RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES 2009

12 setembro, 2011
resenha publicada no CJUB Jazz & Bossa

Apesar da discussão sobre o que é ou não jazz e se está ou não morto tornar-se tão polêmica e contraditória, o que importa mesmo é que as pessoas estão carentes é de boa música e quando ela aparece todos estão lá para ouvir, independentemente de rótulos, nomes ou época e principalmente de idade e classe social.

E mais uma vez o Festival de Rio das Ostras mostrou que é viável e promissor promover essa boa música mesmo com toda a crise econômica que assolou o planeta nos últimos meses. Lembro que hoje esse festival reina sozinho aqui no RJ e não teve chuva e mau tempo que espantasse o público.

Neste ano, mais uma vez, não foi diferente, organização impecável e produção antenada em satisfazer todas as frentes musicais que se apresentam no cenário nacional e internacional, apesar do pessimismo que se apresentou com o possível cancelamento de patrocínios e apoio.
Como todo festival e rótulos a parte, ouvimos de tudo - pouquinho de jazz, muita influência de jazz, blues, pitadas de rock e música instrumental brasileira, claro.

Só cheguei na quinta-feira de tarde, perdi a abertura do festival na noite anterior, e cheguei ainda na esperança de assistir o show do organista Ari Borger, cujos comentários dos amigos presentes foram de que o publico gostou do que viu na Lagoa de Iriri, o palco mais concentrado do festival e cuja atmosfera realmente nos contagia.
Assim sendo, fui direto para a Praia da Tartaruga assistir o grupo Rudder com um som que soa bem rock envolvido pela atmosfera fusion, uma vez que carrega muita improvisação. A formação do quarteto me agradou inicialmente - sax, teclado, baixo e bateria, e o grupo traz muita energia ao palco mas explora exageradamente o uso de efeitos, principalmente no sax tenor de Chris Cheek e no drive do baixo elétrico do lider da banda Tim Lefebvre. Alguns momentos soava bem eletrônico e o baterista Keith Carlock pulsava em atmosfera rave mesmo, o que, acho, dificil quando se faz no braço sem uso de samplers e computadores. Enfim, agradou e eu ia gostar mais se o mesmo som fosse feito com uma sonoridade mais acústica, afinal tinha os elementos para isso.
Chega a noite com a abertura da banda do gaitista Jefferson Gonçalves, um grande educador e explorador dos ritmos nordestinos cujos elementos ele carrega fortemente em sua música; passeou pelo xote, pelas citações de blues da banda Allmann Brothers e Bob Bylan no repertório.
Soou mais popular !
A banda paulistana Pau Brasil não trouxe o saxofone de Teco Cardoso; Mané Silveira acompanhou nos sopros . O grupo é uma referência da nossa música instrumental, liderado pelo pianista Nelson Ayres, o baixo elétrico de Rodolfo Stroeter, que se apresentou com febre de quase 40 graus, e o violão brasileiro de Paulo Bellinatti que roubou a cena e delirou o publico. Repertório com arranjos e roupagem instrumental para temas de Ari Barroso, Villa Lobos e um final de show apoteótico com Bye Bye Brasil de Chico Buarque.

Veio a chuva e como os shows são ao ar livre uma certa dispersão do público mas todo mundo queria mesmo música; uma trégua das nuvens e sobe ao palco Jason Miles e grupo com um repertório característico da fase Miles elétrico. Jason contou histórias, sua experiência com Miles Davis onde gravou 3 discos da sua fase fusion entre eles Tutu, cujo tema ficou eternizado no baixo elétrico de Marcus Miller. Gostei muito mais do show do que do CD, Miles to Miles, no palco o grupo soou mais enérgico com um destaque para o trompetista Michael ”Patches” Stewart que carregava em muitos momentos o registro de timbre de Miles. Sem falar do elétrico baixo de Jerry Brooks, roubou o show ! Apesar da presença do DJ Logic, dispensável porém não comprometedor ao estilo, foi um show bem fusion. Gostei muito !

Sexta-feira chuvosa e eu esperei o palco da noite para aparecer. Durante o dia, apesar da chuva, os shows do Bad Plus e Jason Miles, em Iriri e Tartaruga respectivamente, agradaram ao público conforme dito pelos amigos presentes. No caso do Jason Miles a chuva não deu trégua e cogitou-se até o cancelamento do show logo antes do início, mas Jason insistiu e aos primeiros acordes o público apareceu e o deixou completamente deslumbrado com a motivação e interesse dos presentes, algo que ele não viu em nenhum outro lugar do mundo, conforme suas próprias palavras.

