COLCHA DE RETALHOS

21 julho, 2017
A baixista Dé Bermudez não esconde sua admiração pelo saudoso Nico Assumpção, um dos mais extraordinários baixistas da nossa música. Apesar de não tê-lo conhecido pessoalmente, Nico foi, além de grande influência musical, uma fonte de pesquisa musical que deu como resultado o trabalho final e um recital na sua formatura de graduação em baixo elétrico pela FAAM, SP.
Com o lançamento do EP Colcha de Retalhos - Parte 1, que será a primeira de quatro partes que vão compor o disco "Colcha de Retalhos", Dé Bermudez pretende mostrar composições próprias e homenagens a músicos que foram importantes em sua formação musical.
O repertório desta primeira parte traz dois temas, e o primeiro homenageado é Nico Assumpção com o clássico "Paca Tatu Cotia Não; o outro tema é uma composição autoral intitulada "Convescote", em uma onda fusion com recheio bem brasileiro.

Ao lado de Dé Bermudez estão Pedro Pimentel na guitarra e Elder de Souza na bateria.
O EP foi gravado no Estúdio André Ferraz em maio de 2016.
O design gráfico é de Rodrigo Chenta.

Dé Bermudez é coordenadora da Venegas Music, professora de baixo elétrico, prática de banda, violão popular e violão para crianças, em que aborda o instrumento de forma lúdica aliado a técnicas de musicalização infantil. Também desenvolve o trabalho como professora de música no ensino médio ministrando aulas de história da música e apreciação musical. Também é integrante do Ivan Barasnevicius Trio.

Com a palavra, Dé Bermudez em um bate-papo super rápido -

Não se influenciar por Nico Assumpção é difícil, ele foi um gigante. 
Que outros músicos tem influência na sua formação?
Sempre quando me perguntam isso me vêm muitos músicos na cabeça, e muitos não são baixistas.
Como eu gosto muito de improvisação, acabo me inspirando em diversos músicos - saxofonistas, trompetistas, cantores, percussionistas. É uma miscelânea musical.
O primeiro de todos que sempre cito porque considero o "responsável" por eu querer tocar baixo e seguir na música é o baixista Steve Harris, ele é inspiração pura pra mim. O tipo de baixista e banda que fazem o tipo de música que me toca e me transforma, faz eu me sentir muito feliz.
Na verdade, mesmo curtindo o baixo de cara eu nunca fui tão atrás de ouvir os baixistas, sempre ouvi tudo como um todo, entende? Então de baixistas que eu admiro, além do Steve Harris e do Nico Assumpção. posso citar também o Luizão Maia, Jaco Pastorius, Geddy Lee, Ron Carter, Bernard Edwards, Stanley Clarke. São esses baixistas que lembro agora que me impactaram muito e que busco inspiração para compor, conduzir. Mas aí também tem músicos que admiro muito, me inspiro nos seus discos e aí cada músico que toca com eles me influência também. Posso com certeza falar de nomes como Pat Metheny, Wayne Shorter, Miles Davis, Flora e Airto, Machine Head e os discos do Neymar Dias (que pode estar na lista dos baixistas porque tem um trabalho muito bonito).

Tem previsão para o lançamento do disco "Colcha de Retalhos"?
Não é fácil produzir no Brasil, ainda mais quando você precisa conciliar trabalho, estudos, vida pessoal. A ideia de fazer o disco era gravar tudo de uma vez, mas contando com diversos convidados. Como as coisas mudaram um pouco no meio do caminho, achei melhor ir lançando o disco em EPs, para que o material não ficasse muito tempo guardado. E foi daí que veio a ideia da "Colcha de Retalhos", que representa a união de vários pequenos pedaços do trabalho e que serão gravados por diferentes músicos, diferentes formações, e também representa o lado da coisa artesanal que gosto muito de fazer quando tenho tempo livre (quase nunca).
Então, até o final deste ano estou me organizando para gravar mais duas faixas, uma autoral e mais uma homenagem a um músico importante para mim. Vai ser em trio, mas desta vez em parceria com o Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo. Já comecei a mexer nos arranjos e espero começar os ensaios até o final de agosto.
A ideia é não demorar muito para fechar o disco, mas não depende só da vontade, tem agenda, tem custos, mas vai sair, e vai ser lindo!

Com certeza vai ser lindo, Dé Bermudez. Obrigado, e sucesso.
Você pode fazer o download gratuito do EP aqui.

www.debermudez.com



Leia também -

O espaço-tempo de Ivan Barasnevicius

FERNANDO PESSOA EM MÚSICA

14 julho, 2017
Fernando Pessoa é reconhecido como um dos maiores poetas do século XX e um dos artistas mais geniais de sua época. Sua obra testemunha uma intemporalidade quase absoluta, não havendo nela nem passado nem futuro, mas apenas um eterno-atual que é o verdadeiro tempo em que devem de fato viver os grandes imaginativos.

Das Minas Gerais, Renato Motha e Patricia Lobato transformaram em sambas e canções alguns maravilhosos poemas de Fernando Pessoa e registraram na série Dois em Pessoa, com lançamento do segundo volume. Em CD duplo, o repertório traz 26 músicas - no disco 1 são 13 canções e no disco 2 são 13 sambas, revestidos por rica instrumentação. O primeiro volume, lançado em 2004 também em CD duplo, traz 24 poemas musicados e esteve entre os discos brasileiros mais aclamados no Japão. A expectativa com o segundo volume só vem confirmar que a expressão da arte linguística não só se traduz como se completa com música, fazendo com que a mesma emoção dita se recrie em tons e melodias.


O resultado deste trabalho está muito bem descrito pelo professor de literatura e música Alexandre Castro no encarte do disco - "O fato é que, ao associarmos a palavra poética ao ritmo e à melodia da música, seu conteúdo passa a ser lido e ouvido numa dimensão mais fragmentária e intuitiva."

Renato e Patricia têm na canção brasileira sua principal fonte de inspiração e pesquisa, trazendo ainda influências do jazz, da música clássica e contemporânea. Com um trabalho abrangente, transitando de maneira particular por vários gêneros, a dupla apresenta, ao longo da parceria, projetos que a todo momento valorizam e universalizam os sons do Brasil e das Minas Gerais.
Renato Motha possui 13 discos gravados e já recebeu prêmios de âmbito nacional nas categorias revelação, cantor e compositor. Tem trabalhos com Ivan Lins, João Bosco, Guinga, César Camargo Mariano, Jonnhy Alf e Toninho Horta. Patricia Lobato é é cantora e percussionista e tem parceria com Motha desde 1998 com 9 discos gravados. Tem na canção brasileira e nos kirtans indianos seu principal campo de atuação, trazendo também em sua música influências do jazz e da música clássica.

