RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES 2008

12 setembro, 2011
resenha publicada no CJUB Jazz & Bossa

Sem dúvida o Festival de Rio das Ostras se tornou evento obrigatório para quem gosta da boa música. Um verdadeiro encontro do jazz, da bossa, do instrumental contemporâneo, do blues e das fronteiras que cercam esses estilos. Mais uma vez a produção do festival deu show de organização e na composição dos espetáculos.

E mais uma vez estive lá ! Cheguei na sexta-feira de tarde, perdi alguns shows entre eles o da Regina Carter, uma pena, mas essa frustração foi compensada pelo que assisti nos dois dias de shows seguintes.
E já cheguei direto para a Lagoa de Iriri assistir ao grupo do baterista Will Calhoum, que conhecia de nome como o baterista do Living Colour. Com uma formação chamada Native Land Experience, mostrou um som contagiante. Abriu com Afro Blue (Coltrane) e a primeira impressão foi a melhor possível. Na banda, a participação especial do sax tenor de Marcus Strickland seguindo a formação com trompete, rhodes e baixo elétrico. Uma fusão de estilos, com espaço até para um momento introspectivo onde Will abraçou a percussão acompanhado pelo rhodes e, claro, no todo, não faltou muito groove e ao final uma levada a la Billy Cobham onde realmente quebrou tudo.

Parti dali para a Tartaruga onde o grupo Bonerama ia se apresentar. Pois é, para quem diz que não há inovação no cenário musical, o grupo Bonerama está aí e contradiz. Para ilustrar, na teoria, a inovação está representada pela criação e execução e o grupo é isso aí, formação inusitada na frente com 4 trombones, liderados por Mark Mullins e Craig Harris, guitarra, bateria e tuba e a ausência do baixo. O som é o mais eclético possível, vai do instrumental ao rock do Allman Brothers, Zeppelin, Hendrix e Black Sabbath. Trombones que soavam limpos e às vezes cheios de efeitos carregados pela condução de baixo da tuba e voluptuosos solos de guitarra. Muito louco !! E como disse Mark Mullins - nunca, em lugar algum do mundo, toquei em lugar como esse - admirando, do palco, o entardecer em cima da pedra na praia da Tartaruga. O grupo voltou a se apresentar na noite de sábado.

E a noite de sexta-feira abriu com Taryn Szpilman com um barrigão de oito meses e muita energia. Uma banda da pesada, com destaque para o contrabaixo de Jefferson Lescowich e a bateria de Claudio Infante. Um show bem blues e voltado para o lançamento de seu novo cd – Bluezz. No repertório, clássicos que passeavam por Billie Holiday, Aretha Franklin e, não podia faltar, a branquela Janis. E pode ter certeza que esse neném vai chegar muito musical !

Russel Malone a gente já conhece, abraçado com sua bela Gibson modelo L5 e uma bela sonoridade. Um show sóbrio, em que esperava mais do pianista Martin Bejerano. O repertório mostrou temas próprios, mais jazzisticos, e algumas baladas pop com um arranjo jazzy, como em We've only just begun dos Carpenters; e destaque para sua improvisação solo cheia das citações de Black Music.

Masters of Groove eu esperava ansiosamente. O baterista Bernard Purdie é de uma simpatia impar, esbanjou alegria e conversou com todo mundo. Uma figura ! É um ícone da bateria na soul music e com seus 69 anos toca com muita empolgação e energia. Ao seu lado Grant Green Jr. mostrou muito ritmo e improviso, esbanjados no tema abertura do James Bond 007 e Let`s get it on e What’s going on de Marvin Gaye abraçado a sua bela archtop D`Angelico. Ainda Reuben Wilson no Hammond dando o sabor groove ao grupo que teve ainda Leo Gandelman nos sopros. Esperava Gandelman de baritono, mas revezou-se no alto, tenor e soprano.
O que eu gosto desse grupo é que, mesmo deixando de lado aquela coisa cerebral do jazz, coloca muito improviso carregado de blues e swing, em um outro formato, com muito ritmo e que não deixa ninguém parado. O grupo voltou a se apresentar na tarde de sábado na Tartaruga.

John Mayall
não me empolgou, mas não comprometeu. Apesar da sua irritação com o som do seu teclado no início do show, o público gostou. Mostrou simpatia com o público com sua própria barraquinha de CD na entrada do festival, distribuindo autógrafos e tirando fotos. Aos 73 anos ainda é um ícone para o público blues. Confesso que eu tenho saudade do velho John Mayall !
E a noite de sábado prometia !
O contrabaixista Dudu Lima apresentou um espetáculo belíssimo, em quinteto com destaque para o sax de Jean Pierre Zanela e a percussão de Marcos Suzano. No repertório, uma versão de Minuano de Pat Metheny e temas bem brasileiros como Aquarela do Brasil, Trenzinho Capirinha e um Clube da Esquina de fazer chorar. Nota 10 para ele. E Dudu Lima acaba de lançar também seu DVD/CD chamado 20 anos de Pura Música, vale conferir.

Seguiu a noite com o guitarrista John Scofield, acompanhado pelo baixista Steve Swallow, o baterista Bill Stewart e os ScoHorns liderado pelo trompetista Phil Grenadier. Que show !
Scofield é realmente um monstro na guitarra e abusou de alguns efeitos além do seu habitual drive. O repertório foi focado em seu último trabalho – This Meets That – e abriu o show com o conhecido tema House of the Rising Sun com uma potente marcação dos sopros e um destaque para a balada Behind Closed Doors que calou o público em um momento de pura introspecção, e ainda teve uma versão bem ao seu estilo de Satisfaction dos Stones.
E veio James Blood Ulmer ! Com seu visual misturando Lonnie Smith e Pharoah Sanders, eu esperava um show cabeça, cheio de improvisações livres ... enfim, foi um dos melhores show de blues que já assisti, senão o melhor. Um time da pesada, acompanhado também pelo guitarrista Vernon Reid e uma cozinha com violino, harmônica, hammond e rhodes, baixo e bateria. Foi pressão do inicio ao fim dando espaço até para um momento de psicodelia quando, em quarteto com baixo, rhodes e bateria, criou uma atmosfera muito particular. Mas o show foi hard blues da pesada e, particularmente, o show do festival !

E ano que vem tem mais !