ENTREVISTA COM O CONTRABAIXISTA HERNAN MERLO

28 setembro, 2011
Matéria publicada no site Clube de Jazz feita pelo nosso colega e especialista de jazz e blues argentino Paulo Cesar Nunes, que entrevistou o contrabaixista e compositor Hernán Merlo, um dos maiores representantes do jazz de vanguarda na Argentina e que vai se apresentar no II Festival de Contrabaixos no dia 1 de outubro.

por Paulo Cesar Nunes


Entrevista

PCN – Como foi seu primeiro contato com o jazz? Quando você decidiu optar por este caminho?
HM – Meu primeiro contato foi ainda pequeno, perto dos meus 12 ou 13 anos, quando tive a possibilidade de me relacionar com músicos que viviam perto de minha casa; eles eram um pouco mais velhos que eu, e naquele momento tinham um grupo de rock. Sempre ficava para assistir os ensaios. Quando terminavam de ensaiar passavam a escutar música dos Beatles, de Jimi Hendrix, etc..., mas também escutavam jazz e assim foi como eu ouvi pela primeira vez um disco de jazz moderno, mais precisamente “Expression”, de John Coltrane. Quase sem querer me encontrei com esta música e foi como um nocaute, senti neste momento muito interesse pelo jazz, e comecei a conhecer outros ícones como Charlie Parker, Miles Davis, Charles Mingus, Bud Powell, Thelonious Monk, etc.

PCN – E suas influências? Quem são os músicos que impressionam a Hernán Merlo?
HM – Minhas influências são infinitas, talvez possa dizer que dependem de diferentes épocas da minha vida, da minha busca, e de minhas descobertas. Nunca esquecerei quando descobri a Eric Dolphy, e seu disco “Out of Lunch”, a Wayne Shorter e suas composições com o quinteto de Miles. A Lennie Tristano, com Lee Konitz e Wayne Marsh, a Paul Bley, Jimmy Giuffre, e assim se faria uma lista interminável de músicos que em diferentes momentos ocuparam seu lugar na minha cabeça e no meu coração. Atualmente há muitos músicos que me interessa muito escutar, por diferentes motivos. Um desses motivos pode ser por meu interesse no instrumento que toco, o contrabaixo, e nesse caso gosto muito de Michael Formanek, Drew Gress, Mark Dresser, Charlie Haden, Mark Helias, mas também me atraio muito por ouvir outros instrumentistas como Paul Motian, Tony Malaby, Ellery Eskelin, Bill Carrothers, Tim Berne, Jason Moran.

PCN – Vemos muita gente jovem nos seus concertos. Você acha que está aumentando o interesse por música não comercial?
HM – Definitivamente sim; cada vez mais cresce o interesse de gente jovem pelo jazz e por música criativa. Não só no público mas também nos estudantes e nas propostas musicais. Cada vez mais jovens irrompem na cena com seus grupos onde desenvolvem propostas muito valiosas a nível compositivo e de execução.

PCN – Como você vê essa enorme enxurrada de música contemporânea na Argentina? Há muitos músicos, muitos discos, vários selos...
HM – Sim, justamente disso estava falando, na última década floresceram muitas propostas, isso é muito bom, mas também traz emparelhado seu lado negativo já que o que não cresceu de maneira semelhante são os lugares para tocar. Há poucos lugares em relação à quantidade de músicos que tem propostas para mostrar. Hoje é bastante difícil conseguir certa continuidade para tocar aqui em Buenos Aires. Por outro lado também se editam muitos discos de produções independentes.

PCN – Falemos do selo Sofá Records. Porque o fizeram?
HM – Justamente meu último disco “Parábola” saiu por um novo selo que estamos organizando junto a vários músicos, Sofá Records, que tenta gerar um espaço para a edição de cds , com uma linha compositiva e de propostas criativas, que funciona um pouco como cooperativa. É um empreendimento que estamos fazendo com muito esforço, e com que estamos tentando ampliar nossas possibilidades de organização também quanto a expansão de nossa música para outros países, já que existem algumas propostas de intercambio com selos de New York e também de Amsterdam.

PCN – O destino da música gravada parece ser a distribuição de arquivos, ou venda de cds em shows, para os fãs. O cd segue sendo a melhor maneira de divulgação para a música hoje? Existem outros meios viáveis para esta arte?
HM – Eu creio que neste sentido estamos passando por uma época de mudanças, obviamente o cd parece estar desaparecendo como alternativa de venda, e pessoalmente estou totalmente desorientado sobre quais serão os próximos e novos meios. Mas também particularmente o que me interessa é que exista um meio , que pode ser qualquer um que sirva para divulgação da minha música, e com isso quero dizer que serve até disponibilizar minha música de forma gratuita na rede para quem queira baixar e escutar, só temos que encontrar a maneira de financiar os custos de produção, creio que é nosso próximo desafio, isso é o que nos propomos com o selo Sofá Records.

