TAMPA BAY BLUES FESTIVAL 2011, UMA BREVE RESENHA

12 setembro, 2011
Pois é, sempre viajei nas férias pensando no sol como guia, e quando o astro maior vem acompanhado de muito som e muito blues a combinação é mais que perfeita, é fatal.
Assim foi essa minha jornada até St. Petersburg, conhecida localmente como St. Pete, distante cerca de 350 kms de Miami, Florida. O motivo de tanta estrada foi o Tampa Bay Blues Festival, um dos maiores, melhores e mais conceituados festivais de blues do mundo, e cujo palco é a baia de Tampa e seu visual magnífico em 3 dias de muito som, muito blues e muita cerveja, que começava a entornar ao meio-dia e ía até às 10 da noite, além dos shows da after hours que rolavam no palco do Palladium Theather, teatro local, se estendendo até 1h da manhã. Só para terem uma idéia, essa foi a 17a. edição deste festival.

Passaram por lá grandes como Mike Zito, Janiva Magness, Michael Burks, Jon Cleary, The Lee Boys, Curtis Salgado, Johnny Lang, Robert Cray, Tommy Castro, Irma Thomas e Tab Benoit. Todas as apresentações com duração de cerca de 1h30 e uma organização impecável, totalizando 16 apresentações em 3 dias de evento..
A cidade, apesar de belíssima, não tem agito durante a noite, apesar dos bons restaurantes, do clima agradável e a tranquilidade que a gente sonha em ter por aqui.

O festival começou na sexta feira ao meio-dia, pontualmente, já com um bom público mas ainda não tão cheio diante do grande espaço destinado ao evento. O guitarrista de St Louis Mike Zito sobe ao palco e já mandou rock´n´roll para as caixas, cuja apresentação foi se moldando mais blues ao longo do show. Formação em quarteto com guitarra base, desenvolveu só temas de sua autoria e fez um show bem eletrizante, causando uma excelente primeira impressão do festival. Fica a dica dos álbuns Pearl River e Live at the Top.
A tarde segue com sol escaldante e o guitarrista Michael Burks em cena abraçado com sua Les Paul para incendiar a tarde. Também em formação de quarteto com o auxilio luxuoso de um hammond, Burks, conhecido como Iron Man, realmente carrega o blues no sangue, e apresentou um repertório intenso com longos solos e um destaque para sua famosa balada "Empty Promisses". Em nenhum momento largou a Les Paul em troca de sua Explorer, sua companheira na maioria dos videos que assistimos por aí. Conversei um pouco com Burks ao final do show, e sua alegria ao saber que eu era do Brasil e sua vontade de tocar aqui, e ainda levei de presente a palheta do show.
Intervalos de meia hora, e a vez é de Janiva Magness. Aos 54 anos, esta espetacular cantora veio acompanhada de uma super banda com um guitarrista fantástico, Zach Zunis, que, literalmente, roubou a cena. Muito soul com recheio de blues, ou blues com recheio de soul, só sei dizer que foi um dos melhores shows que já assisti. Não à toa, em 2009 Janiva ganhou o BB King Entertainer of the Year, aliás, a segunda mulher a ganhar esse prêmio, somente Koko Taylor teve esse mérito; e por duas vezes, 2006 e 2007, levou o Contemporary Blues Female Artist of the Year, além de várias nomeações para o Blues Music Award. Foi uma apresentação cheia de energia e emoção, e ela relatou seu tempo de vida sofrida e que a música foi o alimento da sua alma, talvez por isso a intensidade das suas apresentações. E o guitarrista Zach Zunis é realmente "o" cara, toca com intensidade e emoção pura, sempre abraçado a uma Fender Vintage e um estilo muito particular.
Final de tarde e Rod Piazza and the Mighty Flyers aceleram as emoções com sua banda liderada pelo próprio e pela sua enigmática esposa Honey Alexander. Já tinha assistido ao seu show aqui no Rio das Ostras Jazz e Blues, onde ele se apresentou sem baixista; aqui, Honey se encarregou de suportá-lo nos teclados. Foi uma melhor apresentação da que eu assisti aqui em nossas terras, e um Rod Piazza bem mais à vontade, fez sua reverência a Little Walter e incendiou a platéia no final da apresentação quando saiu do palco e foi tocar junto com o público. Colocou fogo na tarde ensolarada.
A noite chega e traz um belo céu ilustrado com a lua crescente, e no palco Robert Cray. Toda a banda recuada e a formação de quarteto, mais uma vez com o brilho do hammond. A verdade é que Cray é um guitarrista muito reverenciado por todos, e no repertório destaque para os temas "Right Next Door", uma exuberante "Poor Johnny"com um espetacular solo com o uso do delay, e a clássica "Sittin on Top of the World". Uma apresentação sem muito virtuosismo, nunca o tinha visto ao vivo, mas Cray mostrou que realmente tem uma técnica exemplar. Uma coisa interessante é que ele troca de guitarra de duas em duas músicas, sua inseparável Fender Strato. Gostei muito.

