23 outubro, 2011
E tudo começou com o monocórdio, uma caixa de ressonância sobre a qual era estendida uma única corda presa a dois pontos, e que o sábio grego Pitágoras a usou como experimento para obter as relações matemáticas das vibrações sonoras que eram emitidas. Místicas a parte, salve a ciência, ainda que especulativa, mas que, olhando pela ótica artística, traduziu-se em uma extensão infinita nos dando primeiramente a escala com intervalos acusticamente perfeitos que evoluiu e nos permitiu criar o harmônico e melódico instrumento que é o foco aqui - o violão.

E quando estas vibrações sonoras se expressam em música e refletem o sentimento do artista, o resultado prático pode nos transportar a uma viagem sem limites, não só para quem ouve mas muito mais para quem executa. E o violão representa esta unidade, concentrada na capacidade de colocar a música em algum lugar no tempo e no espaço, sem distinção.

é como intitula-se o disco de violão solo que Ulisses Rocha nos apresenta, mostrando em um único formato as alternâncias de culturas e de momentos que nos conforta, aflige e nos transporta numa viagem de acordes e melodias. Melhor assim, quando essa expressão não se prende a uma estrutura mais clássica, literalmente; melhor assim, quando as idéias musicais se traduzem em ritmo, harmonia e em momentos de improvisação introspectiva.

Ulisses compôs e arranjou todos os 10 temas e a gravação foi feita em seu próprio estúdio, de forma caseira, como se feito artesanalmente e no silêncio da noite. Um trabalho que se desenvolveu ao longo de um tempo, mas que consolidou-se quando surgiu a ideia de preparar um material para um disco solo.


Não dá pra destacar uma música em especial deste trabalho, mas abro exceções em um relato em primeira pessoa das audições deste belo disco -
Calango é o tema de abertura e é um dos pontos altos, em ritmo de baião vibrante que nos remete a um cenário regional de nossa terra, ao nosso alegre nordeste; Ítaca, não sei se foi a inspiração, mas é o nome de uma ilha grega que foi a paisagem na Odisseia de Homero, onde Odisseu refugiou-se após suas aventuras no Mar Mediterrâneo durante a guerra de Troia, um antepassado que foi destruído após um terremoto no meio do século passado; Duna ecoa como se nos elevasse para o alto do monte, ao som do vento e areia de natureza crua;  Lua soa como uma seresta iluminada de acordes e gente em silêncio;  Habana Vieja tem na melodia quase como um jingle, com roupagem latina e que às vezes traz uma sombra meio flamenca; e Fogo Brando que fecha o disco com serenidade e beleza, como se todos os dias fossem uma calma manhã.
Uma perfeita sintonia entre melodias e harmonias recheadas de improvisações livres. É o violão brasileiro, como sempre, atravessando fronteiras.
O violão solo é um conforto para a mente, principalmente quando uma multidão de qualquer natureza a invade sem pedir licença.

E registro aqui a minha saudade do violão solo de Willians Pereira, que faleceu em 2007.