Renato Motha nos arranjos, violões e ambiências e Patricia Lobato nas vozes, triangulo e tamborim; Tiago Costa no piano; e participação de Bruno Conde no violão.
"Dois em Pessoa" tem produção de Renato Motha e foi gravado no Estúdio Pritpal, em Casa Branca, Minas Gerais. A distribuição digital é pela Tratore.
A arte gráfica da obra tem as mãos de Leonora Weissmann e Nando Fiúza.

Você pode adquirir os 2 volumes de "Dois em pessoa" pelo site www.renatomothaepatricialobato.com

DOWNBEAT CRITICS POLL 2017

01 julho, 2017

A lista da edição 65 da Downbeat Critics Poll já está circulando e traz em destaque o trompetista Wadada Leo Smith e a guitarrista Mary Halvorson, dois extraordinários músicos que vão além da formação de grupo tradicional e exploram com extrema criatividade a improvisação e o jazz.

Wadada Leo Smith já tem história e discografia marcantes e agora ganha reconhecimento nas categorias trompetista, artista e disco com o lançamento do CD "America’s National Parks". Mary Halvorson é a voz da guitarra contemporânea, dos improvisos livres, eleita como guitarrista, artista e compositora em ascensão e grupo. É uma das mais extraordinárias guitarristas surgidas nos últimos tempos.

Sem muitas novidades nas demais categorias, além dos velhos conhecidos Christian McBride e o sempre extraordinário Charles Lloyd, vale dar uma atenção diferenciada aos artistas em ascensão, entre eles o guitarrista Gilad Hekselman e a pianista Kris Davis.



A lista completa -

Hall of Fame: Don Cherry, Herbie Nichols, George Gershwin and Eubie Blake
Jazz Artist: Wadada Leo Smith
Jazz Album: Wadada Leo Smith, America’s National Parks (Cuneiform)
Historical Album: Bill Evans, Some Other Time: The Lost Session From The Black Forest (Resonance)
Jazz Group: Charles Lloyd & The Marvels
Big Band: Maria Schneider Orchestra
Trumpet: Wadada Leo Smith
Trombone: Steve Turre
Soprano Saxophone: Jane Ira Bloom
Alto Saxophone: Rudresh Mahanthappa
Tenor Saxophone: Charles Lloyd
Baritone Saxophone: Gary Smulyan
Clarinet: Anat Cohen
Flute: Nicole Mitchell
Piano: Kenny Barron
Keyboard: Robert Glasper
Organ: Joey DeFrancesco
Guitar: Mary Halvorson
Bass: Christian McBride
Electric Bass: Stanley Clarke
Violin: Regina Carter
Drums: Jack DeJohnette
Percussion: Hamid Drake
Vibraphone: Stefon Harris
Miscellaneous Instrument: Béla Fleck - banjo
Female Vocalist: Cécile McLorin Salvant
Male Vocalist: Gregory Porter
Composer: Maria Schneider
Arranger: Maria Schneider
Record Label: ECM
Producer: Manfred Eicher
Blues Artist or Group: Buddy Guy
Blues Album: David Bromberg Band: The Blues, The Whole Blues and Nothing But The Blues (RedHouse Rec)
Beyond Artist or Group: Leonard Cohen
Beyond Album: Allen Toussaint, American Tunes (Nonesuch)

Artistas em ascensão -

Jazz Artist: Mary Halvorson
Jazz Group: Mary Halvorson Trio
Big Band: Michael Formanek Ensemble Kolossus
Trumpet: Taylor Ho Bynum
Trombone: Marshall Gilkes
Soprano Saxophone: Christine Jensen
Alto Saxophone: Matana Roberts
Tenor Saxophone: Noah Preminger
Baritone Saxophone: Dave Rempis
Clarinet: Oscar Noriega
Flute: Kali. Z. Fasteau
Piano: Kris Davis
Keyboard: Kris Bowers
Organ: Wil Blades
Guitar: Gilad Hekselman
Bass: Eric Revis
Electric Bass: Thundercat
Violin: Sara Caswell
Drums: Jeff Ballard
Percussion: Sunny Jain
Vibraphone: Cecilia Smith
Miscellaneous Instrument: Akua Dixon - cello
Female Vocalist: Jen Shyu and Becca Stevens
Male Vocalist: John Boutté
Composer: Mary Halvorson
Arranger: Esperanza Spalding
Producer: Christian McBride

www.downbeat.com/

STANDARDS?

26 junho, 2017
Os guitarristas Rodrigo Chenta e Ivan Barasnevicius apresentam o EP Standards? interpretando dois temas clássicos em leituras bastante interessantes.
O primeiro tema é "Cantaloupe Island", original de Herbie Hancock cuja linha base aqui se mescla com o rock "Enter sandman" do Metallica em uma fusão bem curiosa, comprovando que as fronteiras de criação são ilimitadas e a importância das citações como um propulsor de novas ideias.
O segundo tema é "Saga of Harrison Crabfeathers", original do pianista Steve Kuhn cujo tema foi gravado inicialmente pela cantora sueca Monica Zetterlund; um espetacular resgate do Real Book desenhado com improvisos calorosos em uma interpretação bem intensa.

Rodrigo Chenta está no canal esquerdo e Ivan Barasnevicius está no canal direito, ambos usando guitarra acústica.

Um bate-papo rápido em que cada um nos conta sobre os temas -

Qual foi o insight para promover o encontro de Hancock com Metallica no tema Cantaloupe Sandman?
Rodrigo Chenta: Isso aconteceu quando estávamos de férias com as famílias na Serra do Cafezal em São Paulo. Certa tarde o Ivan e eu tocamos alguns standards de jazz até que resolvi inserir a música “Wasting love” do Iron Maiden em “Autumm leaves” do Joseph Kosma. Daí para colocar “Enter sandman” do Metallica  em “Cantaloupe island” de Herbie Hancock foi um pulo. Achamos muito engraçado e divertido até que a brincadeira ficou séria e a inserimos em nosso repertório dos concertos. Na gravação do EP “Standards?” tocamos essa música de uma maneira nada standard e gostamos do resultado. Em relação ao Metallica, existem na minha guitarra citações de músicas como “Orion”, “Enter sandman”, “Welcome home (Sanitarium)” e “Fade to Black”, que eu me lembre. No solo improvisado do Ivan eu fiquei na cola dele e os motivos musicais que sugeria eram automaticamente abordados no acompanhamento onde a interação deixou a sonoridade mais orgânica. Ela tem grande importância no duo. Vale lembrar que o realizado nesta música especificamente é algo comum na história do Jazz. Isso aconteceu, por exemplo, em “Donna Lee”, música de Miles Davis que é creditada a Charlie Parker. Aqui ele basicamente se inspirou no acompanhamento da música “Back home again in Indiana” de James F. Hanley e improvisou uma nova melodia.