PCN – No disco “Parábola” (2008/Sofá Records) você trabalhou com Juan Pablo Arredondo, Patrício Carpossi, Ramiro Flores e Fermin Merlo, sobre composição suas. Qual é a fórmula de elaboração para teus discos? Parte de alguma ideia e daí compõe os temas? Fale do Merlo compositor...
HM – Para dizer a verdade, não tenho uma fórmula, em cada disco trabalhei de maneira diferente. Particularmente em Parábola fiz uma junção de diferentes composições musicais, umas são versões do cd “Consin” editado pela Freshsound, e alguns outros temas compostos específicamente para este quarteto, mais a inclusão de um convidado, Ramiro Flores. Geralmente minhas composições estão pensadas desde o início por quem serão executadas, eu gosto muito da sensação de estar compondo para determinados músicos, elaborar as situações para que cada músico leve ao máximo seus potenciais e suas características.

PCN – Você tocou na Europa e nos Estados Unidos. Como andam estes centros culturais para músicos de outros lugares? Eles já conheciam Hernán Merlo?
HM – Sim, tive a sorte de tocar em outros países, e isto foi muito enriquecedor. Tanto na Europa como nos USA há muita atividade jazzistica, muitos lugares onde tocar. Sobretudo na Europa tem muitos festivais muito importantes, mas para os músicos argentinos se faz muito difícil desenvolver uma atividade tão distante de nosso país, tanto pela difusão de nosso material, como pelos custos de traslado, que são muito altos. Necessitamos abrir canais com outros países, para que se conheça nossa música e ver a possibilidade de financiar nossos custos . No momento a possibilidade de uma ajuda estatal, que seria o adequado, não está disponível, é nosso desejo que isto mude, e nos permita expandir nossos projetos por estes lugares.

PCN – Tem algum projeto novo? Alguma turnê?
HM – Sim, estou trabalhando sobre um novo projeto, que é um quarteto de sax, piano, contrabaixo e bateria, com o que estou desenvolvendo ideias e desconstruções sobre composições de Thelonious Monk. É algo que faz muito tempo venho pensando fazer e agora estou dedicado a isso. O quarteto é formado por músicos muito jovens, muito talentosos, e que foram meus alunos em distintas etapas de sua formação. Pablo Aristein no sax tenor e clarinete. Alan Zimmerman no piano e o incomensurável prazer de compartilhar isto com meu filho Fermin Merlo na bateria. Podem ouvir este quarteto no You Tube, nas últimas apresentações que fizemos, estou muito contente como resultado e estamos prontos para gravar.


Discografia

Hernan Merlo (Uanchu, gravado entre 93-95)
Ernesto Jodos (piano), Carlos Lastra (sax), Enrique Norris e Juan Cruz de Urquiza (trompetes), Pepi Taveira e Fernando Martinez (bateria). Composições de Merlo, exceto Silence, de Charlie Haden;

Apesar del Diablo (Uanchu, 1997)
disco co-dirigido com Ernesto Jodos e Conrad Herwig (trombone), com Fernando Martinez (bateria) e Juan Cruz de Urquiza (trompete). Composições de Merlo, Jodos e Herwig, exceto Deluge, de Wayne Shorter;

Neo (Uanchu, 2001)
com Armando Alonso (guitarra) e Manuel Caizza (bateria). Composições de Hernán Merlo, exceto Someone watch over me, de George Gershwin;

Parabola, Hernan Merlo neo4tet (Sofá Records, 2008)
com Juan Pablo Arredondo e Patrício Carpossi (guitarras), Fermin Merlo (bateria) e Ramiro Flores (sax). Composições de Hernan Merlo;

Consin, Hernán Merlo Quintet  (Fresh Sound, 2001 e editado pelo selo Blues Sounds de Barcelona)
com Rodrigo Domínguez e Carlos Lastra (saxes), Ernesto Jodos (piano) e Sergio Verdinelli (bateria).

Trio (gravado ao vivo no extinto La Revuelta em janeiro 2003, produzido pelo selo independente Musica Elástica, com edição de apenas 100 exemplares)
com Juan Pablo Carletti (bateria) e Lucio Balduini (guitarra)