O JAZZ EM LUTO. MORRE O BATERISTA PAUL MOTIAN (1931-2011)

23 novembro, 2011
Artigo publicado no jornal New York Times na edição de 23 de novembro de 2011 na página B19.

A matéria original voce lê aqui.

(tradução livre) 












New York Times, 23 de novembro
por BEN RATLIFF

Paul Motian, baterista, compositor, lider e um dos mais influentes músicos de jazz dos últimos 50 anos faleceu na última terça-feira em Manhattan aos 80 anos.
A causa  da morte foi uma complicação decorrente do que chamam de sindrome mielodisplásica, uma doença do sangue e da medula óssea, conforme disse sua sobrinha Cindy McGuirl.

Motian era um elo com o passado que fazia o jazz sempre soar moderno. Foi baterista no grande trio de Bill Evans entre o final dos 50 e inicio dos 60 e no quarteto de Keith Jarrett nos 70, o chamado American Quartet. Mas foi a partir de sua segunda metade de vida que Motian se encontrou como compositor e líder.
Um músico atuante ao longo de décadas e nos últimos anos quase que inteiramente vivendo em Manhattan.
Sempre teve o suporte dos produtores Stefan Winter  e Manfred Eicher que lançaram sua música nos selos Winter&Winter e ECM, e Lorraine Gordon, proprietário do Village Vanguard, a quem o tinha na agenda muitas vezes ao ano em seu próprio grupo ou acompanhando outros músicos.  Motian dizia que “sempre preferia o som da sua bateria no palco do Village Vanguard”.

Entre os muitos músicos  que tocaram com ele, incluem-se o saxofonista Joe Lovano e o guitarrista Bill Frisell, com quem formou um trio; o pianista Masabumi Kikuchi; os saxofonistas Greg Osby, Chris Potter e Mark Tuner, com quem participou em trios e quartetos; os membros da Electric Bebop Band, com varias guitarras, que em 2006 tornou-se a Paul Motian Band; e dezenas de outros músicos, entre jovens e velhos ícones do jazz. Em quase todos os seus grupos, o repertório era uma combinação de temas autorais que ele criava ao piano, standards do American Songbook  e o tradicional bebop de sua juventude nos nomes de Bud Powel, Monk, Parker e Mingus.

Stephen Paul Motian nasceu na Philadelphia em 25 de março de 1931. Entrou para a Marinha em 1950 e recebeu alta 1 ano depois.

Motian encontrou Bill Evans em 1955 e até o final desta década trabalhou em seu trio com o baixista Scott Lafaro. Aquele grupo, no qual o contrabaixo e bateria interagiam com o piano em total igualdade, continua a servir com uma importante fonte do moderno piano jazz trio.
Entre o final dos anos 50 e início dos 60, Motian tocou com muitos outros lideres, incluindo Lee konitz, Warne Marsh, Mose Allison, Tony Scott, Stan Getz, Johnny Griffin e, por uma semana, Monk. Após deixar sua parceria com Evans, trabalhou regularmente com o pianista Paul Bley, a quem ele frequentemente creditava “ter abrido portas para muitas possibilidades”.
De repente não havia mais restrições, nem mesmo uma forma .. era completamente free, quase caótico”, disse Motian ao escritor e também baterista Chuck Braman em 1996.

Em uma entrevista na tarde de terça-feira, Bley lembrou – “Nós compartilhamos a mesma filosofia. Ele sabia que o que estava fazendo no passado não era a resposta. O que ele viveu foi o crescimento e foi  revolucionário”.

E mesmo com o quarteto de Jarrett na década de 70, Motian afastou-se daquela onda baseada no swing, ele improvisava livremente ou jogava fora as formas melódicas. Ansioso para crescer além da percussão, estudou composição no piano e em 73 lançou um disco com composições próprias pelo selo ECM intitulado Conception Vessel ao lado de Jarrett. Uma das últimas gravações que ele fez com o quarteto de Jarrett foi Byablue (1977), que era basicamente originais de Motian.
Mas o velho senso do swing nunca o deixou, o que mais tarde tornou-se muito claro novamente, mesmo se estivesse tocando um tema autoral ou mesmo um fraseado com blocos de silêncio ou um tema enraizado no jazz como Body and Soul. Muitas vezes ele usa a batida básica, com o som das escovas sobre os pratos e a pegada abrupta do seu bumbo. Geralmente, um ouvinte podia localizar esta forma, mesmo quando Motian não o fazia explicitamente.
Com Paul, sempre havia aquele ritmo característico do jazz ao fundo”, disse o pianista Ethan Iverson, um dos mais jovens com quem tocou e com quem também aprendeu até o fim.
A última apresentação de Motian no Vanguard foi com Greg Osby e Kikushi, em setembro. “Ele era econômico, toda nota, frase e expressão contadas ... nada era descartado”, disse Osby na última terça-feira.
Motian vivia com sua irmã, Sarah McGuirl.