PAT METHENY FALA SOBRE WHAT´S IT ALL ABOUT

30 novembro, 2011
Uma entrevista com Pat Metheny publicada na Acoustic Guitar Magazine em que ele fala sobre seu último e espetacular disco What’s It All About.

Sou suspeito pra falar, mas sem dúvida nenhuma Metheny é gênio !

What’s It All About é um disco de violão solo, o terceiro neste formato em sua extensa discografia, e é uma viagem instrospectiva sobre temas que foram muito populares nos anos 60 e 70 nas vozes de Lennon e McCartney, Carpenters, Carly Simon, Paul Simon e Burt Bacharat e todos os temas tem uma roupagem muito particular, em especial a mais surpreendente, impressionante e gótica versão de Garota de Ipanema do nosso maestro Jobim.
Isso sim é inovar !
Metheny diz que o disco é inteiramente de Linda Mazer, sua luthier. Todos os instrumentos tocados no disco foram feitos por ela, diz ele  - “Linda se entrega de paixão em seus instrumentos, eles são fantásticos  e são como parte de mim agora.

O destaque é o violão barítono, afinado com os mesmos intervalos de um violão comum, de baixo para cima A D G C E A. Sobre as cordas utilizadas, as sexta e quinta cordas são La Bella Bronze Wound (.065 and .056 respectivamente), as duas cordas do meio são afinadas uma oitava acima do que o normal e são D’Addario Bright Wound .022 (quarta corda) e D’Addario Plain Steel .016 (terceira corda), e as cordas mais altas são .026 and .017, também D’Addario Plain Steel. O instrumento tem a escala longa de 28.937 polegadas, a escala padrão tem 25.5 e isso faz o espaço entre os traste maior que o violão comum, o que exige maior esforço para a mão esquerda. E tão desafiador também para a mão direita devido às cordas pesadas usadas para o baixo, o que também exige das unhas.
Diz Metheny -
Tocar com dedos sempre foi um desafio para mim. Há 10 anos quando estava em turnê com o contrabaixista Charlie Haden, eu estava lutando contra meus dedos, aí apareceu um cara chamado Carlos Juan, de Stuttgart, Alemanha, que me abordou após um dos concertos dizendo ter percebido que eu estava tendo problemas e me disse que estava fazendo um produto para músicos flamenco denominado Power Nails (http://www.carlosjuan.eu/index.php?id=36); comecei a usar o produto e isso realmente mudou minha vida, é um produto feito de um material acrílico onde você consegue obter o melhor som do instrumento e sem isto hoje não seria possível tirar o som que eu faço”.

por Mark Small
(tradução livre)

Acoustic Guitar : Voce toca o violão barítono exclusivamente em seu novo álbum. O que o levou adotar este instrumento ?
Pat Metheny : Eu comecei a usar este violão na gravação de One Quiet Night há 10 anos. É um instrumento feito pela luthier canadense Linda Manzer e quando eu o vi e nele toquei os primeiros acordes foi maravilhoso. Me lembrou um garoto, Dr. Ray Harris, da minha cidade natal, que era um cara excêntrico mas brilhante, quiroprático, inventor e guitarrista de jazz. Ele construía estranhas guitarras em sua garagem e uma delas tinha dois braços, o de baixo era parcialmente um baritono com as cordas baixas afinadas uma quinta abaixo e as duas cordas mais altas afinadas uma oitava. Lembro quando o peguei e toquei  e eu, ainda garoto, pensei – “uau, fantástico!”
Eu apostei no violão barítono quando fiz One Quiet Night. Então eu tirei as duas cordas do meio do violão e coloquei cordas mais altas, simplesmente o som abriu e toquei livremente por quase seis horas, foi quando surgiu o material do disco.  Nos últimos dez anos eu toquei o barítono em todos os concertos que fiz, e foram milhares de gigs. Hoje eu realmente entendo este instrumento.

AG : O que o levou a gravar cover de canções famosas ?
PM :  No ultimo ano fiz mais de 150 concertos tocando a música que eu escrevi para o disco Orchestrion. Era uma música complexa e ainda a gravação com o trio que fiz antes deste trabalho, Day Trip, que tinha todo tipo de coisas e antes disso teve The Way Up, um longo tema de 1 hora de duração. Os últimos anos foram um período muito intenso para mim em termos de composição. Em diversas passagens de som eu sacava uma versão de um ou outro tema e as pessoas diziam – “... você devia gravar isso algum dia”. E então foi feito. What´s It All About foi feito de forma muito similar a One Quiet Night, na minha casa. E essa é exatamente uma das maravilhas do mundo moderno, a facilidade de fazer gravações 24-bit, 96 Khz com bons microfones.

