RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES 2010

12 setembro, 2011
resenha publicada no CJUB Jazz & Bossa

Mais uma edição do Festival de Rio das Ostras e a comprovação de que o evento é agora uma realidade reconhecida pela Riotur. Falta a sensibilidade dos governantes deste abandonado município do Rio de Janeiro para perceber que cultura é mais que uma obrigação, música é essencial, é satisfação e qualidade de vida para todos nós.
Este ano em Rio das Ostras estavam presentes representantes de outros estados e até de outros municípios daqui mesmo que foram conferir e entender que parcerias podem ser feitas para otimizar o custo do festival, distribuindo as atrações em outras localidades e assim ter a oportunidade de trazer mais atrações internacionais de peso para nossos abandonados ouvidos.
Apesar da chuva que insistiu em permanecer na região, o público manteve-se animado em todos os palcos. Desta vez não presenciei todas as apresentações mas assisti as que rolaram no palco principal.

A abertura do festival, como sempre, teve a Orquestra Kuarup liderada por Nando Carneiro e que tem a participação especial da flauta e sax de David Ganc. Uma orquestra que conta com a participação de músicos locais, a maioria jovens, alguns adolescentes, que estão ali pela paixão da música e um destaque mais que especial para a clarinetista Nana Albuquerque. Uma grande satisfação ver aqueles meninos e meninas fazendo música de verdade. Uma apresentação sem grandes virtuosismos mas extremamente competente em sua proposta musical e o repertório deste ano focado em Tom Jobim.
Segue a noite com o guitarrista Andre Cristovam, um ícone da nossa discografia blues, acompanhado por outro excelente guitarrista Edu Gomes. Fez uma apresentação muito boa focando no seu disco de estréia Mandinga, relançamento deste ano comemorando seus 20 anos.
Andre fez outra apresentação no palco de Iriri no tarde do dia seguinte e nem a chuva atrapalhou a motivação do público e o quarteto fez uma apresentação muito mais incendiária. Com disse ele em um papo muito animado depois do show - “um show muito mais emocional que o da noite anterior, mais técnico” - até pela satisfação de ver um público tão satisfeito e empolgado debaixo da forte chuva que caiu naquela tarde, emendando verdadeiras jam de blues a la Freddie King.
Chega a noite e a esperada apresentação de Raul de Souza foi gratificante. Acompanhado por um quarteto espetacular formado pelo excelente baixista Glauco Soulter, o piano de Jeff Sabagg, a guitarra de Mario Conde e a bateria de Endrigo Bettega, Raul comandou uma verdadeira aula de musica instrumental brasileira swingada, cheia de ritmo e com um bis apoteótico trazendo Bananeira de Donato. Um destaque mais que especial para o baixista Glauco Soulter, uma pegada impressionante e a verdadeira alma rítmica dessa banda.
Michael Landau sobe ao palco com seu power trio formado pela baixista Andy Hess e o baterista Gary Novak. Para os amantes das guitarras, um show e tanto! Soava em certos momento como Stevie Ray, alguns como Jeff Beck, mas Michael tem sua assinatura própria e mostrou uma guitarra com uma pegada muito blues e um verdadeiro domínio das Strato. Um trio muito afinado com uma interação forte entre Andy e Novak, um baixo com uma sonoridade muito encorpada não deixando espaços vazios mesmo nos momentos onde se baixava a dinâmica para os solos de Michael. Gostei do show e foi uma oportunidade de ver um guitarrista muito técnico.
Armandinho mostrou seu virtuosismo com sua guitarra baiana, um show contagiante e uma excelente banda de apoio com espaço até para um Bolero de Ravel e até algumas citações de Hendrix. Uma apresentação curta abrindo espaço para Stanley Jordan que iniciou seu show solo desenvolvendo improvisos em temas livres seguindo acompanhado por Ivan Conti na bateria e Dudu Lima no baixo, elétrico e upright.

Noite seguinte e a ansiedade para a apresentação de Ron Carter, sem dúvida alguma ainda um ícone da música dos músicos. Ron Carter, Mulgrew Miller e Russel Malone sobem ao palco bem ao estilo, terno e gravata. Um show clássico com um repertório baseado em standards conduzido como uma jam e muito espaço para improvisos de Mulgrew e Malone que estavam bem à vontade. Malone com sua insuperável Gibson Birdland suportando na maior parte do tempo uma guitarra rítmica.
Destaque para uma Manhã de Carnaval levada quase em sua totalidade sob o improviso de Carter e My Funny Valentine; e em todos os temas várias citações fechando a apresentação com Soft Winds.
Joey Calderazzo veio colocar mais fogueira e iniciou a apresentação com muita pressão com seu quarteto – contrabaixo, bateria e percussão. Lembrou Michael Brecker com Midnight Voyage (Tales of the Hudson), exacerbou uma forte latinidade em alguns temas, fez citação a Monk e nos presenteou com um Blue in Green.
Michael Stewart virou a chave e veio com um show totalmente a la Miles elétrico. Um banda espetacular e um destaque para o guitarrista Dean Brown, inquieto no palco e com solos de bastante impacto. Somente 1 balada em toda a apresentação e pra fechar o show, não podia ficar de fora, Tutu.
A Rio Jazz Big Band sobe ao palco liderada pela cantora Taryn Spilzman. É uma boa cantora, tem personalidade e presença de palco. A Jazz Big Band veio formada por 4 sax, 3 trompetes e 2 trombones, mais guitarra, baixo elétrico e bateria e todos os arranjos feitos pelo saxofonista AC. Repertório cheio de blues, de Aretha Franklin a Ray Charles passando por Janis Joplin e as canjas do guitarrista Big Joe Manfra e do gaitista Jefferson Gonçalves. Bom show !

A noite de sábado fica resumida ao show da Victor Bailey Band. Baixista virtuoso, acompanhado da mesma cozinha de Michael Stewart e novamente o guitarrista Dean Brown em cena. Mesmo com um início de show debaixo de chuva, mostrou porque é um dos grandes instrumentistas desta nova geração do baixo elétrico. Soou em alguns momentos bem Weather Report, usou do vocalize em alguns temas e fez um show bem eletrizante.
Segue a noite com o gaitista Rod Piazza que entra em cena com um show sem comprometer, rhythm & blues à vontade mas ao estilo branquelo, destoando muito do show anterior liderado por Victor Bailey. Trouxe agito para a platéia com um quarteto sem baixo, este suportado pelo teclado da sua esposa Honey Alexander, mais guitarra e bateria.
TM Stevens é uma figura, literalmente! Irreverente em seu visual afro, assistiu a todos os shows e vibrou com as apresentações. Muito simpático, brincava com todo mundo e se fartou de caipirinhas. Fez um show festa, em sua totalidade ao estilo funkadelic, chamou todo o backstage para o palco e é claro que o público gostou. Só tenho que destacar a baterista Cindy Blackman que ainda conseguia dar um certo colorido na apresentação. Seguido pelo trombonista Glew Andrews que só fez manter o ritmo de festa, foi para o meio da platéia e acabou carregado pela mesma.
É isso. Ano que vem tem mais.