RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES 2011, UMA BREVE RESENHA

12 setembro, 2011
resenha publicada no CJUB Jazz & Bossa

Que o festival de Rio das Ostras já é um marco do nosso calendário musical ninguém tem dúvida, o maior festival do pais sempre traz atrações interessantes e a edição deste ano teve novidades e algumas brilhantes apresentações. Estima-se que nesta nona edição cerca de 20.000 pessoas circularam pela cidade durante cada dia do festival. Todos atras de boa música e eu também estava lá !
A noite de abertura do festival, numa noite de céu estranho ameaçando uma garoa que contrariava os informes meteorológicos , marcou pela presença do guitarrista Igor Prado. Sem dúvida um excelente guitarrista acompanhado por Rodrigo Mantovani no baixo, o nome do instrumento na linha blues hoje no país, Yuri Prado bateria e Flavio Naves no Hammond que realmente deu a atmosfera certa para a apresentação. Um show contagiante recheado de muito blues e que ainda teve a participação mais que especial do guitarrista Bryan Lee, que incendiou o publico presente. Um encontro histórico de dois gigantes do instrumento, a mão esquerda de Igor abraçada em sua Les Paul e a mão direita de Bryan, sentado, com sua inseparável SG. Apresentação única de Igor Prado no festival, uma pena, fechando a noite de abertura.

Seguindo na linha Blues-Rock –
Nuno Mindelis empolgou o publico em suas apresentações na Lagoa de Iriry e em Costazul. Em ambas apresentações um repertório em formato bem blues-rock em que Nuno, com sua strato nos braços, apresentou seu novo trabalho e deixou a eletrônica de lado, que foi o principal elemento de seu último disco. Na tarde de quinta-feira, tempo bom e um público animado com a apresentação e Flavio Naves novamente no palco nos teclados  em Iriry e no Hammond em Costazul. E como rege a tradição do blues, foi tocar com o público. Alguns problemas no áudio no palco de Iriry mas nada que ofuscasse a agitação do público e em Costazul teve uma corda arrebentada na sua primeira música e a guitarra de Big Joe Manfra segurou a onda até o retorno da sua strato. Na noite de Costazul, Flavio Naves estava inspiradíssimo encenando performance a la Joey de Francesco subindo no Hammond e puxando o público levando-o ao delírio. Espaço para dois bis e encerrou com Hendrix.
Bryan Lee incendiou a noite de quinta-feira. Quem o vê fora do palco não acredita no que este senhor, cego, aos 67 anos é capaz de fazer em cena, se transforma assim como ao público que o assiste.
Manteve-se sentado durante as quase duas horas de apresentação na madrugada de sexta-feira acompanhado pelo sensacional-virtuoso-endiabrado guitarrista Brent Johnson, o incendiário baterista John Perkins e o baixista Slim Louis que segurava, literalmente, a onda para esses gigantes. Bryan Lee em seu traje tradicional com sua cartola e roupa pretos, quase como um mágico e se não o é conseguiu trazer a magia do blues-rock na apresentação.  O guitarrista Brent Johnson realmente roubou o show, chamou a atenção pela energia que colocava nos longos solos e pela interação imediata que teve com o plateia.
O guitarrista Tommy Castro não deixou por menos em suas apresentações na Lagoa de Iriry e em Costazul. Parecia extasiado com o publico na arena de Iriry e fez uma apresentação arrasadora convidando ao palco o guitarrista Big Joe Manfra e a trompetista Saskia Laroo. Colocou o publico para dançar com sua apresentação bem recheada de soul-funk suportada pelos metais de Keith Crossan (tenor) e Tom Poole (trompete) e ainda pelo visual inusitado do baixista Scot Sutherland que toca fazendo coreografias. Show contagiante e mostrou porque é um dos grandes nomes do cenário blues hoje.
Em show único na Praça São Pedro, o Blues Groove, formado pelo baterista Beto Werther, o baixo de Ugo Perrota e a guitarra de Otavio Rocha, veio liderado pelo guitarrista Cristiano Crochemore, que estava em uma manhã inspiradíssima. Mostrou muita personalidade e pegada blues abraçado com sua strato com um ar vintage , trazendo além de clássicos do blues de Johnny Winter, Albert King e Robert Johnson temas de sua autoria que será lançado em CD brevemente. Colocou pressão na manhã ensolarada de sexta-feira e teve como convidado mais que especial o guitarrista Brent Johnson, que empolgou na noite anterior, promovendo no palco um verdadeiro duelo de gigantes.
Rodrigo Nézio e Duocondé também fizeram uma boa apresentação. O power trio de Barbacena (MG) veio com energia mesmo tendo encarado a madrugada na estrada e chegado na cidade na manhã do show. Seu baixista lembra muito Pino Palladino, um pouquinho mais gordo, e o som da banda contagiou o bom público presente com repertório autoral e espaço para alguns clássicos do blues-rock.