AG : Do jeito que você toca o violão barítono, parece que  as melodias das canções estão sobre as cordas do meio do violão. Isso transforma a forma como você pensa a música ?!
PM :  É engraçado como isso funciona. É um pouco como um ukulele ou um banjo de cinco cordas onde as há notas altas próximas a parte de baixo do instrumento, e o meio já é a parte superior.
Eu penso que o barítono é realmente como as três partes de um quarteto de cordas - voce tem o violino representado nas cordas do meio, a viola nas cordas mais baixas e o cello nas cordas mais altas.
Na minha cabeça, eu penso como se estivesse tocando os três ao mesmo tempo, como se cada deles fosse de duas cordas.
As cordas abertas são realmente essenciais para fazer a música acontecer. É divertido explorar porque nós sabemos que em um seis cordas convencional as cordas altas E e B apresentam oportunidades em termos de orquestração. Se você tem a corda E aberta e move-se ao redor dela, você pode obter efeitos extraordinários. Com o barítono há quatro notas altas que podem soar sobre outras coisas e isso abre um leque de possibilidades, pode-se ter vozes que você não teria numa afinação convencional e pode-se combinar com outras cordas e dar uma função de baixo, um peso que não existe no violão convencional exceto na pequena faixa entre o G e E baixos. O barítono oferece e expande esse conjunto de possibilidades, lógico que com limitações mas é uma divertida mistura de coisas.

AG : Falando em sua versão de Lonely Woman de Ornette Coleman, do álbum Rejoicing de ’83, foi aí que voce começou a tocar temas de jazz em violão acústico ?
PM :  Definitivamente. Aquele momento foi um avanço real para mim. Minha relação com o violão acústico emergiu muito tarde em meu desenvolvimento musical. Eu mesmo não pensava em ter um violão acústico nos anos 70.

AG : New Chatauqua, de 79, foi sua primeira incursão séria em tocar violão acústico ?
PM : Na época de escola e mesmo durante a gravação de Bright Size Life (75) não pensava em tocar acústico. Linda Mazer me mostrou em 82 o violão que eu usei em Lonely Woman. Eu não conhecia muitas coisas, tipos de som e balanceamento que já existiam. Abriu-se um mundo para mim e ao longo do tempo eu também comecei a tocar violão com cordas de nylon na gravação de Travels.  Daí meu lado acústico emergiu.  Mas a dura realidade no jazz é que violão acústico sem captadores ou microfones tem uma aplicação muito limitada por causa da pequena faixa dinâmica dos instrumentos. Problemas sobre dinâmicas em instrumentos são muito comuns, então por isso eu sempre fui um adepto do lado mais elétrico. Para esta gravação, tão acústica quanto, eu ainda pensava muito sobre que microfones usar e como usá-los. Todos aqueles elementos fazem parte de como fazer do violão acústico uma plataforma viável para mim em meu dia a dia como músico. Eu passo muito tempo atento a microfones, captadores, cordas e assim por diante.

AG : Voce começou tocando com os dedos tão bem quanto com palheta quando você tocou violão ?
PM: Sim. Desde o início eu estava aprendendo temas de bebop  e bossa nova. Eu sempre amei aquele estilo, então eu acredito que minha conexão com modo de tocar com os dedos realmente vem mais da bossa nova do que a música clássica ou qualquer outra coisa.

AG : A música folk foi uma influência para você ?
PM: Eu realmente admiro Paul Simon. Quando eu comecei a tocar, lembro de ler e estudar uma análise de sua técnica de tocar em revistas especializadas. Eu sempre fui um grande fã dele, e claro que de James Taylor também.

AG : Fale sobre o seu dedilhado. De onde vem os elementos que fazem seu estilo ?
PM:  Minha primeira experiência com o instrumento foi no acampamento, sentado ao redor de uma fogueira com as pessoas tocando canções como Michael, Row the Boat Ashore.
Guitarras são tudo pra mim, são fantásticos os tipos de ritmos, harmonias. Na época do New Chatauqua eu estava convencido que não se usava muito o dedilhado na forma do jazz, havia um pouco disso no toque de Gabor Szabo mas ninguém explorou o dedilhado em um forma rítmica  como tocar um um baterista como Jack deJohnette. E isso é o que predomina no álbum 80-81.
Desde o início, antes que eu pudesse tocar qualquer coisa, eu usava do dedilhado e eu gosto de fazer isso.
Neste novo disco isso fica representado na faixa Pipeline. Os primeiros três temas que aprendi a tocar foi Pipeline, um tema do filme Peter Gunn, e um tema que pareça ser único – Girl from Ipanema. Estas gravações foram duas das três quando eu comecei a tocar e não é coincidência que ambas são interpretações de suas versões originais. Em geral, as interpretações dos temas neste disco são mais poéticas que as originais.