Chega o segundo dia do festival e o sol mais escaldante que o dia anterior, o que já era sinal de que o dia ia ser "quente", em todos os sentidos, e assim o foi, literalmente. Quem abre o dia é o grupo The Lee Boys, que eu não conhecia. Os "garotos" fizeram um show eletrizante e o destaque da banda é o pedal steel guitar Roosevelt Collier. O grupo foi criado por 3 irmãos - Alvin Lee guitarra, Derrick Lee e Keith Lee nos vocais, e nesta apresentação somente Keith estava presente. Um super show, muita energia em uma mistura de rap, blues, rock e o velho funk trazendo muito balanço, incendiando o início da tarde. Lógico que o número 1 da banda é o guitarrista Collier e sua steel guitar; ao final do show um papo com Alvin Lee, que também ficou surpreso em saber que eu era do Brasil e levei um DVD autografado e mais uma palheta para caixinha.
Belo dia na baía de Tampa, sol e o palco passa a ser populado pelo vocalista Curtis Salgado. Mais soul com pegada blues; um guerreiro, afinal Curtis foi diagnosticado com câncer e teve a notícia que teria somente alguns meses de vida, mas teve o apoio dos amigos e músicos para um show beneficente que arrecadou fundos para seu transplante e lá estava ele cheio de energia e uma apresentação impecável. Curtis foi premiado em 2010 como Soul Blues Male Artist of the Year, premio dado pelo Blues Music Award.
Segue a tarde e o palco é incendiado pelo som do guitarrista Tommy Castro. Formação de sexteto com adição de sopros - sax tenor e trompete - colocou uma aura mais funky e mais R&B na apresentação. Fez uma festa, saiu do palco e foi tocar com a galera deixando somente o batera fazendo a marcação no palco - saíram todos de cena. Sobrou longos solos para todos os músicos e fechou com "Get Up!" do James Brown, colocando o público pra dançar, isso num parque lotado na tarde de sábado.
Sai Tommy Castro de cena, entra James Hunter. Músico muito conceituado na América, não faz um som puramente blues, carrega uma roupagem mais pop mas com muito recheio de rockabilly e do country americano, e estava acompanhado de contrabaixo acústico, bateria e dois sopros - tenor e barítono. É um bom guitarrista também, fez boas passagens sem muito virtuosismo e como eu estava numa área reservada sosseguei um pouco e curti o som.
Chega a noite e a grande e esperada apresentação, Jonny Lang. Esse sim foi impecável, um show memoráel - blues, hard blues, baladas e levadas do bom rock'n'roll para êxtase geral. O garoto, já nem tanto, que eu curto desde seu primeiro álbum "Wander this Lang" sabe tudo, tem presença de palco e tem o apoio de uma super banda e um percussionista que, à principio, parecia sobrando no palco mas se mostrou um vocalista de primeira qualidade. Incendiou com "Lie to Me" e nos presenteou com sua versão de "Livin for the City" (Stevie Wonder), iniciando o bis com um set acústico transformando o sábado no melhor dia deste festival.

Domingo, terceiro e último dia, mais sol e mais música. O dia tinha como tema central New Orleans, e atraía como um dia mais tranquilo, e assim o foi. No palco abriu Eric Lindel, guitarrista californiano que aparece de chapéu na cabeça, óculos escuros e estilo bem country, mas com muita originalidade e um som com uma abordagem mais pop e, lógico, com aquele recheio do bom blues em formação de quarteto com contrabaixo acústico e o auxilio luxuoso do hammond. Curti muito.
Eu esperava pelo pianista Jon Cleary, da safra de New Orleans, e que eu trazia muita expectativa. Aparentemente me frustou vindo em formação de trio, ele em um pequeno teclado Roland, batera e baixo elétrico, mas sem o guitarrista Derwin “Big D” Perkins. Com um ar meio "maldito", assim eu já tinha rotulado seu som quando o ouvi, fez uma apresentação bem sóbria e foi "premiado" com uma bela microfonia, curta mas que incomodou, aliás o único breve deslize do som de todo o festival que foi de uma qualidade excelente em todo o tempo.
A festa mesmo começou com o som do trombonista e trompetista Trombone Shorty, da nova geração de New Orleans. Incendiou a platéia, um pouco menor que no dia anterior, fez o som de sua terra natal em fusão com o rap, o rock e com o soul e funk, e também colocou todo mundo pra dançar. Nos brindou com uma versão incendiária de "Let's Get it On" (Marvin Gaye),  e ainda mandou o standard "Sunny Side of the Street" com um longo solo de trompete e um improviso fazendo uso de respiração circular. Delírio total; e uma super banda com Shorty desfilando no trombone e trompete com a mesma destreza. Valeu e muito.
Depois da energia do show do Shorty, Irma Thomas chegou e abaixou a poeira. Eu gosto dela nas gravações do final dos 60, quando incorporava mais o espirito soul. Assim como todas  as cantoras do gênero, a referência de Koko Taylor é unanimidade. Uma apresentação sem muita energia mas brilhante por ser Irma Thomas, que brincou com o publico e fez o seu som.
Pra finalizar o festival, o tão esperado e decepcionante show do guitarrista Tab Benoit & The Voice of the Wetlands Allstars. Muito nome e pouco som. Benoit fez uma apresentação muito fraca, exceto pelo guitarrista  Anders Osborne, que roubou a cena, e teve somente um bom momento de puro hard blues. Fez até discurso político, muito bla bla bla e pouco som. Eu saí um pouco antes do final e perdi a aparição do indio Big Chief Monk Bourdeaux - muito sinistro.

Tampa Bay Blues Festival