Rodrigo Chenta e Ivan Barasnevicius
Um resgate de um clássico tema do pianista Steve Kuhn - "Saga of Harrison Crabfeathers".
Ivan Barasnevicius: Já tocava essa música em jam sessions há tempos. Como ela tem uma estrutura que privilegia bastante a improvisação nos moldes que costumamos realizar no duo, pensei em sugerir para o Rodrigo e desde muito cedo gostamos bastante do resultado. Vale lembrar que a nossa abordagem com relação a ela foi mudando ao longo do tempo, e novas ideias de improvisação e acompanhamento foram surgindo. Algumas foram abandonadas e outras foram desenvolvidas. Mas, comentando sobre a composição em si e do meu interesse nela, posso ressaltar que, em minha opinião, ela traz alguns aspectos que são bastante relevantes: uma melodia bastante simples, porém marcante e muito bem estruturada, com uma série de transposições do motivo principal. Ela tanto traz a possibilidade para que novos acordes possam ser inseridos entre os principais já indicados nas transcrições mais utilizadas (como a presente no “livrão”) como também torna viável a redução da harmonia de um bloco inteiro em somente um acorde. Nos dois casos, é possível fazer tudo isso sem desrespeitar o modo do momento. Mas é importante lembrar que em certos momentos não respeitamos. Nesta gravação, experimentamos de forma bem solta diversos outros aspectos: diferentes dinâmicas, alterações propositais de andamento e na textura dos acompanhamentos. Vale dizer que procuramos também, durante a gravação, fazer diferentes citações: enquanto o Rodrigo citava o Metallica, eu fiz citações do Herbie Hancock. Em todos os nossos trabalhos existem diversas citações harmônicas e melódicas escondidas.

Obrigado Rodrigo e Ivan, e sucesso.


www.rodrigochentaeivanbarasneviciusduo.com

Leia também sobre outros trabalhos do duo -

Antítese Novos Caminhos

UM TRIBUTO PARA JEFF BECK

16 junho, 2017
Que a guitarra de Jeff Beck é influência para tantos outros guitarristas, não há dúvidas.
Realizar um tributo incorporando ritmos brasileiros a esse gigante que é um ícone do jazz-rock, aí o assunto ganha outra dimensão. Essa foi a proposta do guitarrista carioca Bruno Lara, cuja iniciativa surgiu como trabalho de conclusão do seu curso de graduação e o resultado final ganhou muita originalidade.

Um tributo a Jeff Beck é lançado no formato EP, e para executar esse projeto Bruno convidou o guitarrista Carlos Café para juntar-se ao seu quarteto, formado por Alexandre Adão no baixo, Renato Catharino nos teclados e Maurício Antunes na bateria, que juntos formam o Quarteto Bruno Lara. O EP traz 4 temas gravados por Jeff Beck - "Cause we´ve ended as lovers" e "Freeway Jam" (Blow by Blow, 1975), "Led Boots" (Wired, 1976) e "The Pump" (There and Back, 1980).

Bruno Lara é guitarrista, compositor e arranjador, possui formação musical pelo CIGAM e graduação em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, teve oportunidade de estudar com grandes nomes da nossa música com foco em improvisação com Nelson Faria, guitarra blues e slide com Carlos Café, harmonia funcional com Cláudio Bergamini, composição com Alexandre Schubert e percepção com Zoya Maia.
Com uma ampla discografia e 1 DVD lançados de forma independente, Bruno Lara segue levando a nossa música instrumental e o jazz adiante.

Com a palavra, Bruno Lara -

Como surgiu a ideia de realizar um tributo para Jeff Beck?
Pensar sobre como criar/promover este produto foi bastante interessante e desafiador.  Eu sempre fiquei frustado por ouvir guitarristas que eram muito técnicos, velozes e pecavam pelo excesso de notas (parecia que pra “tocar bem”, tinha que tocar daquele jeito). Até que no ano de 2000 eu vi o disco "Blow by Blow" vendendo a um preço “super” popular numa loja aqui do RJ, eu nunca tinha ouvido falar de Jeff Beck e pensei: “Esse cara deve ter algo a me dizer sobre guitarra e música”. Coloquei o CD no player e “pirei” com aquele disco, finalmente achei um cara que conseguia transbordar o virtuosismo sem exageros  em estéticas e faixas sensacionais. Desde então, eu dormia ouvindo "Blow by Blow", literalmente.
Acho que esse prólogo diz muito de como eu pensei em fazer um trabalho final para uma faculdade de música, tinha que ser  honesto e que eu tivesse  total identificação. Resolvi amadurecer e transformar o que era  um trabalho (TCC) em algo mais denso.
Junto com o meu orientador de TCC, Orlando Scarpa Neto, eu reuni músicas do "Blow by Blow", "Wired" e "There and Back", por serem discos e  faixas que me soam  marcantes no repertório do Jeff Beck - a fantástica balada de Steve Wonder - "Cause We´ve ended as Lovers",  a "alternada" e roqueira "Led Boots", o fusion 80/90 em "The Pump" e a fúria mixolídia de "Freeway Jam". Para mim é um “resumo” honesto do que é Jeff Beck, e se alguém me perguntasse o que eu indicaria, com certeza seriam essas músicas .

Foi desafiador incorporar essa fusão de ritmos brasileiros nos arranjos?
Eu fui tocando os temas e mudando as acentuações enquanto fazia a transcrição das músicas e quando comecei a tocar "Cause We´ve ended as Lovers" pensei: "Se eu botar um swing de Bossa Nova? Isso pode soar interessante". Como ela tem um andamento lento, eu pensei em alguma coisa no estilo João Gilberto ("Chega de saudade") e comecei a me aventurar em fazer algo que dialogasse com os dois universos. Em "The Pump", tive uma grata surpresa de ouvir um arranjo de uma música de Luiz Gonzaga na voz de Gilberto Gil ("Baião da Penha") e prestei atenção naquela guitarra slide que se destacava no arranjo. Como a melodia da "The Pump" é bem simples, o slide caiu como uma luva juntamente com o clima "regional" que criei nos arranjos.
Já em "Freeway Jam" eu quis deixar um pouco do clima fusion da música, coloquei uma percussão afro e comecei a improvisar em cima dela. Depois disso percebi que o tema poderia condizer com a nossa afro brasilidade, é claro que mudaria a forma de interpretar, mas soou muito natural.
E finalmente "Led Boots". Essa foi um pouco de Nação Zumbi na veia, por ser uma música com um riff muito marcante e uma melodia bem simples. Para mim ela é muito visceral, roqueira em sua essência. Maracatu é uma coisa pesada, percussiva e contagiante, e eu queria manter essa energia na música. Foi uma feliz escolha para manter o espírito libertador do rock com a energia e o entusiasmo do nosso ritmo brasileiro e fiquei impressionado como ela se encaixou com perfeição na célula rítmica do maracatu. Se Jeff Beck fosse brasileiro, acho que iria pedir para tocar ela no estilo, arrisco esse palpite.
Uma coisa que acho interessante falar sobre as 4 músicas e os arranjos -
Eu mudei o aspecto harmônico de forma mais “tímida”, e a forma da música e de improvisar também, mas considero mais marcante a transição para os ritmos brasileiros dentro deste trabalho .

