CONFESSO QUE OUVI : 71 CRÔNICAS HARMONIOSAS SOBRE JAZZMEN E SEUS DISCOS

12 fevereiro, 2012

Que o site Jazz+Bossa+Baratos Outros é o ponto de encontro mais jazz da internet em lingua portuguesa, ninguem tem mais dúvida. E o dono deste espaço, nosso querido colega Erico Cordeiro, é também autor do livro Confesso que Ouvi, e recebeu das palavras de Luiz Orlando Carneiro o reconhecimento deste belo trabalho escrito, resultado de suas audições e viagens interpretadas por histórias, poemas e contos que refletem o universo de cada músico em foco.



Jornal do Brasil, 11 de fevereiro
por Luiz Orlando Carneiro

Confesso que só recentemente fiz uma prazerosa viagem pelo planeta jazz, seguindo os caminhos traçados por Érico Renato Serra Cordeiro no seu livro Confesso que ouvi (Ed. Azulejo, 2010). São 392 páginas de prosa escorreita e harmoniosa que reúnem 71 crônicas de rico conteúdo histórico-crítico sobre músicos e registros importantes do jazz – famosos, menos famosos ou simplesmente obscurecidos. O autor é um culto jazzófilo que concilia seu hobby de blogueiro (Jazz+Bossa+Baratos Outros) com o ofício de juiz trabalhista no Maranhão e — nos últimos três anos — com o mandato de presidente da Associação dos Magistrados Trabalhistas daquele estado (Amatra XVI).

No prefácio de Confesso que ouvi, o também catedrático Pedro Apóstolo Cardoso anota que o seu diferencial “reside no fato de que as obras sobre músicos de jazz existentes no mercado ou são livros totalmente referentes a um único músico, ou então são demasiadamente sucintas sobre muitos músicos em um mesmo livro”. E arremata com precisão: “Érico aprofunda-se na história e na música de cada artista focado, escolhendo uma gravação-síntese do mesmo para, didaticamente, apresentá-lo ao leitor”.

Tome-se, por exemplo, o capítulo O crisântemo e o baobá (pág. 42), dedicado a Charles Mingus. A “gravação-síntese” a partir da qual é focado o gênio expressionista do jazz não é Pithecanthropus erectus (1956) ou Mingus ah-um (1959), mas o raro e esquecido disco East coasting by Charles Mingus  (LP original Bethlehem, 1957), no qual, segundo o autor, “o baobá Mingus e o crisântemo (Bill) Evans atuam aqui de forma tão harmônica e integrada que parecem ter sido feitos para viver juntos”.

A crônica sobre o pianista Bud Powell tem como título O sol sombrio: Genialidade e loucura se entrecruzam na vida e na obra de Bud Powell. E o registro fonográfico muito bem escolhido é Bud plays Bird (Roulette, 1957-58), no qual o pianista interpreta em trio a temática de Charlie Parker, o maior dos “founding fathers” do jazz moderno. “Dois perdidos nas noites sujas de Nova York, Bud e Bird se irmanam como siameses trágicos nesse disco seminal, que revela o quanto a obra de um se reflete na de outro”, escreve Cordeiro (pág. 28).

Outro aspecto particularmente notável do livro é a “ressurreição” de jazzmen não devidamente reverenciados, underrated, tais como Johnny Coles (1926-97) — aquele trompetista de “sonoridade econômica”, de um profundo lirismo, solista de Out of the cool, obra-prima de Gil Evans, e que viveu à sombra do contemporâneo Miles Davis. Ele e o seu antológico álbum Little Johnny C (Blue Note, 1963) recebem uma carinhosa “overdue ovation” (Johnny Coles: O acendedor de lampiões, pág. 218).

Muitos outros grandes músicos de culto restrito aos experts merecem o mesmo tratamento, e vale a pena citar alguns deles :
Mal Waldron (1925-2002), O pianista absoluto (pág. 30), em geral lembrado apenas como sideman de Mingus (1954-56) e, depois, como fiel escudeiro de Steve Lacy; Booker Ervin (1930-70), “saxofonista absolutamente inclassificável” no universo do jazz, segundo o autor, que traça o seu perfil a partir do álbum The freedom book (Prestige, 1963), em Os emocionantes escritos do livro da liberdade (pág 38); o primoroso saxofonista tenor francês Barney Wilen (1937-96), personagem da crônica O solitário concerto que valeu por uma vida (pág. 72), que destaca a atuação do então jovem rising star integrando os Jazz Messengers de Art Blakey (com Lee Morgan e Bobby Timmons) na inesquecível trilha sonora de Les liaisons dangereuses, o nouvelle vague cultde Roger Vadin; o sax alto Charles McPherson, ainda ativo aos 72 anos (Tocando com Parker 30 anos depois de sua morte, pág. 377); o sax tenor Eddie Lockjaw Davis (1922-1986), em O elogio da testosterona (pág. 352).