Noite de sexta, Rudder abriu o palco e mostrou o mesmo show da tarde do dia anterior.
A segunda atração sobe ao palco e é o guitarrista Coco Montoya, canhoto, abraçado a um modelo Stratocaster sob medida de um luthier de Los Angeles e sem as cordas invertidas, espantou definitivamente as nuvens e levou o público ao delírio com um performance em quase sua totalidade blues, mais elétrico, e em alguns momentos soando lisérgico quando baixava a dinâmica da banda com longos improvisos, assim calou o grande público presente na noite.
Confesso que o brilho do orgão hammond deu mais atmosfera blues ao show. E como não podia faltar, fez sua homenagem ao mestre da Telecaster e seu mentor Albert Collins. Foi "o show"!
Pra finalizar a noite de sexta, sobe ao palco a Big Time Orchestra e transformou Costa Azul em uma grande festa abrindo arrebatadora com Hit the Road, Jack de Ray Charles. A banda chama a atenção pelo visual dos músicos em ternos preto e branco e apresentação performática, trazendo temas dos Blues Brothers e trilhas sonoras em arranjos alegres para big band.
Agitou o público !

Sábado de sol e início de tarde no palco da Lagoa de Iriri para o show do gaitista Jefferson Gonçalves, que teve o mesmo repertório da noite de quinta-feira. Bom público presente e animado. Final de tarde rumo a praia da Tartaruga completamente lotada e ensandecida pelo show da noite anterior do guitarrista Coco Montoya. O show na Praia da Tartaruga é em cima da pedra junto ao quebra-mar e o visual de fim de tarde com música é tudo o que todo mundo precisa. Assim, ficam renovadas as energias !

Noite de sábado e sobe ao palco o grupo Bad Plus. O show mais acústico e mais jazzy do festival, iniciado em trio sem a presença da cantora Wendy Lewis. Só tinha assistido o Bad Plus em vídeo e realmente ao vivo a história é outra. Um repertório explorando muito as dinâmicas e as convenções e um destaque mais que especial para o baterista David King que usava divisões ritmicas bastante interessantes em perfeita harmonia com o contrabaixista Reid Anderson criando uma atmosfera sonora ímpar.
O grupo chama a cantora Wendy Lewis e o show transforma-se mais intimista com a recriação de alguns temas da safra pop-rock. Wendy não apresentou extensão de voz mas mostrou uma beleza com sua voz linear e envolvente completamente encaixada com o trio que, literalmente, entortou os arranjos em forma de balada para os temas Blue Velvet, Smells Like Teen Spirits (Nirvana), uma belíssima interpretação de Under a Blood Red Sky (U2) com o piano de Ethan Iverson explorando todas as teclas causando até um certo frenesi, Comfortably Numb (Pink Floyd) e um encerramento mais frenético com Barracuda (Heart).
E esse é o grande barato, a recriação de temas de pop-rock em linguagem mais jazzistica; é o que se precisa para trazer o público mais jovem não habituado com a linguagem jazz a ouvir jazz.
A inclusão da cantora Wendy Lewis complementou de forma brilhante o trio. Esperamos que o CD lançado pelo quarteto não fique na unidade.
Este show - simplesmente espetacular, o show do festival !

A noite segue com o show do guitarrista John Hammond e seu quarteto formado por contrabaixo acústico, hammond e bateria. Com um som mais enraizado no blues, Hammond sempre se utilizou do suporte de gaita e alternou o show entre a guitarra elétrica, o violão de aço e o dobro.
Fim de noite e a atração tão polêmica e esperada, Spyro Gyra. Quem já gostou um dia também gostou do show! O grupo cancelou a turnê pelo México para estar novamente no Brasil, sábia decisão pois não esperava-se que a gripe suino instalaria-se por lá.
Explorando muito o ritmo latino, o destaque da banda foi o baixista Scott Ambush abraçado a um elétrico de 6 cordas com uma musicalidade impressionante dando espaço a belos walking e a longos improvisos. A banda o deixou deitar e rolar !

Da safra antiga, os temas Shaker Song e Morning Dance. Jay Beckerstein tocou alto e soprano, em alguns momentos ambos ao mesmo tempo; o guitarrista cubano Julio Fernandes deu asas a seu lado cubano e arriscou-se aos vocais com um belissimo tema de sua autoria e o baterista Boney B fez muito barulho no encerramento do show bem ao estilo funky dos 70`. O público gostou e eu também !