Quarteto Bruno Lara e Carlos Café
O guitarrista Carlos Café participa desse trabalho, como foi realizar essa sessão juntos?
Fale também sobre os músicos que te acompanham.
Eu conheci o Carlos Café no período que estudei no CIGAM, a famosa escola de Ian Guest. Me interessei pelo trabalho de blues que ele faz com muita honestidade e consistência, e achei que precisava aprender mais sobre o estilo e em particular sobre slide. 
Desse encontro de aluno e professor, nos tornamos amigos e toda vez que eu ouvia um CD ou vídeo do Jeff Beck mostrava para ele e a gente ficava conversando muito sobre.
O Café me ensinou a tocar slide e a música "Definitely maybe" que é muito bem interpretada pelo próprio Beck, e foi uma grande emoção e empatia ter aulas com ele. Como neste trabalho eu assumi várias funções diferentes - arranjador, produtor e músico, eu quis chamar o Carlos Café para assumir o posto de intérprete e me dedicar mais nas outras funções, fazendo apenas um diálogo guitarrístico em "Freeway Jam". Como já tocamos juntos e ao vivo, foi fácil apresentar a ideia dos  arranjos e ele entendeu exatamente o que era pra ser feito e fez com vontade, tocou muito.
Nós  fizemos 3 ensaios com todo mundo, e eu fui gerenciando as partituras dentro dos ensaios com todos os músicos, esses que  fazem parte do meu quarteto de música instrumental - Quarteto Bruno Lara.  Eu quis dar esse espaço para que o arranjo ficasse orgânico e não apenas todo escrito e rígido.
São músicos excepcionais - Alexandre Adão fez um baixo criativo e elegante em sua execução, trazendo um pouco do “Nathan East” para as faixas; Maurício Antunes, que é sobrinho do famoso batera “Picolé”, já tem no DNA brazuca, necessário para transformar aquilo que é cultura mundial em cultura brasileira. A gente definiu o clima da cada sessão rítmica das músicas e ele soube dosar de forma muito interessante as passagens; Renato Catharino, que acerta as teclas, já possui uma experiência sólida em piano jazz, algumas sugestões de harmonia foram bem vindas e conseguiu tocar em temas que eram  um pouco desconhecidos em sua formação, mas que pareciam ser bem próximos (ele não conhecia muito Jeff Beck). O piano se destaca por eliminar os sintetizadores e Rhodes que tinham nas  versões originais, e o Renato conseguiu adaptar isso ao seu vocabulário sem que eu sentisse falta de colocar algum outro instrumento para complementação.

Sobre estilo de tocar, a partir dos anos 90 Jeff Beck largou a palheta e passou a usar a técnica fingestyle. Independentemente de ser melhor ou não, como você interpreta essas formas de tocar?
Eu não me lembro exatamente mas acho que no disco Guitar Shop ele já começa a tirar as palhetas do dedo. Isso me influenciou bastante na forma de tocar, eu toco com palheta mas tenho os meus momentos “Jeff Beck”. Acho que essa transformação deixou a sonoridade dele com um nível de personalidade absurdo, além de não ficar tão refém de técnicas ou padrões que viciam muitos guitarristas (por exemplo, a palhetada alternada). 
Essa junção de dedo com alavanca pra mim se tornou a marca registrada dele, é impossível tocar igual a ele, mesmo que tente emular teriam que fazer um dedo que simulasse o que ele faz, é um som mais bruto que ele faz na guitarra e a dinâmica e o controle que se pode obter do instrumento é sensacional. Ele incorporou e levou o fingerstyle a um degrau acima do padrão.

Obrigado Bruno Lara, e sucesso.

Você pode fazer o download gratuito do EP pelo OneRpm e ouvir nas plataformas de streaming.
Spotify Deezer
www.brunolara.mus.br

SUÍTE ONÍRICA

07 junho, 2017
O compositor e arranjador mineiro Rafael Martini apresenta Suíte Onírica, seu novo trabalho em formato jazz-sinfônico gravado com o seu sexteto e a Orquestra Sinfônica da Venezuela com a presença do coro lírico formato por integrantes do Coral Teresa Careño, tudo sob a batuta do maestro português Osvaldo Ferreira.
A obra divide-se em 5 movimentos que aludem a 5 estágios do sono e foi composta e orquestrada por Rafael com textos do poeta Makely Ka, inspirados no universo dos sonhos e suas simbologias. O trabalho conta com cerca de 150 músicos na feitura de uma música híbrida, que transita entre os limites que separam a canção, música sinfônica, jazz e música brasileira.
Com produção do próprio Rafael junto com o músico venezuelano Hildemaro Álvarez, "Suíte Onírica" foi gravado entre Brasil e Venezuela em uma interação muito especial com a OSV - Orquesta Sinfónica Venezuela, a mais antiga orquestra da América Latina, que possui uma fortíssima cultura orquestral e, por isso, um nível muito alto de músicos desse universo. O Rafael Martini Sexteto é formado por Rafael ao piano e voz, Alexandre Andrés na flauta, Joana na clarineta, Jonas Vitor no sax, Trigo Santana no contrabaixo e Felipe Continentino na bateria.


Rafael Martini é diretor musical e pianista da cena musical contemporânea de Minas Gerais, que faz com que ele, de fato, dialogue com a herança recebida através da música de Milton Nascimento, além da sua aproximação com a música de Björk, Maria Schneider e Radiohead através do ambiente sinfônico, sobre um pano de fundo contemporâneo.

Com a palavra, Rafael Martini -

O título da obra se relaciona com a essência dos sonhos e, como sabemos, eles não envelhecem.
Qual a intenção do título a frente de uma música tão intensa?
O sonho como fonte de todo simbolismo de todos os humanos é um pouco o ponto de partida do que eu e Makely Ka usamos pra escrever - eu a música, ele os textos. Foi incrível que depois de selecionarmos esse tema pra compor, eu, que há muitos anos não recordava dos sonhos que tinha durante a noite, voltei a lembrar deles vividamente. A Suíte é dividida em 5 partes, cada uma tem uma inspiração em um estado ou disfunção do sono. As letras falam de cosmogonias de diversas religiões, mitologias, que "segundo Jung" tem origem no dispositivo onírico que carregamos. O IV movimento da obra tem uma narração de um evento "veridicamente sonhado" pelo Makely. Talvez essa música tenha mais a ver com aquela sensação que temos quando sonhamos, de absoluta certeza de estarmos despertos. Por isso a música é intensa. Porque pensa no sonho como linha de pensamento imaginária que liga o primeiro ao último homem. Porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos.

