu resolvi abri-lo e percebi que se eu conseguisse encontrar os esquemas poderia me arriscar a montar um igual ou até melhor.
Apesar de nunca ter feito um curso, comecei a estudar muito assuntos relacionados a eletrônica, como um autodidata. Após um ano inteiro de estudos me senti apto a montar meu primeiro pedal.

GC :Como deu-se a construção deste primeiro pedal ?
AT: Em varios foruns o pessoal indicava que eu montasse um fuzz, inicialmente pela simplicidade do circuito, mas como sempre fui ambicioso resolvi partir pra algo mais complexo. Comprei todos os componentes e uma caixinha plastica pra montar um clone do SD1 da Boss. Fiz a plaquinha, fui soldando os componentes com muita atenção até chegar a esperada hora do teste. De primeira não saiu som nenhum, mas como eu estava muito ansioso percebi que havia invertido os fios da chave, soldei do modo correto e para minha surpresa o som saiu perfeito. Foi muito emocionante ver a minha primeira montagem funcionando com sucesso e a partir daí fui me aventurando em outros circuitos e obtendo mais conhecimento e sucesso em todos que eu tentava montar. Isso foi me deixando cada vez mais contente e confiante e poderia até se tornar uma outra fonte de renda pra mim, e o que é melhor de tudo é que podia me manter próximo do mundo da música que é algo que eu amo.  
O primeiro pedal que eu montei foi um Overdrive, que eu dei o nome de Patrizia's Overdrive. Uma homenagem a Patrizia, que é uma pessoa muito importante na minha vida e que acreditou no meu sonho e me dando total apoio, principalmente quando eu mais precisei pois nessa época eu perdi meu querido pai e ela foi um pilar para mim, a quem sou eternamente grato. E um detalhe especial para a arte - como ela é uma fã dos Beatles e do rock clássico, quis ilustrar isso no desenho do pedal.


GC: Há uma relação muito próxima em projetar os pedais de efeito com o conhecimento de música. Voce toca algum instrumento ?
AT: Toco guitarra e isso é algo que considero um ponto forte. Todos os pedais são fabricados a mão por um músico que entende de música, timbres, sonoridades ... e não por um robô chines.

GC: Fale sobre os pedais de efeito que voce fabrica ?
AT: Já possuo um catálogo de pedais bem interessante -
Drive, Overdrive; Distortion;
Delay, com uma sonoridade bem vintage e próxima dos clássicos analógicos;
Chorus, analógico e com algumas modificações para se obter mais velocidade e dar um efeito das caixas Leslie;
Compressor, mantém o equilibrio do sinal fazendo com que as notas soem com a mesma intensidade tornando-se ótima opção para acordes abertos e dedilhados;
Envelope Filter, conhecido como Auto Wha característico para guitarristas e baixistas de funk;
além de outros pedais como Bass Pré Amp, Fuzz, Tremolo, Phase, Wha Wha e Booster; e alguns experimentos que estão por vir, entre eles pedais valvulados.
Na nossa página voce encontra detalhes de todos os modelos.

GC: O importante num pedal de efeito é manter o timbre do instrumento adicionando novas texturas. A importância dos componentes utilizados para a fabricação é um diferencial. 
Conte-nos um pouco sobre o seu processo de construção.
AT: Como todo hand-maker, já utilizei diversos tipos de caixas e componentes como caixas plasticas, latas e caixa de chapa de ferro virada. Hoje uso caixas de aluminio que, além de mais leves, possuem um ótimo acabamento, não oxida e aterra muito bem o circuito deixando o pedal com o mínimo de ruído.
Também utilizo belos knobs importados de altíssima qualidade, leds de alto brilho para melhor visualização no palco e chaves 3PDT (true bypass) que não altera o timbre do instrumento enquanto estiver desligado. Na parte interna, procuro sempre deixar tudo o mais organizado e fixo para evitar curto circuito e fios quebrados.


GC: O verdadeiro reconhecimento do trabalho é ter os especialistas usando o produto. Assim ocorreu com o pedal Crunch Drive que foi batizado para o guitarrista Artur Menezes, hoje uma referência na guitarra Blues nacional. 
Como surgiu essa aproximação e fale dos outros artistas que utilizam os pedais Targino ?
AT: A primeira vez que tive o prazer de ver o Artur Menezes tocando foi há quatro anos no festival de Jazz e Blues que acontece durante o carnaval em Guaramiranga. Logo fiquei contagiado por estar ali vendo um cara muito seguro e carismático, que dominava muito bem o seu instrumento tocando um blues cheio de virtuosismo e feeling. Peguei o seu contato e logo começamos uma amizade atraves das redes sociais. Depois de aproximadamente uns quatro meses que eu já havia começado a montar pedais, o Artur me falou sobre a sua insatisfação em relação aos pedais que ele já havia utilizado, pois todos alteravam demais o timbre da guitarra deixando o seu som nasalado. Como eu já havia montado um Crunch Drive pra mim, resolvi fazer uns experimentos com ele, trocando componentes até chegar a um resultado que eu achava satisfatório. Montei tudo em uma caixinha de ferro coloquei um adesivo com uma foto do Artur e finalmente estava pronto o primeiro Artur's Crunch Drive. Mostrei o pedal para a minha namorada e ela sugeriu que eu presenteasse o Artur com esse pedal, e foi o que eu fiz. Para minha surpresa, o Artur ficou muito feliz e satisfeito pois ele havia encontrado o som que tanto procurava. Depois de quase dois anos utilizando o pedal, resolvemos firmar uma parceria para lancar esse modelo como o seu pedal Signature.
Além do Artur Menezes temos também outro nome de peso como nosso parceiro, o guitarrista Pilho, bacharel em Música e dono de um dos maiores institutos de guitarra do Ceará, o Guitar Trix. Ele também possui um pedal Signature chamado Pilho Lead Distortion, que já é sucesso absoluto entre os nossos pedais e em breve vamos mostrar um review desse modelo.

GC: Muitos músicos conseguem uma identidade muito particular em seu som e sempre há uma eletrônica por trás dessa assinatura sonora. Voce tem um som de algum músico ou mesmo alguma referência quando o assunto é efeito ? 
AT: Eu costumo dizer que minha referêncial musical vai desde o baião ao death metal (risos). Escuto o que considero boa música que, além de enriquecer meu vocabulário musical, me proporciona uma porção de ideias para novos experimentos. Mas posso dizer que o rock, sem duvidas, é minha maior referência. Caras como David Gilmour, Richie Blackmore, Eric Johnson, Steve Ray Vaughan, Dimebag Darrell, Eddie Van Halen, Eric Clapton, o nosso Faiska, entre outros, são alguns dos vários guitarristas que aprecio e afirmo que esses são verdadeiros gênios quando trata-se de utilizar efeitos.

Obrigado Alexandre Targino. Sucesso.

targinocustompedals.blogspot.com.br/

Assista o video do Artur Menezes falando sobre seu Signature Crunch Drive, by Targino -