NEUROCIÊNCIA APLICADA, O MÉTODO DAS SEIS CORDAS

04 fevereiro, 2012
Que o cérebro humano responde rapidamente ao treinamento musical, não há a menor dúvida. Oliver Sacks, neurologista que tem fascínio pela criatividade da mente, afirmou em seu livro Alucinações Musicais (Cia das Letras) que, hoje, os anatomistas teriam dificuldade em identificar o cérebro de um escritor ou um matemático, mas poderiam reconhecer sem hesitação o de um músico devido as conexões que se formam no cérebro nas áreas motoras, auditivas e visuoespaciais. Isso comprova que a música é tão importante não só para quem a faz mas também para quem a ouve.

O artigo abaixo é um relato do Dr. Gary Marcus, psicólogo, professor e aprendiz de guitarra, publicado no jornal New York Times. Ele lançou um livro intitulado Guitar Zero: The New Musician and the Science of Learning (Guitar Zero: os novos músicos e a ciência do aprendizado), em que relata sua experiência de aprender um instrumento musical sob a ótica da psicologia cognitiva. E cognição é exatamente isso, o processo de aprender que envolve atenção, percepção, memória, raciocínio e imaginação, elementos que, direta ou indiretamente, estão associados com a criatividade e que de alguma forma constituem o processo dos nossos modelos mentais.

Questionado sobre que métodos práticos são mais efetivos para que adultos aprendam a tocar um instrumento, ele revela que há muito pouca pesquisa científica sobre a questão, em parte pelo fatos dos próprios adultos andarem muito ocupados com outras atividades, mas cita alguns como praticar todos os dias, sem preocupação. Muitos dos estudos mostram que um estudo espaçado ao longo do tempo apresenta um aprendizado mais duradouro. E mais, não apenas praticar naquilo em que voce é bom, focar nas deficiências também é importante e esclarece que a melhor prática é a prática deliberada, na qual você desafia a você mesmo a tentar desenvolver novas habilidades ao invés de você ensaiar apenas aquilo que você sabe.
Aprender um instrumento, ou desenvolver qualquer habilidade complexa, leva tempo. Ressalta a importância de encontrar um bom professor, que seja paciente e perceptivo e que identifique suas fraquezas.
Ainda afirma que o melhor método é a imersão e diz que a janela de aprendizado não é tão bem amplamente definida como acreditava-se, é um declínio gradual, e muitos adultos realmente tem sucesso em aprender novas linguagens, como se fossem nativos.

por Bruce Headlam
fonte : NY Times
(tradução livre)

Aos 13 anos, idade em que a maioria dos garotos querem aprender a tocar guitarra, Gary Marcus decidiu que queria ser um cientista. Vinte e cinco anos mais tarde se tornou um dos mais renomados especialistas em psicologia cognitiva, com trabalhos publicados e três livros de interesse geral sobre a mente humana e uma posição na Universidade de Nova Iorque sobre linguagem e música.
Para qualquer adulto, aprender uma nova linguagem ou um instrumento pode ser uma experiência terrível. Para um cientista cognitivo, pode até  levar a depressão. O ser humano tem na infância uma janela para adquirir facilmente determinadas habilidades e esta janela fecha-se rapidamente. Depois há a questão da habilidade inata, enquanto nenhum gene pode explicar Beethoven ou Yo-Yo Ma, Dr. Marcus acredita em talento natural e no seu caso ele não tem nenhum.

Apesar das dúvidas, ele permitiu a si mesmo dedicar-se durante 1 ano em praticar um instrumento, armado com livros, uma guitarra acústica Yamaha que custou-lhe 75 dolares e uma coisa que muitos estudantes de música adultos tem que se proporcionar - um ano sabático. Três anos mais tarde ele relata esta sua viagem em um novo livro - Guitar Zero: The New Musician and the Science of Learning (Penguin).
Como outros livros do gênero, World in Six Songs: How the Musical Brain Created Human Nature (J.Levitin) e Musicophilia (Oliver Sacks), Guitar Zero investiga a interseção entre a neurociência e a música.
Mas a discussão aqui é a própria frustração do Dr. Marcus em aprender guitarra. É o tipo de livro onde Steven Pinker, seu mentor, faz uma mistura de K. Anders Ericsson, psicólogo que escreve sobre a teoria do conhecimento, e Tom Morello, guitarrista do Rage Against the Machine.

Vestindo uma jaqueta preta e camiseta de cor azul brilhante em seu escritório em NY, Dr. Marcus, 41 anos, pode não parecer um integrante do Rage Against the Machine, mas também não pareceria um estranho em um grupo de new wave dos anos 80.
"Você poderia perguntar, de uma perspectiva evolutiva, por que alguém toca música em primeiro lugar. Eu não acho que a música seja uma característica essencial do cérebro, é uma habilidade difícil. Então por que nós a fazemos ?", disse ele, embora na verdade você tenha que fazer tantas perguntas a ele e ele mesmo coloca outras tantas em si mesmo.
Dr. Marcus cresceu em Baltimore, adorava escutar os discos dos Beatles e de Peter, Paul and Mary dos seus pais, mas não tinha muita coordenação devido a uma restrição de mobilidade e nem mesmo era capaz de usar um balanço de brinquedo em um playground.
Eu acho que tem algo a ver com meu cerebelo”, disse ele. Afinal, foi reprovado em um teste de aptidão para a banda da escola e desencorajado a deixar o tamborim, seu instrumento na época.
Cinco anos atras ele questionou um amigo cientista, Dr Levitin, ao mostrar a ele alguns acordes. “Seu tempo estava fora do ritmo e disse a ele para praticar usando um metrônomo”, disse Dr.Levitin.
Mas Dr. Marcus não conseguia manter o ritmo e podia haver uma explicação neurológica, uma forma de arritmia musical. Agora, mesmo o tamborim estava fora de questão.
Eu sempre pensei que a música não era algo pra mim, mas fui obrigado a tentar”, diz ele, desenhando um pequeno gráfico em um notebook – o “x” representando o tempo e “y” a habilidade musical. “Aqui é Hendrix”, disse desenhando uma linha em 60 graus, então traçando o eixo “x”. “Pensei que fosse uma linha tênue”. Mas como um cientista, era muito interessado nos mecanismos compensatórios: como o cérebro pode essencialmente se reprogramar para compensar déficits por uma falha, trauma ou mesmo um senso inexistente de ritmo. Talvez com treinamento seu córtex pré frontal poderia realizar o que o cerebelo não poderia.