Como surgiu a proposta de trabalhar com orquestra e coral e realizar o processo de gravação da obra?
A obra nasceu de uma encomenda do Savassi Festival, festival de jazz e música instrumental aqui de BH, hoje um dos maiores do país e que já comissionou obras jazz-sinfônicas para gente como Chris Potter, André Mehmari, Kenny Werner e Cliff Korman. A encomenda já foi direcionada para que eu escrevesse uma peça de música de mais ou menos 40 minutos usando meu sexteto (que me acompanha desde o primeiro disco, "Motivo", de 2012), a Orquestra Sinfônica de MG e o Coral Lírico de MG. O que gerou, claro, um desafio muito grande no sentido de projetar algo para 150 músicos. A peça foi estreada em 24 de agosto de 2014.
Na gravação, feita em 2016 e lançada agora, temos a Orquestra Sinfônica da Venezuela, um grupo de músicos excepcional, assim como o coral associado a ela. Gravamos com a regência de um maestro muito especial, o português Osvaldo Ferreira. Foi muito bonito o processo de gravação pela percepção de um sentimento grande de união pelo ato de fazer aquela música juntos, unindo três países que deveriam ser bem mais ligados do que são (pelo menos no que diz respeito ao Brasil em relação aos outros dois). E a sensação de uma dissolução de barreiras musicais que a obra inspirava em todos, onde não importa se você "é" músico erudito ou popular, ou seja lá o que for. Você "está" fazendo aquela música, naquele momento e o tanto que ela lhe significa, é o tanto que você se entrega e se dedica. Foram 4 dias de gravação no Brasil e depois 8 dias em Caracas onde realizamos 10 ensaios e 8 sessões de gravação.


"Rapid Eye Moviment" traz Stravinsky em foco, o compositor que afirmava que a música tem o poder de expressar qualquer sentimento. Como você explora o processo de criação?
Muito boa essa do Stravinsky! Então, resumindo numa coisa que já é clichê, mas que o Strava mesmo falava, meu processo de criação é aquela coisa: 10% de inspiração ... Sou meio escultor, quase paleontólogo, fico ali escovando horas até encontrar.

A belíssima interpretação de "Éter" faz reverência ao nosso Pixinguinha. Como é passar a intensidade do Choro para interpretação de uma orquestra?
Obrigadíssimo! Como todo o planeta, tenho uma forte reverência ao Pixinguinha, mas carrego ele na memória sempre, é como um "professor" que gosto de imaginar que está ali me observando enquanto estou compondo, junto com outros tantos. Não tenho uma relação prática com o Choro, de tocar em rodas e tal, mas uma paixão enorme por todo o universo como ouvinte. Então é um tributo que vem de outro lugar, mais para um aceno da outra margem do rio.

"Dual" expressa de forma magistral um encontro de canto e coral, e nos da um lampejo da música das Minas Gerais, do Clube da Esquina. Fale um pouco da música que te influência.
Obrigado mais uma vez! Me criei realmente escutando muito Milton Nascimento (tudo o que foi produzido até 1979) e com ele a canção popular brasileira de Elis, Tom Jobim, Gil e Caetano, Edu Lobo, João Bosco, Guinga e por aí vai. Mas mais determinante é o lado da música instrumental brasileira de Egberto, Hermeto, Moacir Santos, que se liga ao jazz mundial de Gil Evans a Tigran Hamasyan. Por outro lado muito rock, de Beatles a Rage Against the Machine, passando por tipo tudo...e em outra dimensão, a música de concerto, Stravinsky, Ravel, Debussy, Ligeti, Berio.

Obrigado Rafael Martini, e sucesso.

Suíte Onírica está disponível no iTunes e com audição pelas plataformas de streaming.

Spotify Deezer

FOTO SÍNTESE

22 maio, 2017
"Quando você faz com verdade, o amor acontece, o mundo conspira a favor e nos tornamos pessoas melhores. Somos uma engrenagem que não pode parar nunca."
Essa é a mensagem, muito verdadeira, passada pelo guitarrista Vitor Karyello no encarte do seu primeiro CD - "Foto Síntese". Talentoso guitarrista, representa muitíssimo bem essa nova geração da música instrumental brasileira e do jazz, e traz nesse trabalho de estreia a formação de trio em que está acompanhado por Albert Batista no contrabaixo e Herbert Santos na bateria, músicos que ele considera essenciais na realização desse trabalho, cada um com sua maneira de sentir e expressar cada música trazendo cores e atmosferas que jamais imaginaria ser possível.
O repertório traz 6 composições autorais com muita originalidade em um passeio de improvisos sem perder o tempero brasileiro, como na contagiante "Bora Lá", introduzida por oitavas e com espaço para solos de Albert e Herbert; na levada latina de "Cumé Cumpadi"; na atmosfera bossa em "Leme", dedicada ao guitarrista Michel Leme; nas baladas "Laura" e "Ayres", aqui novamente um belo solo de Albert; e na pegada groove de "Sol in Mérrico", com destaque também para o solo de Albert e para a pontuação rítmica de Herbert.
Para Vitor, música é a emoção manifestada através de ritmos, melodias e harmonias, é afinidade e quando aparece é indescritível.

"Foto Síntese" é uma produção independente e foi gravado no EME Estúdio, RJ.


Com a palavra, Vitor Karyello -

Como se desenvolveu a ideia da criação do disco "Foto Síntese"?
Antes de tudo, parabéns pelo trabalho e apoio à música.
A necessidade de começar o próprio caminho me levou a isso tudo. Há dois anos comecei uma jornada por bares, livrarias, calçadas, terraços e onde mais fosse possível tocar, e durante esse processo foram surgindo as composições. Não ensaiávamos, então os arranjos foram nascendo de forma “improvisada” nas apresentações ao vivo e achei interessante registramos dessa forma, o mais espontâneo possível.
Um disco de música instrumental é muito difícil de ser concebido principalmente em relação ao patrocínio, é um nicho pequeno em que os próprios amantes da música instrumental, e também os músicos (ao menos deveria ser), alimentam o circuito, comprando os discos e indo aos shows. Precisamos ter consciência sobre esse assunto para que não deixemos morrer a verdadeira arte; arte essa cada vez mais rara.