AG : Particularmente, a mais próxima do original é “And I Love Her”
PM:  É uma bela versão tocada com cordas de nylon, aliás é a única do disco tocada com nylon. Há vários temas neste disco que toquei muitas vezes de diferentes formas. Voce tem que ter um motivo para tocar uma música como esta. Sempre pensei em And I Love Her como um veículo para improvisação, você pode fazê-lo sem tocar a melodia e as pessoas saberão que canção é. Isso é uma grande qualidade em qualquer standard.

AG : Provavelmente o tema mais desconstruído neste disco é Girl from Ipanema. O que o levou a fazer a introdução em andamento tão lento ?
PM:  É um tema muito manjado quando você pensa em todos os que foram sucesso nos últimos 50 anos. Não acho que há qualquer tema que seja tão próximo em termos de complexidade. Sempre pensei que havia um conjunto de mistérios neste tema que realmente não tinha percebido. Pode parecer excêntrico, mas eu procurei manter a linha da canção. E mais, se você vai tocar Girl from Ipanema desta forma, é melhor que você a veja de varias perspectivas.  Por outro lado, o jeito que a toquei  é algo que faço com muitos temas ultimamente quando eu realmente não estou tocando a forma real da canção. Quase como uma abordagem a la Ornette Coleman quando você toca a forma e o sentimento do tema. Se eu senti que tinha que fazer assim, simplesmente fiz.
Há um pouco desta aboragem no tema da Carly Simon, That’s the Way I’ve Always Heard It Should Be. Há um ponto onde comecei pensando sobre uma coisa e fui em outra direção. Uma das mais belas coisas de tocar solo é que você pode fazer isso, a liberdade é a melhor parte do ponto de vista de improvisação.

AG : Os temas deste disco realmente revelam sua forma de compor e tocar ?
PM:  São temas realmente formatados por mim. Se você perceber Betcha by Golly Wow e então escutar Omaha Celebration do Bright Size Life, há mais do que uma pequena influência aí.
Omaha Celebration é um tema que eu realmente adorei desde o momento que o escrevi. A música de Henry Mancini nos 60 era também grandiosa pra mim. E ainda não consigo absorver as canções de Burt Bacharat. Muitas das músicas do disco tem essa identidade que fui encontrando na música de outras pessoas e na minha própria. Voce pode escrever um tema e tocá-lo por trinta concertos e saberá se ela sobreviverá ou tomará outras formas. Pode soar bem nos primeiros quatro concertos e depois por alguma razão perder o sentido.
Alfie, Bacharat, tem esse tipo de sensibilidade que alguns temas possuem, você pode tocá-la noite após noite e sempre haverá coisas para fazer com ela. Como James, que é um tema que toco um bilhão de vezes e um bilhão de formas diferentes. É a mesma coisa, voce pode dissecar o tema ao máximo, mas sempre terá alguma coisa nova a acrescentar.

AG : Sound of Silence do Paul Simon voce tocou em seu violão Pikasso. Deve ter dado trabalho manter a melodia, o baixo e o sincronismo simultaneamente.
PM:  Foi realmente dificil. As cordas no Pikasso onde eu tenho que tocar a melodia  são muito próximas. Eu quis fazer uma canção do Paul Simon e uma que coubesse nesse instrumento. Foi também um belo meio de expandir a gravação do tema  um pouco mais do que com o violão barítono.

AG : Com sua série de álbuns intitulado Virtuoso nos anos 70, Joe Pass fez uma releitura do música do seu tempo com sua própria abordagem. Em What’s It All About e One Quiet Night, voce também trouxe uma nova abordagem ao violão acústico com repertório mais recente. Voce acha que estas gravações servirão como uma nova forma de tocar solo ?
PM:  É dificil dizer, estou muito envolvido com o dia a dia de tudo. Quando penso sobre as gravações de Joe Pass, ele estava balançando por todos os lados, aquelas gravações representaram um grande salto sobre técnicas avançadas para o instrumento. De certa forma, é quase o oposto disso, há realmente muito pouco aqui que seja difícil de tocar, é mais sobre o que está por trás da música .
Como One Quiet Night, What’s It All About é um trabalho muito pessoal, não consigo vê-lo de outra forma. Tambem não sei se seria capaz de fazer um disco como esse em qualquer outro momento da minha vida, até agora.

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