O que finalmente o estimulou não foi ver Bruce Springsteen ao vivo ou ouvir as “Goldberg” Variations. Foi um vídeogame chamado Guitar Hero, que recompensa os jogadores ao pressionar os botões corretos no tempo com uma música gravada. Dr. Marcus era terrível no início, mas por pura repetição ele melhorou o suficiente para pensar que talvez o ritmo poderia ser aprendido. Mas guitarras de verdade, ele estava frustrado em aprender, não foram projetadas por engenheiros de computação.
Comparado aos controles do Guitar Hero, sua guitarra Yamaha era pesada e incômoda. "A escala musical não é perfeitamente linear. Pensando rápido – qual um outro nome para C flat ?"
E a guitarra tem as mesmas notas em diferentes frets ao longo de diferentes cordas. “Isso é algo que o cérebro não quer tratar. Não há uma relação um para um sobre onde as notas estão. Voce tem todos esses traços de memória que interferem um nos outros”, disse ele.
Ele temia que sua janela tenha se fechado, mas com a prática diária notas simples se tornariam escalas e suas pequenas mãos se tornariam fortes suficientes para formar os acordes. “Foi gradual e por partes. Ele tinha que pensar na batida e descobrir isso de forma analítica”, lembra sua esposa Athena Vouloumanos, uma neurocientista e professora assistente da Universidade de NY.

Três anos mais tarde, sua prática  é agora destinada quase que exclusivamente a improvisação. Na festa de lançamento do livro Guitar Zero, que também teve um mini concerto, e foi realizada na frente de alunos e amigos da Universidade, Dr. Marcus foi acompanhado por Terre Roche, uma professora de música e integrante do grupo vocal Roches, e improvisaram em uma escala que tinha aprendido naquela manhã. Sobre uma simples progressão de acordes, ele solava as notas da guitarra fluentemente e com claro senso de direção, sempre repousando em um acorde ao fim de uma frase. Não foi um vôo perfeito mas ele também não colidiu com as paredes.
Depois, Roche, que é especialista em ensino para adultos, disse – “Eu vejo muito medo nos adultos, medo de parecer bobo, medo de simplesmente sentir - por que não comecei mais cedo ?”.
E Dr. Marcus foi muito franco sobre suas deficiências – “nós fizemos muito e trabalhando devagar, o que felizmente ele gostava de fazer”, disse ela. Mas ele não tinha interesse em aprender uma canção em particular. Nem tentou tirar os truques que os novatos tanto dependem lendo as transcrições e licks de Chuck Berry e Eric Clapton, e ele pode ser o único guitarrista amador vivo que não toca espontaneamente Blackbird sucessivamente.
Eu necessito muito da cognição. Eu quero saber como a guitarra funciona. Muitas pessoas são do tipo mostre-me estes riffs de Hey Joe. Eu não sou deste tipo”, disse ele.
Estas duas abordagens - aprender escalas e aprender Hey Joe – ilustram modos diferentes de processo mental que estão no coração de Guitar Zero.  Sobre uma mão está o pensamento abstrato, basicamente um kit de ferramentas que podem ser aplicadas em uma nova situação. A música atonal, que depende de uma sequencia estrita de notas, pode ser o melhor exemplo. Do outro lado está o material que adquirimos e que criamos como base de conhecimento.

Dr. Marcus está particularmente interessado em como a mente humana alterna entre essas duas abordagens. Como um cientista, ele dá peso igual a ambas, mas como músico ele claramente prefere optar pelos riffs.
Como muitos músicos, ele quer mover além de ambas as abordagens e tocar pela emoção ou, como ele diz, do tronco cerebral. “Eu ainda não sou analítico em muitos momentos, não estou certo se há uma limitação minha como músico ou ser humano”, disse ele.
Nesse meio tempo, há outras compensações. Ele mudou sua pesquisa da linguagem para a música, desenvolveu vários aplicativos para iPad (incluindo um para improvisação) e ensina uma matéria na Universidade de NY chamada Guitar Hero : Música, Video Games e a natureza da Cognição. Ele mesmo admite apreciar heavy metal para abraçar escalas complicadas. “Eu amo Stairway to heaven agora”, diz ele. E seu ritmo melhorou ao ponto de ser elogiado em sua dança durante um casamento há alguns meses. “Eu não sou nada demais, mas para um acadêmico acho que eles ficaram razoavelmente impressionados”, disse ele.