O título do disco traz algum significado implícito?
Nomear as coisas sempre foi um problema pra mim. De certa forma costumo associar o nome dado a algo que estou pensando, mas, sendo um pensamento particular, só eu saberei, e terá um sentido próprio pra mim. Já para outra pessoa pode significar outra coisa, acho isso divertido. O nome do disco surgiu por último, depois de gravado. “Foto” por ser um registro do momento e “Síntese” por reunir tudo que passamos até agora, não só musicalmente, mas toda bagagem que cada músico traz consigo em sua existência, com todas as virtudes e defeitos. 

Sobre os músicos que te acompanham no disco 
Esse disco jamais aconteceria dessa forma se não fosse pelo Albert Batista (baixo) e Helbert Santos (bateria). Helbert esteve comigo em todo processo que se iniciou há dois anos, é um baterista espetacular que não pensa apenas como baterista e sim como um músico completo, se ligando nas melodias e harmonias, acrescentando sempre uma pitada ácida nos detalhes harmônicos. Albert é o caçula do trio, tanto na idade quanto no meio instrumental. Ele entrou no time há pouco mais de 1 ano e teve uma evolução surpreendente no sentido de “viver” o som e conseguir externar o que está sentindo. É um músico que traz uma emoção muito grande, sem contar que é um relógio suíço nas levadas.


"Foto Síntese" traz 6 composições autorais. Como você trabalha o processo de criação?
Seriam oito, mas como fizemos a gravação ao vivo em um único dia dois temas ficaram de fora. Foi minha primeira experiência com essa forma de gravação, sem overdubs e todos na mesma sala. Sem dúvida foi uma experiência incrível. Nunca marquei hora pra compor e não tenho essa disciplina, mas gostaria de ter. Todos esses temas surgiram quando eu menos esperava e vieram praticamente prontos, com exceção de "Leme", que é uma parceria com o Helbert, e "Cumé Cumpade", que fiz em dois momentos diferentes. Eu começo a compor com uma determinada levada ou pela melodia, nunca compus uma música a partir de uma harmonia. Acredito que composição é prática, mas antes de tudo é a manifestação de tudo que você vive, ouve e toca. Quanto mais informação você tem maior é seu vocabulário para conseguir expressar o que sente através de sua música.

Sobre a estória das composições –
"Bora lá" eu fiz antes de sair para um show. Estava atrasado e a música foi surgindo, eu repetia pra mim mesmo - “Bora lá, bora lá”. Não sei se falava isso para me apressar para o show ou para terminar a composição.
"Leme" é curiosa. Essa música é uma homenagem ao grande Michel Leme, ao qual sou muito grato pela sua generosidade e pela música que ele faz, é um dos maiores músicos e personalidades do Brasil. O interessante é que essa música foi uma homenagem involuntária, fiz a parte “A” e mostrei ao Helbert sem ele saber que era minha - “Vitor, bacana essa música! É a 'Bom Dia' do Michel, né?” Foi quando eu percebi - “Nossa, copiei descaradamente”. Embora houvesse elementos diferentes, lembrava muito. Então mudei um pouco a rítmica da melodia e pedi ao Helbert que fizesse a parte “B”, aí então ficou um pouco menos parecida. Em uma das aulas com Michel, mostrei o tema e contei essa história e ele ficou bem contente com a homenagem.
"Laura" fiz pra minha sobrinha de 6 anos, é uma balada jazz que gosto muito. Essa é um exemplo de composição em que harmonia e melodia vieram juntas e de uma só vez.
"Sol in mérrico" teve sua criação de forma engraçada - eu estava em casa estudando num sábado de verão, naquele calor do cão, então fui ao mercado e comprei aquela cerveja Sol, que nunca havia tomado. Acho que tomei um pouco demais no dia e saiu o tema, por isso ganhou esse nome. 
"Cumé Cumpade" é de 2009 quando comecei a compor música instrumental. Ela se chamava Salsa Nova, depois que descobri que de salsa não tinha nada, então ela passou por umas modificações e ficou sem nome até que um belo dia, num som em que a tocamos, Albert disse - “Cumé Cumpadi? Qual é a próxima?”.
"Ayres", eu gosto muito desse tema. Coloquei esse nome pois estava me lembrando de uma viagem que fiz para Buenos Aires, e de certa forma a melodia foi me remetendo às lembranças naquela cidade.

Sobre equipamentos, o que usou nessa sessão?
Foi um set super simples - guitarra Condor modelo Nelson Faria e uma outra Condor JC-16 com cordas flatwound Daddario Chromes .12, cabos Tecniforte e um amplificador Cube 60 da Roland.

Quero deixar registrado meu muito obrigado aos parceiros Soulmusic, EME Estúdio, AR Luthieria, Zamix Internet, FlexCAr, Studio Stillo Music, Com.café e Restaurante Mistura Fina.

O quanto é desafiador produzir e lançar um disco de forma independente?
É muito difícil. As leis de incentivo funcionam para uma parcela de artistas e eu vejo que sempre são os mesmos beneficiados. Sinceramente, não vivo e nem passa pela minha cabeça ficar tentando algo nesse sentido, estou vibrando em outra frequência. Durante muito tempo, fiquei revoltado com pessoas que conseguiam milhões de reais em incentivo, enquanto muitos de meus amigos, muito mais talentosos e com muito mais a dizer, lutavam por migalhas para conseguir dar continuidade em seus projetos. Não acredito nem um pouco que o “governo” tenha que dar isso ou aquilo, ou que a “educação”, que é responsabilidade e ofertada pelo mesmo, seja a salvação do Brasil. Se quisessem um povo educado já teriam feito e nada disso estaria acontecendo hoje. Acredito em pequenos gestos, de pessoas comuns, que tentam mudar o meio em que vive, começando pela família e depois ajudando os mais necessitados. Se “adotássemos” uma pessoa, ajudássemos com instrução, construção do conhecimento, do autoconhecimento e com amizade, carinho e amor, não estaríamos subordinados a governos parasitas. Precisamos fazer nossa parte, ajudar o maior número de pessoas possível e a música é uma das armas utilizadas.

Obrigado Vitor, e sucesso.

Você pode adquirir o disco no iTunes.
O CD físico pode ser adquirido pelo site www.vitorkaryello.com ou pelo perfil no facebook.