Saindo do mundo Blues-Rock –
Jose James mostrou porque é um dos grandes cantores na atualidade. Seu jeitão rapper trouxe identificação com o publico, na maioria jovem, e apresentou-se nos palcos da Tartaruga e Costazul. Basicamente o mesmo repertório em ambos os shows, recheado por baladas com algumas passagens mais jazzy e espaço de sobra para o trompetista Takuya Kuroda. Jose fez muito o uso de um scat adequado ao seu tipo de som e um destaque mais que especial para a interpretação de Equinox (Coltrane) e um encerramento sensacional com Moanin (Art Blakey).
Jane Monheit se apresentou mostrando sensualidade em sua forma renascentista, mas fez um show básico destacando Jobim em Dindi, interpretada em sua língua nativa, e um Samba do Avião cheio de turbulência ao cantar em português, mas levou o público ao delírio e é isso que importa. Bom, me retirei e voltei para as interpretações de Cheek to Cheek e Over the Raibow me rendendo até o final da apresentação que ainda teve algumas boas passagens com uma roupagem mais jazz.
Nicholas Payton trouxe o ar fusion para o festival. Alternava colocações vocais sempre com o auxilio da cantora Johnaye Filelle Kendrick e um destaque para o jovem e excelente pianista Lawrence Fields. Fez um show frio com algumas passagens empolgantes mas determinadamente um show na linha jazz-rock, na onda Miles elétrico.
Das duas apresentações do Yellowjackets, Costazul e Praia da Tartaruga, esta última deu um ar mais intimista, talvez pelo atmosfera bucólica do local proporcionado pelo final da tarde. Comemoram os 30 anos do grupo e trouxeram o lançamento de seu último disco intitulado Timeline. Não dá pra não destacar o baterista Willian Fernandes que roubou o show e é sempre bom ver Bob Mintzer em ação, o baixo elétrico de cordas invertidas do canhoto Jimmy Haslip e o piano de Russel Ferrante. Valeu por ser Yellowjackets mas foi um show sem muita empolgação.
A trompetista Saskia Laroo foi só festa, ela é quase uma "George Clinton" de saias. Entrou no palco com uma roupinha de paquita e uma banda com dois cantores de hip-hop, percussão, teclado, baixo e bateria bem eletrizados e ainda seu trompete cheio de efeitos especiais cujos pedais estavam presos na sua cintura, como um verdadeiro cinto de inutilidades. Fez uma “homenagem” a Coltrane com um tema bem disco-music (acho que se o homenageado sabe disso ressucita) e focou a totalidade da apresentação nessa onda. Alguns momentos mostrava que podia fazer muito mais e melhor com o trompete, a moça tem boa digitação e fez algumas pausas no show, dando até um ar de sobriedade, citando standards com o uso da surdina lembrando o registro de Miles, mas foi muito pouco e o que a gente viu mesmo foi um show festa que parece que cansou o público.
Já o trio Medeski, Martin & Wood com o sax de Bill Evans colocaram muita pressão no caldeirão de Costazul. Impressionante como os caras ao vivo são infinitamente mais empolgantes. A interação entre o excelente baterista Billy Martin, o baixo de Cris Wood e os teclados de John Medeski é certeira e pontual e fica representada pela proximidade deles no palco – um de frente para o outro – aqui com o sax de Bill Evans circulando a frente deles. Longos temas e um groove de primeira qualidade em mais de 1 hora de apresentação com Billy Martin empurrando o grupo com uma energia impar, improvisos brilhantes de Cris Wood que mostrou destreza tanto no acústico quanto no elétrico onde fez até uso do slide e de leves efeitos de drive muitíssimos bem colocados e John Medeski endiabrado colocando as camas indispensáveis para os improvisos de Bill Evans. Sobrou até para uma citação bem colocada de Evidence (Monk).
Sensacional apresentação !

O instrumental brasileiro também mostrou força. Ricardo Silveira fez um excelente show e uma banda inspiradíssima com nosso Andre Tandeta bateria, Romulo Gomes contrabaixo e os metais de Marcelo Martins (sax) e Jesse Sadoc (trompete). Resgatou clássicos da nossa música brasileira de raiz em Se acaso você chegasse (Lupiscinio Rodrigues) e Amélia (Mario Lago) em roupagem bem moderna e apresentou seus clássicos temas que compõem seu ultimo trabalho intitulado Até Amanhã incluindo a brilhante Portal da Cor (Milton). Abraçado com sua bela e nova guitarra semi-acústica da fabricante PRS, nos deu um som de guitarra limpo e muito improviso.
Ivan “Mamão” Conti, Bertrami e Alex Malheiros trouxeram o Azymuth recheado com o sax de Leo Gandelman. Com a responsabilidade de manter a agitação do público depois da apresentação-festa da trompetista Saskia Laroo, o Azymuth não deixou por menos e fez uma boa apresentação mostrando porque é um grupo ícone da nossa música instrumental. Destaque para as interpretações de Partido Alto (Bertrami) e Canto de Ossanha (Baden) mas o público queria mesmo ouvir e cantarolar Linha do Horizonte e o grupo voltou no tempo e encerrou a apresentação com muitos aplausos.

Deixei por último para falar do pianista cubano Roberto Fonseca. Uma apresentação intensa, densa, enigmática, dramática! Dificil encontrar palavras para descrever a energia da música desta apresentação em um repertório baseado no disco Live in Marciac. Veio em formato de quinteto, todos músicos cubanos -  Javier Zalba nos sopros, o excelente Ramsés Rodríguez bateria, Omar González contrabaixo e Joel Hierrezuelo na percussão. Fez uma homenagem aos também cubanos Ibrahim Ferrer e Cachaito Lopez em uma interpretação de cair o queixo, com Roberto se entregando totalmente ao tema, em baixa dinâmica, deleitando-se em improvisos e contorcendo-se ao piano mostrando um virtuosismo e carisma impressionantes. Deu espaço para improvisação de todos, colocou interjeições vocais em algumas improvisações e não dá para destacar alguém em especial porque foram todos brilhantes. Encerrou a apresentação trazendo o público para ditar o ritmo com ele e foi aplaudido de pé.
O melhor show do festival !
É isso ! Ano que vem tem mais.