TODD SHARPVILLE: DEIXE A LUZ DA VARANDA ACESA

17 dezembro, 2011
Quando eu era garoto eu costumava tocar para impressionar. Hoje, eu toco para me expressar. Minha sanidade mental depende disso.
Assim se define o guitarrista inglês Todd Sharpville.

Teve como mentor o californiano Joe Louis Walker, cuja amizade impressionou o jovem bluesman fazendo-o entender o idioma musical, como ele mesmo lembra -
Hoje, eu ainda ouço um pouco de Joe em todo lick que eu toco, um músico com sua própria linguagem e que me ensinou importantes lições no meu desenvolvimento, em como ser eu mesmo. Joe ensinou a mim e a um monte de crianças ao mesmo tempo naquela época, e eu sinto-me orgulhoso de ter sido uma delas; tiro meu boné  para ele até o fim da minha vida.

Sharpville ainda faz reverência a outros heróis do Blues como T-Bone Walker, Magic Sam, Hubert Sumlin, Freddie King, Peter Green e Lightnin' Hopkins; e não se limitando ao estilo traz os nomes de Buddy Holly, Eddie Cochran, Dylan, Tom Waits, Lennon, McCartney e Willy Nelson.

Começou a desenvolver sua musicalidade cercado pelo cenário Blues londrino. Foi inspirado por uma gama de guitarristas que compartilhavam os palcos em jams nos clubes locais, como Station Tavern, Dublin Castle e o lendário Marquee Club, este que foi seu primeiro palco como artista solo.
Sua carreira musical iniciou em 94 quando assinou com o selo britânico Red Lightnin Records. O dono, Peter Shertser, era conhecido pelo catálogo que incluía John Lee Hokker, Muddy Waters, Peter Green e Buddy Guy, e ficou fascinado pelo estilo de Sharpville. Seu primeiro álbum, "Touch Of Your Love" (1994, Red Lightnin Rec) foi gravado em um equipamento multi-track valvulado vintage dos anos 50, no Bryn Derwyn Studios, em North Wales, um disco raro de se encontrar. A Red Lightnin cedeu a licença deste material para vários outros selos adicionando a música de Sharpville em diversas coletâneas.
"Touch Of Your Love" foi álbum premiado em 94 como Best Album no British Blues Awards e Sharpville como Best Guitarrist em 95, promovendo uma extensa turnê pela Europa e EUA para divulgação do trabalho.
E por incrível que pareça, Sharpville lembra com tristeza esse período – “Estava muito chateado pelo fato da gravadora ter cedido minha música sem minha permissão. Eu era muito jovem e não tinha muita noção das coisas. Era muito imaturo. Eu queria mais tempo antes de ser exposto dessa forma e a gravadora não respeitou isso. E mais, o guitarrista da minha banda, Roger Mad Dog Cohen, contribuiu com muitas das músicas e nunca recebeu crédito, além de seus excelentes solos. Acredito que eles queriam manter o foco em mim, mas isso é uma das piores coisas para um músico, não quero que isso aconteça de novo.”

Até o início de 2000, Sharpville foi regularmente convidado para ser base de muitos artistas americanos, muitos deles que tinham sido referência quando criança e aí incluidos Hubert Sumlin, Byther Smith, Chuck Berry e Ike Turner, ganhando o respeito deles. Ainda durante os anos 90, Sharpville foi a guitarra da cantora Dana Gillespie, com quem gravou cinco álbuns e excursionou ao redor do mundo.
Apesar das dificuldades e problemas contratuais com sua gravadora inicial, em 2001 volta a cena com disco novo, "The Meaning Of Life" (2001, Universal), com vários convidados entre eles Mick Taylor, Snowy White, Eugene Bridges e ícones pop dos 70 como Leo Sayer. O álbum o consolidou como compositor e a turnê abriu portas para o Legendary Rhythm & Blues Cruise nos EUA, o que há de melhor no cenário Blues americano.
O ano de 2004 marcou a vida pessoal de Sharpville com o fim do seu casamento e o início de uma luta judicial para poder ter contato com os filhos, o que o levou a uma internação por um mês com um diagnóstico de depressão. Mas as dificuldades foram superadas e aos poucos voltou ao cenário musical com produção e criação, o que é mais importante, e participando de gravações e abrindo concertos para o lendário Bo Diddley e Joe Cocker. Em 2007 foi convidado por Joe Louis Walker para participar do álbum "Witness To The Blues" (2008, Stony Plain Rec), cuja gravação os levaram ao estúdio de Duke Robillard em Rhode Island, tornando o anfitrião um verdadeiro fã de Sharpville propondo que ele gravasse seu próximo disco em seu estúdio.

Robillard produziu o álbum duplo intitulado Porchlight (2010, MiG), justamente num momento em que Sharpville encontrava-se no meio de um intenso processo criativo.
Os músicos que o acompanham neste registro são na maioria da banda de Robillard - Mark Teixeira bateria, Jessie Williams baixo e Bruce Bears teclados e uma seção de sopros formada por Scott Aruda trompete, Mike Tucker sax alto, Doug 'Mr. Low' James sax barítono e Carl Ouerfurth trombone, além das participações especialíssimas da harmônica de Kim Wilson, de Joe Louis Walker e de Duke Robillard.
São 15 temas, 14 deles autorais e 1 interpretação de Shel Silverstone, If That Ain’t Love What Is.

Porchlight concorreu na categoria British Blues Album em 2011 no British Blues Awards (o premiado foi Oli Brown com o album Heads I Win, Tails You Lose). É um trabalho com uma pegada mais enérgica que "The Meaning Of Life", mas sem perder as influências do Soul, do R&B e com algumas passagens em Slow Blues realmente interessantes. Sharpville é uma fã das Fender e faz pouco uso de efeitos, dando uma sonoridade mais limpa no seu registro.

www.toddsharpville.com/