BLUES MUSIC AWARDS 2017

12 maio, 2017
Mais uma edição do Blues Music Awards, que chega ao número 38 celebrando o blues e homenageando os artistas que promoveram o estilo ao longo do último ano.
Nessa edição destaque para a voz de Bobby Rush que, aos 83 anos, é premiado com o disco do ano com "Porcupine Meat" e com a caixa "Chicken Heads: A 50-Year History of Bobby Rush" que celebra 50 anos carreira do cantor.
A Tedeschi Trucks Band aparece nas categorias de banda e disco de blues-rock com "Let Me Get By"; Susan Tedeschi aparece como artista contemporânea feminina; e Joe Bonamassa é o premiado na categoria guitarra e no prêmio B.B.King Entertainer em lembrança pelas suas primeiras apresentações abrindo shows para o rei B.B. quando tinha 12 anos de idade.

O grande destaque é a voz de Curtis Salgado, premiado nas categorias soul-blues com o disco "The Beautiful Lowdown", como voz masculina e com a canção "Walk a Mile in My Blues". Esse trabalho também foi premiado no Blue Blast Music Awards 2016 e tem a participação do nosso gigante Igor Prado na guitarra. Curtis começou a escrever os temas desse disco quando estava no Brasil há 4 anos e junto com Igor fizeram algumas demos para logo depois surgir o convite de Curtis para Igor gravar a guitarra em uma faixa - "Ring Telephone Ring", que também conta com a participação do hammond de Mike Finnigan, este que gravou com Hendrix e também esteve ao lado de Etta James.
Curtis Salgado é um verdadeiro guerreiro, se recuperou de um câncer no passado e no início deste ano sofreu um ataque cardíaco, foi submetido a uma cirurgia de ponte de safena tripla e está em recuperação com expectativa de voltar aos palcos ainda esse ano.
Curtis participou do disco Blues & Soul Sessions da Igor Prado Band e tem projetos futuros com a Igor Prado Band para a gravação de um disco só de blues, algo que ele não faz desde a época que integrava o grupo de Robert Cray. Vamos aguardar!

Confira os premiados -

Acoustic Album:  The Happiest Man in the World, Eric Bibb
Acoustic Artist: Doug MacLeod
Album: Porcupine Meat, Bobby Rush
B.B. King Entertainer: Joe Bonamassa
Band: Tedeschi Trucks Band
Best Emerging Artist Album: Tengo Blues, Jonn Del Toro Richardson
Contemporary Blues Album: Bloodline, Kenny Neal
Contemporary Blues Female Artist: Susan Tedeschi
Contemporary Blues Male Artist: Kenny Neal
Historical: Chicken Heads: A 50-Year History of Bobby Rush, Bobby Rush (Omnivore Recordings)
Instrumentalist-Bass: Biscuit Miller
Instrumentalist-Drums: Cedric Burnside
Instrumentalist-Guitar: Joe Bonamassa
Instrumentalist-Harmonica: Kim Wilson
Instrumentalist-Horn: Terry Hanck
Koko Taylor Award: Diunna Greenleaf
Pinetop Perkins Piano Player: Victor Wainwright
Rock Blues Album: Let Me Get By, Tedeschi Trucks Band            
Song: “Walk a Mile in My Blues”, Curtis Salgado
Soul Blues Album: The Beautiful Lowdown, Curtis Salgado
Soul Blues Female Artist: Mavis Staples
Soul Blues Male Artist: Curtis Salgado
Traditional Blues Album: Can’t Shake This Feeling, Lurrie Bell
Traditional Blues Male Artist: Bob Margolin

www.blues.org

LABTrio

28 abril, 2017
O LABTrio é formado pelos belgas Bram De Looze no piano, Anneleen Boehme no contrabaixo e Lander Gyselinck na bateria, jovens talentos que trazem uma proposta musical criativa e moderna que se insere na forma do jazz livre que, como eles mesmo afirmam, se encaixa dentro do contexto urbano flertando com a eletrônica e com a cultura dos guetos e do hip-hop.
O grupo foi formado através de um evento promovido pelo diretor da academia de música de Antwerpen, Belgica, que organizava encontros de jovens músicos. A química entre eles foi imediata e o trio seguiu em frente amadurecendo a vontade de tocar junto ampliando experiências musicais.
Celebrando 10 anos de formação do trio, apresentam o terceiro disco intitulado Nature City, mostrando um repertório bastante original e muita maturidade.

O pianista Bram De Looze partiu para New York em 2012 para estudar na prestigiada New School for Jazz and Contemporary Music e teve como mestres, entre outros, Marc Copland e Uri Caine. Seu toque tem na improvisação o elemento principal e ele afirma encontrar inspiração na música contemporânea e na música clássica. Com intensa veia criativa, criou um septeto intitulado "Septych" (2014), em formação com dois violoncelistas, três músicos de sopro (alternando entre soprano, clarinete baixo, tenor, barítono e flauta) e bateria. Lander Gyselinck é um respeitado músico na cena jazz belga e se desenvolveu além do jazz marcando fronteiras com a improvisação livre e a música eletrônica. Integra o trio do pianista belga Kris Defoort e participa do experimental grupo STUFF.  A contrabaixista Anneleen Boehme é um talento feminino no instrumento. Começou a tocar contrabaixo aos 12 anos e, decidindo entre a música clássica e o jazz, partiu para o programa de jazz da Royal Conservatoire of The Hague na Holanda. Ela também integra vários projetos, entre eles seu próprio grupo, um quarteto de contrabaixos chamado "The Bass Party" ao lado de Janos Bruneel, Nathan Wouters e Soet Kempeneer.


"Fluxus" (2012, OutNote Rec) é o primeiro disco do trio; e a residência em New York promoveu uma colaboração com o celista Christopher Hoffman e o saxofonista Michael Attias, que rendeu o disco "The Howls Are Not What They Seem" (OutNote Rec, 2015), cujo trabalho foi intitulado como The NY Project.

labtrio.be/


INSIGHT

18 abril, 2017
Insight é o título do disco de estreia do guitarrista Eduardo Guedes, cujo trabalho ele afirma não se adequar em um rótulo, trazendo a proposta de uma atmosfera de jazz contemporâneo com liberdade rítmica e improvisação interativa, sem premeditações de argumentos. A escolha foi fazer música, apresentar novas composições e ter total liberdade para executá-las.

O disco traz a formação de trio e Eduardo Guedes tem ao seu lado o contrabaixista Bruno Repsold e o baterista Paulo Diniz, uma geração muito promissora para a nossa música instrumental e o jazz.
Para Eduardo, o baterista Paulo Diniz é um músico muito atento às sugestões rítmicas e que cria a todo momento uma atmosfera convidativa para a improvisação jazzística; já ao contrabaixista Bruno Repsold, o considera um virtuoso e criativo, é o suporte harmônico coeso e ritmicamente forte que faz um contraponto perfeito para todas as propostas de ideias melódicas.
Com 9 composições autorais e uma interpretação de Wayne Shorter - "Fall" (original do disco Nerfetiti do Miles), o repertório envolve o ouvinte com uma grande riqueza melódica e mostra um guitarrista de fraseado preciso e contagiante. Em destaque os temas "Capim Navalha" e "Queijo Duro"; a balada "Esperança", com uma bela introdução pelo contrabaixo de Bruno, e os temas "Valente", "Lunar" e "Jamais vi" em que também se destaca a bateria de Diniz; e o bom blues em "Blues Messengers".


Com a palavras, Eduardo Guedes -

Conte-nos um pouco sobre sua formação musical.
Toco guitarra desde os 12 anos de idade. Comecei tendo aulas com um amigo, Rogério da Silva, irmão mais velho de um grande amigo da escola. Ele também ainda não era um músico muito experiente, mas com ele tive uma boa iniciação, era muito divertido o convívio com ele era uma viagem para escutar e tirar músicas de rock, e rock progressivo que era o que mais me interessava na época. Depois fui seguindo de forma auto-didata e perturbando os amigos mais experientes com perguntas e pedindo indicações sobre o que ler e o que estudar. Teoria musical aprendi o básico no colégio mesmo, em escola pública.

Como se formou o trio que o acompanha?
Sou amigo do Paulo há alguns anos. Eu o conheci dando uma canja onde ele tocava e desde então sempre curtimos tocar juntos, e o Bruno eu conheci através dele. Gosto de tocar nessa formação de trio e eles também, mas a verdade é que gostamos de tocar em qualquer formação. Essa coisa de ser um trio acontece por força das circunstancias, acredito. Um disco de guitarrista com essa formação expõe a guitarra como instrumento de destaque de forma natural.

"Insight" traz um repertório autoral, como você trabalha o processo de composição?
A composição é um processo em que só há duas maneiras de acontecer: o jeito certo e o jeito errado.
O jeito certo é trabalhar de forma inspirada construindo sem pensar separadamente melodia e harmonia. A música é a melodia, a harmonia é a consequência da melodia. A melodia diz o caminho harmônico, nunca ao contrário. O jeito errado é aquela coisa de escolher uma sequencia de acordes e bolar uma melodia, geralmente não fica bom, como aquelas músicas que não dizem muito, que parecem que está faltando algo, ou uma colcha de retalhos.
Como eu trabalho meu processo de composição? Não sei. Sigo essas premissas citadas acima, mas, talvez por causa do senso crítico muito severo, eu começo as idéias musicais e na maioria das vezes não consigo terminar. Neste disco, marquei as sessões de gravação com 10 meses de antecedência, mas só compus as músicas faltando pouco menos de um mês para gravar. Espero que as próximas músicas aconteçam de forma mais tranquila. Já estou compondo outras e está acontecendo bem.
Sobre como penso o improviso? É óbvio que é o aspecto da música do qual eu mais gosto e mais me dedico, existem muitos detalhes e nuances. Vou sintetizar dizendo que nós somos como o jardineiro e o jardim, a cada dia podamos cada florzinha e cada plantinha por mais singela e pequena que ela seja e no fim o jardim fica grande e bonito. Tudo o que estudamos é para que na hora de tocar não se pense em nada disso. A música tem que acontecer de forma natural e espontânea, como numa conversa, acho que ninguém conversa pensando nas regras da língua portuguesa. Não é mesmo?

foto: Cyntia Santos
A formação de trio faz da execução algo muito intenso, exigindo forte dinâmica e interação entre os músicos. Como você pensa a ausência de um instrumento harmônico como o piano na base do grupo?
Essa pergunta, se você me permite, é um bocado contundente, e está calcada em alguns paradigmas que considero muito nocivos à arte e à música. Vou enumerar e desconstruir.
Não ter um instrumento de harmonia por trás está baseado em achar que a música é um colchão de acordes com uma melodia flutuando por cima. Isso é um dos maiores equívocos da maioria dos músicos que conheço. Se isso fosse uma verdade Mozart e outros tantos compositores não teriam composto tantas obras primas para quarteto de cordas, mas sim para quarteto de cordas e piano.
A harmonia não é uma sequência de acordes, a harmonia é estar em harmonia. Um saxofonista que conheça bem harmonia é capaz de tocar sozinho e descrever todo o caminho harmônico em sua melodia. Quando toco com o Bruno e com o Paulo estamos em harmonia, tudo o que tocamos tem que fazer sentido com o que o outro está fazendo. A guitarra é um instrumento que faz acordes tal qual o piano, mas não pode preencher tudo, tem que tocar junto e saber a hora de não tocar nada. Na improvisação dos colegas de qualquer instrumento, na hora de fazer um acorde tem que escutar antes e fazer o acorde depois, nunca ao contrário. e muitas vezes não tocar nada. O fato de ser intenso, em qualquer formação tem que ser assim, não só com um trio, tem que ter interação e dinâmica senão não é conversa, é palestra, é monólogo com os outros apenas dizendo amém. A música é uma linguagem. Ao contrário do que muitos pensam, piano não é obrigatório e pianistas não são os donos da harmonia. Tem que tocar e deixar os outros tocarem, ninguém gosta de participar de uma conversa quando um fala sozinho o tempo todo e não deixa os outros falarem, não é verdade?
Assim, tenho que discordar totalmente quando você questiona não ter instrumento de harmonia por trás - tem sim, e no caso tem 3 instrumentos de harmonia, por trás, pela frente, por cima, por baixo, pelos lados e na quinta dimensão.

Pode citar referências e/ou influências na sua formação e na sua música?
Essa coisa de enumerar influências é algo que rotula o músico de uma forma que não gosto. Procuro ser original, coisa muito difícil pois tudo o que nós escutamos fica dentro de nós, o que é natural, mas temos que ter nossa própria voz. Vou me limitar a dizer que quando eu era moleque adorava, e adoro até hoje, o AC/DC e me interessei por guitarra escutando o Angus Young tocar, então posso dizer que ele é minha principal influência, mas acho que essa música que faço com o Paulo e com o Bruno não tem nada a ver com isso.

Que equipamentos usou na gravação do disco?
Gravei o disco com minha Gibson 175, amplificador Markbass e efeitos Reverb e Delay muito de leve. Foi simples, nada demais, não só porque gosto do som assim, mas porque era mais prático.
Em  shows uso um pedal oitavador polifônico HOG2 da Eletro Harmonix; também usava uma Gibson 335 que foi roubada, mas hei de recuperá-la, seu número de série é 13341700.

Obrigado Eduardo Guedes, e sucesso.

"Insight" tem concepção e arranjos de Eduardo Guedes e produção musical de Dudu Viana.
O disco está nas plataformas digitais Spotify, iTunes e Deezer, e pode ser comprado pelo site da Tratore e diretamente pelo e-mail eduardoguedes.guitarra@gmail.com


www.eduardoguedes.net/